Comecemos por um pouco de contexto. Após a interrupção de Humor de Perdição, em 1988, o verdadeiro artista volta-se para a rádio, com uma rubrica diária na TSF, onde faz nascer personagens como a conselheira sentimental Ivete Marise ou o repórter queque Bernardo Teixeira da Cunha. Em 1990, volta em grande à antena da televisão pública, com a apresentação do concurso A Roda da Sorte e os 13 episódios de Casino Royal, cujo elenco transita quase por inteiro (a ele se somando Canto e Castro) para o especial de fim de ano encomendado pela RTP, que foi escrito por Herman José em apenas quatro dias.

Nas suas duas horas e meia, Crime na Pensão Estrelinha saltita entre dois planos. Por um lado, a trama passada na pensão Estrelinha em torno da morte de Neves, o dono odiado por todas as restantes personagens, cada uma com o seu motivo para o querer ver pelas costas. Ao mesmo tempo, na pensão, assiste-se ao programa de variedades “Adeus 90, Olá 91”, apresentado por Serafim Saudade e entrecortado por sketches que revisitam os acontecimentos do ano de 1990, muitos deles repescados das crónicas de Herman na TSF.

A Time Out Lisboa editou há uns anos o DVD deste programa de culto, que inclui uma entrevista feita por João Miguel Tavares a Herman José. O autor não esconde o orgulho que sente por esta sua criação, que foi uma espécie de “tese de mestrado” como escritor de humor: “Foi a primeira vez que um programa de réveillon fez história”, segundo o mestre.

O Observador reviu com gosto este concentrado de humor, cuja exibição completa hoje 25 anos, e escolheu 12 aspetos — um por cada badalada da meia-noite — que ilustram a sua genialidade. Divirta-se com os vídeos.

1. Os suspeitos do crime

Herman representa o detetive Hércules Pirô, chamado para desvendar quem matou Neves (Canto e Castro), o odioso dono da pensão Estrelinha, na noite da passagem de ano. José Pedro Gomes é um militante de esquerda, que namora com uma dentista brasileira, interpretada por uma novíssima Rita Blanco. Vítor de Sousa é um bancário responsável por um desfalque no seu banco, a “Velha Rede”, e casado com uma mulher do Porto (Ana Bola). São José Lapa faz de atriz muito dramática e Maria Vieira é Estrelinha, a dona original da pensão, que a perdeu para Neves. Destaque também para Nuno Melo, o ator que morreu em junho deste ano, e que aqui faz de filho de Neves, que mantém um romance com a sua madrasta (Lídia Franco). A trama da pensão valeria como um programa autónomo, com um excelente cruzamento de diálogos e provocações entre as personagens.

2. Canções sobre os candidatos às Presidenciais

Há 25 anos, Portugal estava igualmente em vésperas de eleições presidenciais. Herman aproveitou o pretexto para dedicar uma canção a cada um dos candidatos: Mário Soares (“Marinho dos Olhos Doces”, a partir do original de Carlos Mendes), Basílio Horta (“Sempre que o país me quiser”, baseado no êxito de Lena d’Água), Carlos Carvalhas (versão de “Porto Sentido”, de Rui Veloso) e Maria Santos (versão de “Morena, Morenita”, de Marco Paulo). Curiosamente, a candidatura de Maria Santos acabou por não avançar e o candidato Carlos Marques, da UDP, não teve direito a canção.

3. “Adérito, volta que estás aperdoado”

Ivette Marise é uma das personagens nascidas no éter da TSF. A esthéticien de Serpa destaca em 1990 a doença das vacas loucas e não esconde as saudades que sente do seu namorado Adérito.

4. Maximiana

A mais famosa e estridente habitante da Merdaleja também é convidada a fazer o seu balanço de 1990, com um burro como pano de fundo.

5. “A malta é jovem”

Vítor de Sousa entrevista Zé Chunga, para saber como é que “um jovem” vive a passagem de ano. A frase virou bordão para desculpar os excessos da juventude.

6. O Trevo da Morte

Esta paródia aos concursos que pululavam na televisão daquela época é o sketch preferido de Herman. O castigo para os concorrentes que não soubessem responder a perguntas tão simples como “quanto pesa a crosta da Terra?” ou “quantas páginas tem a lista telefónica da Nova Zelândia?” era um tiro, neste concurso onde “morrer e quinar é o que está a dar”. O apresentador foi inspirado em António Sala.

7. Felizberto Lalande

O presidente da “Associação Daqueles Que Não Sabem Dizer os L” dá uma entrevista a Vítor de Sousa, onde uamenta a sua triste sina: trabalha nos lanifícios, toca balalaica, dorme num beliche, joga futebol de salão à baliza, gosta de ver filmes da Gina Lollobrigida e o “Alô, Alô”, o que é muito azar junto para quem não consegue pronunciar a letra L.

8. Tranatranita

Às 12 badaladas, bebe-se champanhe na pensão Estrelinha. Mas o copo de Neves, o tal dono que todos queriam ver morto, continha um raticida altamente venenoso, composto por uma mistura de bromopatasona, glimificatona e tranatranita. A última substância (inventada, claro está) ficou especialmente no ouvido.

9. Trocadilhos

Lita Gomes (São José Lapa): – Nunca lhe falei da minha interpretação da Fedra? Uma encenação linda, toda passada num cenário fantástico em forma de sapato. Foi até conhecida na gíria como a Fedra no sapato.
Estrelinha (Maria Vieira): – E foi gíria?

Jogos de palavras como este são uma característica de Herman, que neste programa consegue possivelmente o maior rácio de trocadilhos por hora da sua carreira.

10. O emigrante português em Berlim

A propósito da reunificação alemã, Vítor de Sousa conduz mais uma entrevista, desta vez a um natural da aldeia de Catraponga de Baixo, em Trás-os-Montes, emigrado há vários anos em Berlim. O facto de não ver a família há 15 anos não impede que a mulher continue a ter filhos “seus”.

11. Palincalunga e os 40 Catrapangalongos

Rosa Lobato de Faria faz uma breve aparição num sketch de 30 segundos, onde divulga o seu livro infantil de nome impronunciável. “Na contracapa vem escrito que os direitos são em favor da UNICEF, mas não acreditem; é um pequeno truque que inventei para vender mais livros.” Para além dos erros que deixou para os leitores se divertirem a encontrar.

12. Receitas de batata

Uma das personagens mais populares de Herman, desde os tempos d’O Tal Canal, é uma sátira à cozinheira Filipa Vacondeus, falecida no início de 2015, e à sua filosofia de aproveitamento de restos. Nesta rábula, Filipa Vasconcelos prepara um menu à base de batata: gaspacho de batata, chá de cascas de batata, postas de batata acompanhadas com puré de batata e grelos de batata, hambúrgueres de batata com batata frita e, para terminar em beleza, mousse de batata. Desta vez, tudo sem paprika.