O CDS deve marcar hoje o congresso da substituição de Paulo Portas, num momento raro no CDS e único na vida política nacional. A conjugação dos dois fatores (substituição de um líder marcante e a nova maioria de esquerda) fazem com que os desafios estratégicos do partido sejam dos maiores da sua história. Ouvindo dirigentes atuais do partido, o Observador cruzou os que são mais discutidos — e os que marcarão as escolhas dos próximos meses. Incluindo o novo líder (mas muito para além disso).

1. O voto útil acabou mesmo?

Foi o que concluiu Paulo Portas na reunião onde revelou a sua decisão de saída. Porquê? O ainda líder do CDS acredita que o sistema político mudou radicalmente em novembro, quando António Costa decidiu (e conseguiu) ser primeiro-ministro sem ter sido o mais votado nas eleições — e ganhando o posto com os votos da maioria de esquerda que existe na Assembleia da República.

Com isso, de facto, alguma coisa pode ter mudado — e com reflexos potencialmente positivos para os partidos mais pequenos: a partir daqui, podem ir para eleições dizendo que os (frequentes) apelos ao voto útil que são feitos pelo PS e PSD deixam de ter o mesmo efeito. Para ir para o Governo não é preciso ganhar, é preciso apenas que um bloco político tenha a maioria dos deputados na AR. O importante é a soma das partes, não o resultado de um só.

Para o CDS, isto pode ter duas consequências:

  • Do ponto de vista tático, permite ao partido ir mais facilmente sozinho a eleições — com um discurso diferente do do PSD. No partido há quem tenha analisado os dados das eleições e concluído que o grau de volatilidade do eleitorado aumentou substancialmente — e que isso dá um espaço ao partido para crescer que antes não tinha;
  • Do ponto de vista dos objetivos também há vantagem: “Se isto não tivesse acontecido, o PSD e o CDS nunca diriam que fariam governo se o PS tivesse mais votos, agora esse caminho está aberto”, diz o dirigente do partido. “O jogo fica mais aberto, não tínhamos esta opção, agora temos”, reforça outro.

Porém, nada é tão simples assim. Desde logo, o efeito não é matemático (ou seja, quem ganha contará sempre numa eleição). Depois, o argumento não conta com a imprevisibilidade do caminho desta maioria (mas já lá vamos); por fim, o ‘efeito Costa’ cria um outro problema ao CDS — que compete com a virtude do ‘fim do voto útil’: é que se a direita só chega ao poder com 116 deputados, isso é mais difícil sem coligação pré-eleitoral e mais fácil com ela. Porque uma coligação garante, com o sistema de Hondt, mais deputados eleitos com os mesmos votos.

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2. É possível evitar uma nova coligação?

Os objetivos dão caminhos contraditórios para o partido. Para chegar ao Governo, dir-se-ia que sim (pelas razões acima descritas); para afirmar uma nova liderança, a resposta mais provável é não. Porque o CDS não vai sozinho a eleições desde 2011 e porque dentro do partido não será só o líder eleito a querer testar a sua força — também os que ficarem de fora quererão ver como ele passa na teste — aproveitando o argumento do ‘fim do voto útil’ e do eleitorado ‘volátil’, que tanto vota BE como CDS, para dar um exemplo.

Quem defende que o ‘efeito coligação’ não será central justifica-o de formas diferentes:

  • Há quem fale de um “efeito cíclico”, que desaparece quando a direita passa da oposição para o Governo. “Se o Governo PS correr mal, por exemplo, tendo que tomar medidas difíceis, o efeito moral desaparece para a esquerda. A direita poderá ganhar as próximas eleições sem maioria e a esquerda argumentar que o PS foi tão mau no Governo que não merece segunda oportunidade”;
  • Há quem defenda que a coligação pré-eleitoral “dificultou a margem de manobra” dos dois partidos – e acrescente que há sempre “alguns votos mais para os dois” quando seguem separados (embora reconhecendo prejuízo no número de deputados eleitos);
  • Há quem procure o pragmatismo e anote que o PSD “não vence sozinho com maioria absoluta desde Cavaco Silva”, pelo que vai sempre precisar dos centristas;
  • E há quem desvalorize, dizendo que tudo depende do momento em que houver eleições: “Se for rápido, em 2016, faz sentido irmos juntos; se não for, não é preciso”.

Mesmo assim, vale a pena acrescentar isto: desde 1975, a direita só em seis eleições conseguiu um resultado que lhe permitiu fazer a maioria dos deputados. Sendo menos forte do que a esquerda (e com menos opções), muito dificilmente conseguirá fazer no futuro o que Costa fez agora: ir para o Governo sem o PSD ganhar as eleições. E isso põe pressão não sobre um, mas sobre os dois partidos.

