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São um laboratório criativo, um tradutor de linguagens. Ou “inventivos” que resolvem problemas. Fazem encolher carros, voar garrafas ou obrigar Hillary Clinton a girar consoante o vento. “Queremos transmitir o efeito surpresa que existe quando tocas nas coisas”, diz Tiago Alvorão, 39 anos. A Jack The Maker é isto. Mas também podia ser “um cruzamento entre a capacidade de pensar e a de produzir bem”, um “não” que se transforma num “não sei” ou um problema cuja solução é a tecnologia. É o Tiago. E é o Vasco. E, sim, são makers. Fazem acontecer.

A Jack The Maker nasceu há seis meses, quando Tiago Alvorão agarrou na mochila e bateu com a porta da agência onde era diretor criativo. Quinze anos de publicidade e cansado de ouvir “isto não é possível” levaram-no a casa de Vasco Barbosa, de quem já era amigo. É ele o responsável pela tradução dos sonhos em protótipos, pela metamorfose da criatividade em engenharia, conta Tiago.

“O criativo sonha e não tem limites, porque trabalha dentro da mente humana. O engenheiro não. Concebe aquilo que é possível fazer fisicamente”, acrescenta Vasco.

Na primeira vez que Tiago e Vasco trabalharam juntos conseguiram ativar máquinas de jogos, como os flippers, tirando caricas de garrafas. Em vez de moedas, utilizaram a internet. “O Vasco esteve durante uma semana e meia a investigar como é que isto se podia fazer [acionar máquinas de jogo com o ato de abrir uma garrafa]. Criámos o protótipo, o espaço e, de repente, fizemos uma coisa que o mercado da publicidade já não fazia há algum tempo: trouxemos algo mais material, um conceito mais tangível, uma experiência totalmente diferente para o cliente”, conta Tiago.

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Foi aí que perceberam que tinham “uma coisa nova” em mãos. Começaram os almoços num restaurante em Alcântara, em Lisboa, e o partilhar da ideia com amigos. Seguiu-se um desafio colocado pela agência de publicidade BBDO: era possível fazer encolher dois carros, para um terceiro estacionar entre eles?

A Vasco Barbosa bastou-lhe olhar com atenção para o portão da garagem de Tiago. Percebeu o sistema, comprou um carro telecomandado, cortou a carroçaria e desenvolveu o mecanismo artesanalmente. Ficou com o protótipo pronto para apresentar à BBDO. Em breve, tinham dois carros construídos de raiz, falsos, que literalmente encolhem para que outro possa caber entre eles. “Ainda hoje há pessoas que acham que é Photoshop”, conta Tiago. A campanha publicitária chegou à televisão e a Jack The Maker chegou ao mundo.

Dos Metallica a Hillary Clinton

Depois dos carros que encolheram, rumaram ao Brasil, com o Rock in Rio como destino. Foi neste país que proporcionaram aos convidados do lounge VIP de Roberto Medina, fundador do festival, uma experiência tecnológica que os levou para o centro do palco em que atuaram, por exemplo, os Metallica. “Eles queriam que as pessoas no ‘Vipão’ conseguissem ter a experiência de estar ao lado das bandas, enquanto elas estivessem a tocar”, conta Vasco. Conseguiram-no através de um serviço de realidade aumentada, com transmissão de vídeo em tempo real e em 360º.

A experiência foi uma porta que se abriu para o mercado brasileiro, onde têm um parceiro local. Depois do Rock in Rio, foi a vez do Sónar, em São Paulo, onde recorreram a uma tecnologia já existente para criar uma instalação artística.

“A tecnologia não tem que ser o último grito da moda”, afirmou. “É juntar os elementos certos para resolver um problema”, acrescentou. E a fama de que a Jack The Maker resolve problemas já chegou à Rússia.

Enquanto Tiago estava em São Paulo, Vasco estava em Nova Iorque. A fazer girar Hillary Clinton com a força do Twitter. Como? Através de um conjunto de ventoinhas e do algoritmo de análise de temas que desenhou para o efeito. “Era uma intervenção sobre as eleições americanas. Para demonstrar que os políticos andam ao sabor do vento da opinião pública”, explica Vasco.

Criaram um círculo de ventoinhas e cada uma representava um dos temas que estava a ser discutido na campanha eleitoral. Essas ventoinhas estavam ligadas ao Twitter e a força do vento alterava-se consoante os temas que estivessem a ser mais discutidos e a opinião dos utilizadores. À medida que os temas iam mudando (ou seja, à medida que determinada ventoinha soprava mais forte do que as restantes) mudava também a orientação da bandeira de Hillary, colocada no centro.

“A internet precisa um bocadinho de geografia. E ali conseguias ver em tempo real o que a opinião pública americana estava a discutir”, explicou Tiago.

Depois disto, a equipa do Jack The Maker decidiu que tinha de encontrar um presidente, alguém que estivesse focado na gestão de negócio, para que Tiago e Vasco pudessem pensar e criar à vontade. E andam à procura. Até porque os planos passam por abrir um escritório em São Paulo e outro em Nova Iorque. “São precisos mais Vascos”, diz Tiago. E quem é o Vasco? “O Vasco é, por definição, um português inventivo que resolve problemas”, acrescenta. É um maker.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.