Pedro Branco tinha estado exactamente nos mesmos sítios na noite de 28 para 29 de Setembro. Lembra-se dos melhores recantos para deixar a carrinha, em ruas onde parece impossível estacionar: “Daquela vez foi mais fácil. Sabe, a verdade é que de madrugada há coisas que são mesmo mais fáceis.” Este é o chefe da equipa que montou a exposição “Coming Out”, do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), e é ele que dá as ordens na desmontagem. Diz que tem que ser tudo “devagar” mas “sem perder tempo”. Os quadros que estão nas ruas de Lisboa não são genuínos mas serão vendidos em leilão a partir desta quarta-feira, dia 6, através do site do Palácio do Correio Velho. “Nem as molduras podemos estragar. Tem ideia do trabalho que deu arranjar estas molduras?” Não, mas pelo que diz deve ter sido bastante. “Foi. Foi bastante.”

Rua do Alecrim, em frente a “Salomé com a Cabeça de João Baptista”, de Lucas Cranach (1510). É a primeira reprodução a ser retirada. Em números arredondados, 60 cm por 50 cm, coisa pouca. “Mas são precisos três homens para tirar isto. E eu tenho mais de 60 anos.” Pedro Branco, ele outra vez. É ele quem manda durante toda a manhã e é assim que tem de ser. Quadro retirado, ficam à vista as calhas que o sustentaram. Logo a seguir, os parafusos e afins. André Afonso, do MNAA, acompanha toda a operação e diz que a parede não fica neste estado, não pode: “Quando foi preparada a exposição, foi preciso garantir as autorizações para que os quadros pudessem ser presos às paredes. E falamos, na grande maioria dos casos, de propriedade privada. Os proprietários tiveram muito gosto em ficar associados a esta iniciativa, mas querem ficar com as paredes como estavam.” Daí que depois de tudo isto seja preciso reparar o estrago. Nada de mais, assegura André.

[Veja nesta fotogaleria o caminho da “Virgem das Dores” da parede à carrinha]

4 fotos

A exposição “Coming Out” surgiu porque o MNAA quis levar a arte para as ruas, quis fazer com que a criação artística estivesse presente nos dias que não incluem visitas aos museus. O resultado foi “magnífico”, conta André Afonso. Houve “proximidade”, houve “uma enorme empatia com estas reproduções”. E até os roubos que aconteceram, em parte previsíveis, “fizeram parte desta nova relação entre o museu e a cidade”.

A mesma relação que agora leva alguns a não perceber por que razão vai ser tudo desmontado. “Não façam isso, isto fica aqui tão bonito. Vivo aqui perto há mais de 40 anos e nunca tinha visto as ruas assim… chamo-me Manuela.” Bom dia, Manuela. Já agora que está aqui, deixamos um esclarecimento à vizinha dos retratos de D. Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida, ambos do século XVI. O que vê da sua janela, no Largo Barão de Quintela, pode vir a ter dentro de casa. A base de licitação no leilão que começa dia 6 às 10h (e que se prolonga até dia 10 às 22h) vai ser de 100 euros para todas as reproduções, depois é ver quem dá mais. “Pois, isso eu já não sei”, diz Manuela. É justo. Mas acrescentemos que todo o dinheiro recolhido será entregue ao Grupo dos Amigos do MNAA e à campanha de compra de “Adoração dos Magos”, de Domingos António Sequeira. São precisos 600 mil euros e na manhã desta segunda-feira o museu contava 87.201,52€. Depois destes números, Manuela diz adeus e a equipa de desmontagem segue caminho.

EMEL, alemães e um leilão

Chiado, Travessa dos Museus, escadaria de cima a baixo, não é fácil abrir ali o escadote. Tudo se resolve. É que numa das paredes está o “Tríptico da Descida da Cruz”, de Pieter Coecke Van Aelst (1540-1545). No total, são 3,40 metros por 2,74. Pedro Branco, ou “o senhor Pedro”, recorda o essencial: “Quatro homens para tirar uma peça de cada vez. Hoje há alerta laranja, o vento tem dias.” No meio da agitação, pára uma turista holandesa, que tira muito mais fotos à ocorrência depois de lhe ser explicado o que se está a passar. Pára o fiscal da EMEL, que diz “sim senhor” quando vê a carrinha estacionada em cima do passeio: “Sem problema, claro, eu vi isto na internet.” Há quem pergunte se é preciso ajuda; outros atiram, com toda a lata que coleccionaram na vida, “posso ficar com isso?”; e depois há Hans – nome verdadeiro, nada disto é inventado – que quer saber “onde há mais disto, que cheguei ontem a Lisboa, vim de Berlim, e não sabia de nada”. Dá um adeus satisfeito quando segue caminho com um roteiro no bolso, para fotografar enquanto pode.

