“Não me perguntem onde estarei daqui a 10 anos, irei certamente fazer muitas coisas, mas serei sempre militante do CDS”. Foi assim que Paulo Portas, emocionado, saiu do largo do Caldas depois do seu último Conselho Nacional enquanto líder do partido. Não foi preciso nenhum jornalista lhe perguntar, aliás os jornalistas já nem esperavam qualquer declaração do ainda presidente do CDS, foi mesmo Paulo Portas que quis falar sobre o seu futuro. E assim, de forma mais ou menos enigmática, deixou escapar que o intervalo da política deverá ser de 10 anos – por coincidência tempo de duração de dois mandatos presidenciais.

A reunião do Conselho Nacional, que se antevia longa, acabou por ser mais rápida do que o esperado. Tratados os assuntos práticos de calendário e de regulamento do congresso, que ficou agendado para os dias 12 e 13 de março, falou Paulo Portas e, em vez de os conselheiros se levantarem um a um para intervir, Telmo Correia leu um voto de “louvor e agradecimento”. “Foi muito afetivo, foi uma noite bonita que eu quis que fosse serena”, disse Portas à saída, onde ainda reforçou a sua “grande confiança na nova geração” do CDS.

“Houve momentos emocionais, de emoção genuína, e particularmente sentidos”, disse no final Telmo Correia, deputado e presidente do Conselho Nacional, lembrando que “Paulo Portas é uma pessoa emocional na sua maneira de ser” e que “vai continuar a ser o mais ilustre militante do CDS” – independentemente daquilo que venha a fazer no futuro.

Foi o último Conselho Nacional – órgão máximo entre congressos – sob a liderança de Paulo Portas, que sai ao fim de 16 anos. O congresso que elegerá o novo líder ficou marcado para os dias 12 e 13 de março – mais cedo do que estava a ser equacionado e antes mesmo do congresso dos sociais-democratas (que será entre 1 e 3 de abril). “Se fosse em abril seria um período muito extenso politicamente”, notou Telmo Correia, antevendo que o calendário foi antecipado para não prolongar no tempo o debate da sucessão e a contagem de espingardas.

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A eleição dos delegados ao congresso será dia 20 de fevereiro e o prazo para a entrega das moções será 26 do mesmo mês.

Ainda é “o tempo dele”, dizem os presumíveis sucessores

Foi uma espécie de “E depois do adeus”. Depois do anúncio da não-recandidatura de Paulo Portas, a reunião do Conselho Nacional do CDS decorreu esta noite no largo do Caldas para marcar a data do congresso que vai eleger o novo líder. Já há data mas ainda não há candidatos assumidos. Nuno Melo e Assunção Cristas, os dois nomes na pole position, chegaram ao Caldas alinhados no discurso: “Hoje é o tempo do dr. Paulo Portas”, disse Assunção Cristas. “Eu, de CDS hoje, só dr. Paulo Portas”, limitou-se a acrescentar Nuno Melo. Ou seja, é o tempo da despedida.

Falando aos jornalistas à entrada do Conselho Nacional, órgão máximo entre congressos, Nuno Melo foi breve e perentório: elogiou a “liderança extraordinária” de Paulo Portas e disse que hoje só falava sobre o líder, nada mais. Momentos antes, também a ex-ministra da Agricultura, Assunção Cristas, tinha feito o mesmo número. “É o dia dele”, disse. E questionada sobre a sua eventual candidatura para a liderança sorriu e rematou o assunto: “É tempo do dr. Paulo Portas, de agradecer e elogiar o seu extraordinário trabalho, não vou dizer mais nada sobre isso”.

Mas se da parte dos dois putativos candidatos à liderança não se ouviu uma palavra sobre o assunto tabu, o mesmo não se pode dizer de outros dirigentes, que admitem que o congresso vá ser “disputado” e “muito vivo”. João Almeida, secretário de Estado no anterior Governo que já anunciou apresentar uma moção (não sujeita a votação) ao congresso, fez questão de lembrar que é possível que haja mais do que uma candidatura (vinda do núcleo duro), sendo que, a acontecer, isso não será sinal de divisão no partido. “Haver duas candidaturas não obriga a que haja exclusões”, disse, depois de explicar que não avançou por considerar que outras pessoas tinham “mais vontade” e “reuniam melhores condições”.

Para João Almeida, tanto a hipótese de haver um só candidato “agregador” de todas as visões, como a hipótese de haver mais do que um, que “estimule o diálogo inclusivo”, são “positivas”. Isto porque, sublinhou, os possíveis candidatos não se estão “a pôr uns à frente dos outros”. Em todo o caso, “não há pressa”. “O partido está a encarar este processo com serenidade”, disse.

Também Filipe Anacoreta Correia, o rosto da tradicional corrente de oposição ao portismo, defendeu à chegada ao largo do Caldas que espera um congresso “muito vivo”, “animado” e “disputado”, com mais do que uma candidatura. Remetendo para mais tarde uma decisão sobre o eventual anúncio da sua própria candidatura, o líder do movimento Alternativa e Responsabilidade admitiu que, para além da sua, possa haver mais do que uma candidatura vinda da atual direção do partido, leia-se Nuno Melo e Assunção Cristas. “Veremos”. “Vai haver necessariamente um confronto mas no dia seguinte estaremos cá todos a trabalhar no mesmo”, acrescentou.

O Conselho Nacional do CDS decorreu esta noite, à porta fechada, começando com uma intervenção longa de Paulo Portas e a leitura de um voto de “louvor e agradecimento” ao líder pelo trabalho feito ao longo dos últimos 16 anos. “Só depois disto discutimos a liderança”, sublinhou o deputado e presidente do Conselho Nacional, Telmo Correia, ainda à entrada para a reunião. Símbolo de união, ou não, Nuno Melo e Assunção Cristas estiveram sentados um ao lado do outro, na primeira fila.