Palavras duras do deputado socialista Sérgio Sousa Pinto. O antigo líder da JS já se tinha manifestado publicamente contra a aliança do PS com Bloco e PCP, ainda a estratégia de António Costa não tinha saído do papel. Agora, num artigo publicado na página pessoal do Facebook, Sérgio Sousa Pinto volta ao ataque: “Apoiar lealmente este governo nos seus esforços é uma coisa. Desfilar com entusiasmo acéfalo num mundo de fantasias, ilusões e enganos é outra. Comunicar construtivamente com os outros do lado de lá, por cima do muro, já é muito. Sem esquecermos que queremos que o futuro de Portugal se decida do lado de cá”. Resumindo, o PS não pode perder a identidade e ceder a “demagogias”.

Esta é a primeira vez que Sérgio Sousa Pinto critica publicamente a estratégia seguida pelo partido desde que apresentou a demissão da direção do PS, a 10 de outubro. No Facebook, o socialista começa por questionar o enfâse dado à alegada queda do muro que separava o PS dos partidos à esquerda. “Nunca faltou quem na esquerda pensasse que o PS, aliado ao PCP, e mais recentemente ao Bloco, seria forçado a tirar o socialismo da gaveta, onde Soares o teria metido, deitando fora a chave. Assim se compreendem as festivas celebrações do derrube “histórico” do muro que separava as esquerdas. Ainda se ouviam pandeiretas e já o muro ressurgia, descoberto pela votação do orçamento retificativo. Ainda ecoavam os pífaros e já o arco da governação se impunha outra vez, tão real e tangível como o arco da Praça de Espanha”.

“A grande obra de engenharia”, como muitos lhe chamaram e que Sérgio Sousa Pinto agora critica, permitiu ao PS, “segundo partido mais votado nas eleições”, lembra o socialista, formar governo. Mas essa mesma engenharia teve um efeito secundário: alargou “evidentemente, o fosso entre os eleitores e a comunidade política”, diz o deputado.

Para certa esquerda, o grande problema nacional é a direita. E afastá-la o essencial do seu programa. Nunca foi esta a cultura do PS, forjada na oposição à ditadura e, depois, ao de assalto ao poder do PCP”, continua Sérgio Sousa Pinto, para quem “as dificuldades da governação, o confronto com realidades teimosas, o reconhecimento de obstáculos históricos e naturais (…) fortaleceram no PS uma abertura à complexidade, ao pragmatismo, ao compromisso, ao possibilismo”.

A terminar, Sérgio Sousa Pinto deixa um aviso claro: “É vital que o PS, e sobretudo os seus militantes, não se afastem dessa cultura política fundamental, sobre a qual Mário Soares construiu o nosso partido”. “O PS nada tem a incorporar em seu benefício, do radicalismo e da demagogia dos que se imaginam ‘mais de esquerda’, apropriando-se com estridência das grandes realizações sociais dos governos do Partido Socialista“.