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3. Centro ou direita? Onde posicionar o partido

Eis uma bifurcação típica no caminho dos centristas: mais à direita ou mais ao centro? Típica porque está longe de ser nova: a mesma pergunta colocou-se depois de Freitas do Amaral, na prolongada crise cavaquista do partido, até mesmo na era Portas. Há quem defenda, com propriedade, que em plena era Portas houve variações de posicionamento. “Quando o PSD foi mais liberal, o CDS foi mais social”, anota um dos que hoje vão estar no Conselho Nacional.

Os mais influentes no CDS estão, agora, a colocar a questão numa outra forma: o partido deve ser mais ideológico ou mais pragmático? Há dois fatores a ter em conta no futuro:

  • Passos continuará a ser líder do PSD — a recandidatura está anunciada e não há alternativa à vista. E Passos tem, justa ou injustamente, imagem de liberal. Por isso, há um grupo no CDS que defende que o partido deve ser pragmático, um “partido do quotidiano”, expressão usada publicamente por Adolfo Mesquita Nunes (que levará uma moção do congresso com João Almeida). Um partido mais preocupado com “problemas do dia-a-dia” e menos com ideologia, mais pragmático e sensato, aberto a eleitorado cansado dos partidos e dos discursos políticos. E, daí, preocupado com pequenas causas e não com uma “transformação” da sociedade.
    A dúvida é que causas devem ser essas — e como cruzá-las com o que o CDS e PSD fizeram no Governo (mas à herança volto já, mais à frente);
  • O debate está polarizado — entre a esquerda e a direita (muito em consequência da governação com apoio do PCP e BE). E é neste ponto que os centristas mais se dividem. Uns acham que a própria ação do Governo levará a que o debate seja divisório — pelas reversões de medidas, pelas cedências a sindicatos, etc. — e que o partido não pode ficar de fora dessa disputa (argumentam até que o discurso ideológico, assertivo, encaixa mais no CDS, gerando maior complementaridade com o PSD).
    Outros acreditam no inverso: que é preciso abrir o partido, deixar a luta ideológica para o PSD, procurando eleitorado novo, mostrando um partido qualificado e menos politizado. Dúvida: essa estratégia traz votos para o CDS? Outra: a que bandeiras pragmáticas se pode agarrar o CDS face às medidas implementadas nos últimos 4 anos? É essa a próxima incógnita.
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4. A herança (da troika): como seguir em frente?

Lição número 1, aparentemente interiorizada no partido: não renegar o que foi feito. Mas (há sempre um mas). Neste caso mais do que um.

O problema é simples de ilustrar e bem conhecido: como é que o CDS, partido da defesa dos contribuintes, dos pensionistas, sobretudo destes, pode voltar a agarrar causas como a baixa de impostos ou a defesa dos direitos de pensionistas, depois de ter aplicado aumentos de impostos e cortes nas reformas? É aqui, então, que entram os “mas”.

A tese predominante no CDS é esta: o partido fez no Governo o que tinha de ser feito — por causa do memorando; foi mais “social” do que o PSD nessa defesa; e o trabalho de reposição das pensões e baixa de impostos já tinha começado em 2015 e ia continuar — só que foi interrompido pelo projeto de esquerda. Acontece que, agora, é o PS que o vai fazer. E a linha programática da direita era defender que o PS vai depressa demais, arriscando pôr em causa “o que foi feito”, nas palavras de Portas. Assim sendo, o que sobra? Hipóteses de trabalho, ouvidas de alguns dirigentes do partido:

  • A defesa de que mesmo o que foi feito de impopular aconteceu contra o ADN do partido — mas com “responsabilidade”. E que isso consolidou o CDS como um partido moderado — “realista e não utópico”;
  • A convicção de que ganhará, mesmo que condicionado pelo passado, quando o Governo do PS “estragar o que foi feito”. Isto, claro, na condição de que o PS “estrague” (e já volto ao ponto);
  • A ideia de que o discurso do CDS desde 2012 acabou por vingar — de que era preciso equilibrar a balança das medidas e de dar algum fôlego, por exemplo, ao consumo privado.
  • A insistência nas bandeiras que resistem: educação com exigência, de uma Agricultura modernizada ou de um Estado mais modernizado; foco no investimento privado — mas sem ir tão longe como o PSD (que chegou a defender privatizar RTP e CGD, por exemplo). Ou a defesa da família, por exemplo (o que nos leva à próxima incógnita).

Será, talvez, pouco. Mas isso dá bem a ideia da dimensão do desafio de quem vier à frente de Paulo Portas.

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5. E as causas cristãs/conservadoras? Que lhes fazer?

Foi umas das questões mais identitárias do CDS — mas não tanto nos últimos anos. A defesa do “não” à Interrupção Voluntária da Gravidez, ao casamento homossexual, mais recentemente à adoção por casais do mesmo sexo, entre outras, acabou por representar derrotas para os centristas. Um referendo resolveu o primeiro caso, a esquerda decidiu o resto no Parlamento. Em alguns casos, com votos desalinhados na bancada dos centristas. E agora, sobra algo?

