Uma grande escavação liderada pelo British Museum permitiu revelar mais pormenores sobre uma cidade comercial grega do Antigo Egito. Para isto contribuiu a descoberta de madeira de barcos gregos e figuras egípcias que estavam entre os mais de 10 mil artefactos encontrados no local onde se ergueu Naucratis, na zona do delta do Nilo.

Este porto é referido em registos de Herodotus, um historiador grego do século V a.C., e as novas descobertas abrem caminho a um conhecimento mais aprofundado sobre uma vasta rede comercial que ali tinha lugar, à semelhança de qualquer grande cidade internacional atual, o que faz com que o curador do British Museum, Ross Thomas, conte ao jornal The Guardian que Naucratis deve ser vista, a partir de agora, como a “Hong Kong da sua era”.

Até agora, muitos especialistas calculavam que a cidade era relativamente pequena, mas agora esse pensamento pode vir a ser alterado. Isto porque, as recentes escavações permitem assumir que o local poderia ter o dobro do tamanho do que o anteriormente pensado: “Antes, pensava-se que teria cerca de 30 hectares e foi tudo destruído”, explicou Thomas antes de referir que “agora sabemos que tinha mais de 60, por isso há aí muita arqueologia ainda por escavar”.

A cidade de Naucratis foi um ponto fundamental de trocas comerciais e culturais entre o Egito e outros povos do Mediterrâneo. O seu nome, em grego, significa “amante de barcos”, e, na mesma linha, as descobertas que mais entusiasmaram os exploradores foram fragmentos de navios helénicos. Isto porque, tal como diz Ross, estes são “excecionalmente raros”.

Mas o facto de se ter descoberto restos de navios revela mais uma novidade: “Anteriormente, as pessoas pensavam que os navios paravam no Mediterrâneo e descarregavam para barcaças. Nós podemos agora confirmar pela primeira vez que embarcações viajaram esta distância até ao Egito”, revela Ross Thomas.

Mas há mais. Muito mais. Os trabalhos permitiram também desvendar a localização de um porto, dois templos gregos e santuários. Para além disso, algumas investigações geofísicas levantaram o véu sobre as características e fisionomia da cidade. Pensa-se agora que o local era, na sua maioria, constituído por casas em torre com três a seis andares: “São semelhantes em construção às que se encontram nos dias de hoje no Iémen”, diz Ross.

O curador britânico diz também que os conhecimentos sobre a densidade populacional também podem vir a ser alterados. Agora, calcula-se que a população podia rondar as 16 mil pessoas. Estimativas bem maiores do que as anteriores.

Por último, Ross afirma que as descobertas lançam novas luzes sobre a vida das mulheres no local: “Existem mais inscrições gregas do século VI de Naucratis do que qualquer outro santuário grego. Estes contam-nos muito sobre os comerciantes: existem algumas mulheres representadas; normalmente são apenas comerciantes masculinos.”