A transfusão de plasma (parte líquida do sangue) de sobreviventes do ébola para doentes recém-infetados mostrou-se exequível e segura, mas pouco eficaz, conforme os resultados publicados na revista científica The New England Journal of Medicine. Isto não quer dizer que este tipo de terapia esteja completamente descartado, apenas que é preciso mais investigação sobre o tema, conforme esclarecem os investigadores numa página de perguntas e respostas do projeto Ebola-Tx.

O ensaio clínico, realizado ao abrigo do projeto Ebola-Tx, seguiu as recomendações da Organização Mundial de Saúde: uma dose única que incluía 250 mililitros de plasma de um dador (um sobrevivente de ébola) mais 250 mililitros de outro dador. A quantidade de anticorpos presentes no plasma, capazes de eliminar o vírus ébola, não foi avaliada porque a equipa de investigadores não tinha os recursos necessários no local. Mas as amostras foram enviadas para França e os cientistas esperam poder perceber se o plasma com maior carga de anticorpos é mais eficaz.

No futuro os cientistas podem avaliar se a quantidade de anticorpos contra o vírus ébola é importante e se é necessário aumentar a concentração no plasma ou se, por outro lado, é preciso realizar mais do que uma transfusão de plasma ou transfusões de maior volume. Também se pode dar o caso de que o plasma só funcione com alguns grupos de doentes, como grávidas ou crianças. De qualquer forma, o importante é que se criem condições para colher e fazer transfusões de plasma de forma rápida e com as condições existentes nos locais afetados.

Este ensaio decorreu de fevereiro a julho de 2015, no Centro de Tratamento para o Ébola em Conacri, na Guiné-Conacri, que é gerido pelos Médicos Sem Fronteiras, referiu o comunicado de imprensa. A taxa de sobrevivência de 84 doentes que receberam o plasma dos dadores sobreviventes foi comparada com a de 418 doentes que receberam o tratamento convencional, no mesmo centro, nos cinco meses que antecederam o estudo. A taxa de sobrevivência não se mostrou estatisticamente diferente e não ultrapassou os 20% como era requerido para que o tratamento fosse considerado bem-sucedido.

Entre as vantagens da utilização de plasma de sobreviventes contam-se a facilidade da colheita e da aplicação do tratamento, mesmo durante um surto de ébola. Mas esta pode ser também uma forma de vencer a estigmatização das pessoas que foram infetadas, porque os sobreviventes podem mostrar que já não estão doentes e que até podem contribuir para curar outras pessoas.