Não haverá resposta única para este dilema centrista, mas curiosamente na direção de Portas as respostas são bastante coincidentes: “Agora que está tudo em vigor, não faz muito sentido dizer que é preciso voltar para trás“, diz um dirigente, anotando o caso do aborto como uma exceção.

Outra resposta (também ouvida pelo Observador) é mais ousada: a melhor coisa que aconteceu ao CDS foi a esquerda ter aprovado a agenda fraturante, porque esses temas deixaram de ser um travão para o voto de outros no CDS. Passou a ser um não assunto. Há até quem jure que isso se notou nas eleições a partir de 2009, com o partido a receber mais voto jovem e urbano.

Ainda assim, sobra um desafio: como compatibilizar um lado mais pragmático com a convicção mais conservadora que é, ainda, maioritária entre os militantes e em muitos eleitores do partido? Há quem dê uma resposta interessante: com o efeito Papa Francisco — mudou o tom, não a doutrina”. E há quem acredite que entre os potenciais candidatos à liderança o CDS pode ter caminho aplanado: Assunção Cristas mais liberal, mas com imagem muito “familiar”; Nuno Melo com uma imagem menos liberal do que a ex-ministra, mas “à antiga”. Mas quanto às caras, fica para o sétimo ponto.

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6. O factor x: como vai correr a “geringonça”?

É a pergunta pesadelo para qualquer centrista: e se a maioria de esquerda não falhar? Convém, primeiro, perceber o que será um falhanço.

O PS assumiu um desafio, que será central na avaliação do seu trabalho: mostrar que há, afinal, uma alternativa. Alternativa, leia-se, ao caminho mais “austero” — de crescimento gradual e prudente — defendido pelo PSD e CDS no Governo e na campanha.

Acontece que, neste campo, nem sempre as conclusões são a preto e branco, sendo que o cenário mais “negro” para o país seria o que dava razão à direita mais claramente: se o projeto de Costa acabasse com o país num novo resgate (ou lá perto). Será também simples ao CDS recuperar a confiança do eleitorado, se o PS deixar o país com más contas públicas, muita instabilidade na governação e pouco crescimento económico. Mas ainda é cedo para dizer quando acaba o Governo — e mais ainda para antever se ele acaba tão mal.

Assim sendo, resta sublinhar que a durabilidade e sucesso da “geringonça” (termo que Paulo Portas foi buscar a Vasco Pulido Valente para qualificar a maioria de esquerda) vai determinar em boa parte a resposta às outras incógnitas do caminho do CDS. Um governo durável e estável pode, por exemplo, afastar Passos da liderança do PSD — e com isso mudar a sintonia à direita, como o posicionamento de cada partido.

Para já, os centristas são unânimes na expectativa de que a esquerda falhará a missão de manter o equilíbrio das contas — ou que, conseguindo esse equilíbrio, Costa não será capaz de manter o apoio do BE e PCP. Confiam também que a perceção dos portugueses é idêntica. Afinal, o PSD e CDS ganharam as eleições — só não tiveram maioria absoluta (“o eleitorado está consciente de que os sacrifícios eram necessários” é uma frase muitas vezes repetida). Mas provando que a ciência política não é realmente científica, sempre se ouvem desabafos: “Se as coisas correrem bem à esquerda, é claro que vamos ficar na oposição um bom tempo”, reconhece um dos que estiveram no Governo.

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7. Quem comanda o leme? E há união ou concertação?

Portas saiu e deixou o aviso: convém que a sucessão seja pacífica. O passo seguinte foi dado e noticiado pelo Expresso: Assunção Cristas (hipótese para líder) garantiu a Nuno Melo (hipótese número um) que não seria candidata se ele o fosse. O caminho parece, assim, mais limpo — e a decisão do eurodeputado estará por dias. Significa isto que há unanimidade no CDS quanto ao nome a escolher e quanto à estratégia a seguir? Não, não significa (apenas que Melo será sempre eleito se quiser avançar e que os centristas escolheram o caminho do PS após Guterres — é melhor acertar as sucessões do que entrar em guerras internas).

Nesta fase, há duas linhas claras: os que defendem Assunção Cristas pedem uma renovação estratégica, menos ideológica e mais pragmática — e (um pouco) menos presa a Paulo Portas. E, do outro lado, os que seguem os passos de Nuno Melo, veem nele o político capaz de manter o partido com um discurso forte (mais ideológico e de combate político à esquerda), como o que Portas teve quando estava na oposição.

Seja quem for que avance como candidato, terá uma coisa como garantida: não uma oposição formal, mas uma linha de fiscalização interna que o CDS não vê desde os tempos de Maria José Nogueira Pinto (até meio do chamado ‘portismo’).

Isso significa também que há um teste no caminho do novo CDS: as eleições autárquicas de 2017, onde a escolha do candidato à Câmara de Lisboa é determinante e onde será decisivo perceber quantas coligações a menos haverá com o PSD (isto, claro, se não cair o Governo de Costa). Nessa altura se verá até que ponto a promessa de concertação interna é para durar ou não.