É visto como o mais natural sucessor de Paulo Portas na linha da continuidade e não lhe faltam apoios para avançar. O congresso que vai eleger o novo líder, e que só será marcado na reunião do Conselho Nacional de amanhã, deverá realizar-se em meados de abril mas Nuno Melo já deixou claro que anuncia a sua decisão “para a semana” – ou seja, depois da reunião desta sexta-feira no Largo do Caldas. Num artigo publicado esta quinta-feira no Jornal de Notícias, Nuno Melo fala pela primeira vez do futuro do partido para tranquilizar a “má-língua”: o CDS não vai morrer com a saída de Portas.

“O CDS é uma escola de políticos que se notabilizaram durante a liderança de Paulo Portas e para além dela. Desde 1976 que assim sucede, como desde 1976 algum comentário político antecipa que o fim do partido chegou. Devo relembrar que se enganaram sempre. Felizmente para Portugal, enganar-se-ão uma vez mais”, escreve o eurodeputado.

No mesmo artigo, o eurodeputado centrista sublinha que o CDS “tem ideologia, base e quadros” e que ocupa um espaço no centro-direita, ora no Governo ora na oposição, que “nenhum outro partido foi capaz de substituir”. Para Melo, o CDS “nunca foi um partido de um homem só” e sublinha mesmo um rol de nomes que se destacam no Largo do Caldas. “[Paulo Portas] deixou crescer e caucionou o futuro que se deve encarar com confiança”, acrescenta.

A chamada vaga de fundo que tem vindo a surgir em torno de Nuno Melo já conta mesmo com manifestações públicas de apoio. Esta semana o porta-voz da comissão executiva do CDS, Filipe Lobo d’Ávila deixou claro na sua página de Facebook quem era o seu candidato. “Já há moções anunciadas, mas não há ainda candidatos. Não há ainda candidatos e as preferências já são para todos os gostos. Em semana de Conselho Nacional eu manifesto a minha: Nuno Melo. Não sei se o será, mas o CDS ficaria muito bem entregue”, escreveu.

Esta quarta-feira, Nuno Melo levantou a ponta do véu afirmando, em declarações ao Diário de Notícias, que estava a “ponderar” sobre a candidatura, e que anunciaria a sua decisão “na próxima semana”.

Certo é que Melo não é o único que está a ser incentivado para avançar. Depois de Luís Pedro Mota Soares se ter posto fora da corrida, como noticiou o semanário Expresso este fim de semana, e depois de João Almeida também ter dito que iria participar da discussão sobre o novo rumo do CDS, apresentando uma moção estratégica ao congresso, mas sem se sujeitar a votos, o nome que persiste é o de Assunção Cristas. A ex-ministra da Agricultura, que chegou ao partido há pouco tempo, em 2007, pela mão de Paulo Portas, parece representar a corrente da renovação dentro do partido.

O outro lado. Mesquita Nunes quer “mudança” e “renovação”

Num outro artigo de opinião, publicado esta quinta-feira na revista Visão, o ex-secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, aproxima-se mais desta segunda via, ainda que não aponte nomes para a liderança, e pede a “renovação” do partido, com “reformas” feita com base na “sensatez” e na aproximação à vida real dos portugueses. Menos retórica, mais pragmatismo, defende. Sob pena de o CDS perder o seu espaço político e de, ao contrário do que defende Nuno Melo, vir mesmo a morrer.

“Sem esta ambição reformista, o CDS perde espaço e razão de ser face aos seus concorrentes, não chega às novas gerações, não se assume como primeira escolha, torna-se dispensável, ocasional”, escreve Mesquita Nunes, um dos jovens quadros centristas que se destacou sob a liderança de Portas.

Para Adolfo Mesquita Nunes, esse reformismo do CDS deve ser pautado pela “sensatez” e pela participação dos portugueses em todo o processo. “Qualquer reforma duradoura pressupõe pragmatismo”, diz, contrapondo com a ideia de que, sem isso, o CDS corre o risco de ser apenas um partido que se “entretém nos debates parlamentares, ganha na retórica mas não atrai quadros, distrai-se das preocupações das pessoas, não lhes arranja soluções”. Pelo caminho, uma alfinetada sobre acontecimentos recentes protagonizados pela bancada centrista:

“O CDS não pode responder à esquerda com ameaças de PREC ou tiradas sobre o 25 de Novembro. Tem de responder com as melhores propostas. Só assim o CDS será a escolha descomplexada daqueles que querem mudar Portugal e não o partido mascote que entra em pirraça com o Bloco de Esquerda”, escreve.

A questão da nova liderança, explica, é decidir entre um CDS “fechado” e preso aos “bastiões de ontem”, “protetor de nichos”, ou um CDS aberto à mudança e à abertura à sociedade, com novas formas de comunicar e de chegar às pessoas. No final, Adolfo Mesquita Nunes repete o tom fatalista que Nuno Melo afasta em toda a linha: se não mudar agora, o CDS “perderá uma das maiores oportunidades de afirmação da sua história”. “E não haverá muitas mais”, sublinha.