A melioidose é uma doença provocada pela bactéria Burkholderia pseudomallei que, apesar de ser pouco conhecida, provoca tantas mortes por ano como o sarampo e muito mais que a dengue, como referiu um artigo científico publicado na Nature Microbiology. Além do número de casos estar subestimados, a sua distribuição conhecida pode não corresponder à real.

“As nossas estimativas sugerem que a melioidose está severamente subnotificada nos 45 países onde se sabe que é endémica [onde é nativa] e que provavelmente é endémica em mais 34 países onde nunca foi reportada a doença”, referem os autores no artigo.

Dados de ocorrência entre 1990 e 2014, desde os dados consensuais em que está ausente (verde) e os dados consensuais em que está presente (vermelho) - Limmathurotsakul et al. (216) Nature Microbiology

Dados de ocorrência entre 1990 e 2014, desde os dados consensuais em que está ausente (verde) e os dados consensuais em que está presente (vermelho) – Limmathurotsakul et al. (216) Nature Microbiology

A bactéria que causa a melioidose é altamente patogénica (eficaz a provocar a doença) e a infeção difícil de diagnosticar, porque tem manifestações muito diversificadas. Além disso, os métodos de identificação convencional de bactérias não funcionam com a Burkholderia pseudomallei. Como agravante, a bactéria é resistente a uma grande diversidade de antibióticos, o que pode justificar o elevado número de mortes. Os investigadores estimam que em 2015 tenham existido 165 mil casos (intervalo de confiança 68 a 412 mil casos) – uma taxa de incidência de 5 pessoas por cada 100 mil em risco. Em 2015, terão morrido, segundo a mesma estimativa, 89 mil pessoas (com um intervalo de confiança de 36 mil a 227 mil).

A Burkholderia pseudomallei pode ser facilmente encontrada no solo no sudeste da Ásia e no norte da Austrália, mas a distribuição real ainda é pouco conhecida. A equipa de Direk Limmathurotsakul, investigador na Universidade de Oxford (Reino Unido) e na Universidade de Mahidol (Tailândia), estima que 40% dos casos aconteçam no este da Ásia e na região do Pacífico e 44% no sul da Ásia. Apenas a Austrália, o Brunei e Singapura têm dados nacionais de vigilância para esta infeção.

Os investigadores deixam um alerta também que os Estados Unidos e o Japão se devem manter atentos. Apesar de se considerar que a bactéria está ausente nestes países, a Flórida, o Louisiana e o Texas (nos EUA) e Okinawa e Kagoshima (no Japão) têm ambientes e condições semelhantes às de países onde a Burkholderia pseudomallei já foi encontrada.

Mapa dos países onde o diagnóstico e notificação da doença deviam ser reforçados: os subnotificados (a rosa escuro) e onde se prevê que seja endémico, mas nunca foi reportado (a rosa claro) - Limmathurotsakul et al. (216) Nature Microbiology

Mapa dos países onde o diagnóstico e notificação da doença deviam ser reforçados: os subnotificados (a rosa escuro) e onde se prevê que seja endémico, mas nunca foi reportado (a rosa claro) – Limmathurotsakul et al. (216) Nature Microbiology

A inoculação através da pele é principal forma de contaminação nos trabalhadores rurais nos países em desenvolvimento, mas a inalação da bactéria durante fenómenos climáticos extremos também deve ser considerada. Outra forma importante de contágio é a ingestão de água contaminada.

No passado, a importação de animais infetados espalhou a doença por áreas onde não era endémica, incluindo um surto em Paris, em 1975. Mas as pessoas infetadas também podem fazer viajar a doença, para a qual não existe vacina, e espalhá-la por outros locais. De lembrar que a bactéria é muito resistente e pode permanecer no solo por mais de seis anos.