Em algumas ruas já só há calhas de alumínio, noutras nem isso ficou. André toma nota do que há e não há e acerta o inventário antes da primeira viagem até ao Palácio do Correio Velho. Outra vez os problemas de estacionamento, outra vez Pedro Branco a resolver, a Calçada do Combro é dele e ninguém sabia. Tudo certo para descarregar as primeiras reproduções e para o início da montagem da exposição que antecede o leilão. O Correio Velho é um cruzamento misterioso de corredores e salões, de peças de mobiliário e talha dourada, pinturas, porcelanas e pedra trabalhada com gosto e jeito. Os quadros que fizeram a “Coming Out” ainda não vão para um local definitivo. Ficam à espera, guardados com cuidado, numa sala que de um lado tem um Almada Negreiros, do outro uma pintura de Júlio Pomar.

coming out quadro escadas

O retrato de D. Francisco de Almeida é levado para o Palácio do Correio Velho

Ao centro, André Afonso revê pormenores com Diana Rafael, da leiloeira: “Vemos aqui mesmo, tomamos já nota de tudo”, diz. As reproduções que já por ali estão, as que ainda faltam, os quadros que não vêm de certeza e os que ainda podem chegar a tempo. Contas finais só mais tarde mas isso já todos esperavam. André lembra o essencial: “O retrato do Conde de Farrobo, de Domingos Sequeira, que tinha sido levado para o Laranjeiro, foi devolvido. E ainda há poucos dias alguém ligou para o museu a avisar que uma das reproduções estava prestes a cair, fomos a tempo de a salvar. Vai tudo acabar bem.” Claro que vai. Até porque haverá sempre Pedro Branco, o senhor Pedro, pedimos desculpa. Diz que a primeira volta está dada. Que “o carro está mal parado”, talvez seja melhor resolver isso. Depressa, que “é hora de almoço”. Feito.

Resultado final

Último dia de exposição é igual a desmontagem, isso já vimos. Mas é também um bom dia para fazer avaliações. Inicialmente, a exposição tinha 31 obras, a que foram acrescentadas outras três depois de alguns roubos. Esta segunda-feira, restavam 19. O director do MNAA afirma que a “Coming Out” “não podia ter corrido melhor”. Foi uma “operação de divulgação do museu e das suas colecções, do valor da instituição”, mas essa era a parte que António Filipe Pimentel esperava. “O que não imaginámos é que a exposição se transformasse neste fenómeno viral, a nível nacional e internacional. Mesmo que por via dos furtos, que deram uma informação estimulante e interessante.”

O MNAA estava “preparado para tudo”, diz, e não havia medidas especiais de segurança. “Mas também não houve praticamente vandalização das obras. Houve, isso sim, a apropriação de algumas reproduções.” Mesmo aí, o director do museu recorda que “o que as pessoas quiseram foi a beleza”. As quatro obras levadas pelo “Robin das Artes” representaram uma espécie de alargamento da área geográfica da exposição, “mas de novo para fruição pública”. No final, três das réplicas acabaram depois por desaparecer “mas uma delas foi devolvida e vai estar no leilão”.

coming out lagrima

Alguém pintou uma lágrima na “Virgem com o Menino e Santos”, de Hans Holbein, O Velho

Andamos umas linhas atrás na conversa e insistimos na projecção internacional desta iniciativa. António Filipe Pimentel dá casos práticos. “Lembro-me de um colega que há dias foi até Dusseldorf e viu no canal alemão ZDF uma reportagem sobre a ‘Coming Out’. Ou uns colegas do serviço educativo que há poucas semanas estiveram em Granada e todos os professores que estavam naquele congresso sabiam da exposição. Além disso, o leilão é conhecido em toda a parte. A agência de notícias espanhola EFE fez uma peça sobre a exposição e divulgou-a por todo o mundo que fala castelhano, com maior impacto vindo dos Estados Unidos, onde é a segunda língua.”

Sobretudo de Portugal, o MNAA recebeu “vários pedidos para aquisição ou reprodução das réplicas”, conta o director, que confirma também que para breve estará disponível o catálogo da exposição. E as visitas ao museu organizadas em torno das obras expostas nas ruas “estiveram sempre cheias”. António Filipe Pimentel resume assim o resultado: “O museu cumpre a sua função, divulga o acervo e mobiliza a cidadania.”

E, além disso, dá continuidade à campanha de aquisição de “Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira. O responsável pelo MNAA revela que “a subscrição está numa fase ainda relativamente embrionária, perto dos 15% do valor” que se pretende alcançar. E recorda que o valor recolhido até agora é, essencialmente, “fruto de uma mobilização enorme de milhares de cidadãos com pequenos contributos, mas estão agora a aparecer os mais numerosos”. Todas estas contas não impõem mais expectativa sobre o leilão que aí vem? Nem por isso: “O mais importante é não ter expectativas. Ainda assim, como houve tantos pedidos e sugestões, talvez isso se repercuta no leilão. Vamos ver.” Vamos. E uma reprodução favorita, qual escolheria se pudesse? “O director de um museu como este sente-se pai de todas as obras. Talvez o ‘Retrato do Conde de Farrobo’, do Domingos Sequeira, porque tem aqui o currículo mais simbólico e é uma peça de que gosto muito.”