Do calçado para os carros. Com mais de duas décadas de atividade, este grupo industrial de São João da Madeira passou por várias fases e atualmente emprega cerca de 450 pessoas. A fábrica no norte do país conta com 270 trabalhadores, mas numa unidade de produção na República Checa (ERT Automotive Bohemia, aberta em 2013) laboram mais de 100 pessoas.

Dentro e fora de Portugal, a empresa tem crescido muito. Onde apenas se colavam forros de calçado estão hoje a ser produzidos revestimentos de carros topos de gama. Os materiais são variados: malhas, couros, espumas, tecidos. Os clientes são conhecidos: Porsche, Maserati, Rolls Royce, Audi, Mercedes, entre muitos outros.

Nos últimos anos, uma estratégia ganhou força: a inovação. Em 2013, foi criado um Centro de Inovação Criativa, inserido no Oliva Creative Business de São João da Madeira. Um ano antes, já Fernando Merino estava ao leme deste novo eixo do grupo, enquanto diretor de inovação.

Vestuário, calçado, têxteis para o lar e produtos de mobilidade (carros de bebé e revestimento de capacetes) representam 15% da faturação da empresa.

Vestuário, calçado, têxteis para o lar e produtos de mobilidade (carros de bebé e revestimento de capacetes) representam 15% da faturação da empresa / ERT

Cortar, colar, costurar e avançar

Tudo começou em 1992, com “uma máquina e sete pessoas. Na altura, a ERT era uma empresa que colava forros de calçado, mas foi capaz de se adaptar à oportunidade que o setor automóvel trazia”, resume Fernando Merino.

O novo século foi o momento de viragem para a empresa fundada por João Brandão. Em 2000 começaram a trabalhar com a Faurecia, multinacional francesa de componentes automóveis e, indiretamente, com as grandes marcas produzidas na Autoeuropa. Hoje, o setor automóvel representa 85% do volume de negócio da ERT Têxtil.

“Somos um fornecedor de 2ª linha, ou seja, não fazemos o produto. Nós trabalhamos com os tecidos fornecidos pelas empresas de componentes”, explica Fernando Merino. Diariamente, são transformados e colados milhares de metros de tecido. E as perspetivas continuam otimistas.

“O setor automóvel trabalha três a sete anos à frente, ou seja, antecipa muito o que aí vem”, explica Fernando Merino. “Estivemos no Centro de Inovação da Peugeot, em Paris, e já percebemos o que vai definir os componentes em 2020-2035.” Nos próximos tempos, a ERT Têxtil irá trabalhar em peças de reposição (enquadradas no restyling de alguns modelos), mas já há propostas para avançar com a integração elétrica flexível, de aquecimento ou comunicações móveis”.

O “efeito inovação”

O Centro de Inovação Criativa é um dos últimos elementos de uma estratégia global do grupo. Inicialmente, quando Fernando Merino entrou para liderar a equipa, tinham um gabinete dentro da fábrica de São João da Madeira. “Queremos desenvolver projetos inovadores de fora para dentro. Desde o início, a ideia sempre foi não ficarmos contaminados pela gestão diária da empresa. Os timings, os custos de produção, entre outros pontos, acabam por não entrar nas nossas reuniões de planeamento”, explica Fernando Merino.

A inovação surge associada a uma nova visão do produto, como motor da empresa e das parcerias futuras. O Centro de Inovação veio reforçar essa aposta, com maiores sinergias e proximidade com o processo criativo. “Aqui, além de podermos ter reuniões com clientes próximos da fábrica, também estamos perto de startups da região. Acabam por complementar-se”.

As amostras de tecidos e outros materiais, recolhidas ao longo das duas décadas de atividade, em feiras internacionais e no desenvolvimento de novos produtos, estão disponíveis para consulta. Esta foi uma forma de fazer a ponte com os jovens criativos do ninho de empresas. “Criámos um repositório, uma espécie de parede de consulta, para quem quiser conhecer os materiais e testar novas ideias”, revela Fernando.

Arquitetura, design de interiores e joalharia são algumas das áreas já exploradas. “A ideia é acrescentar valor aos produtos e não tanto produzir em massa. Vermos até onde pode ir a vertente criativa com um material comum, como o couro, por exemplo. Acabamos por arrastar vários projetos para outros campos, mais fora da caixa”, afirma.

1.Centro de Inovação

O Centro de Inovação Criativa está inserido no Oliva Business Center, centro empresarial de São João da Madeira / ERT

Internacionalização: novos mercados

Esta aposta na inovação já está a dar bons frutos. “Já somos convidados para participar ativamente na discussão dos projetos e os fornecedores já querem o nosso know how para as propostas”, avança Fernando Merino. Ou seja: já contactam diretamente com as grandes marcas.

Um passo importante, quando a internacionalização continua a marcar os horizontes do grupo. Além da Roménia e República Checa, a ERT Têxtil está representada na Polónia, Turquia, Bélgica, Alemanha e Espanha. A parceria com outras multinacionais e o reforço da produção no leste europeu abriram a porta a novos clientes finais, principalmente no mercado russo.

Com um crescimento de 30 a 40% por ano em algumas áreas, a palavra de ordem é sustentabilidade. A inovação é uma marca forte, mas a aposta em novos mercados continua. “Vamos fazer algo semelhante ao que fizemos na Roménia, em 2006. Só que agora vai ser no México. Com uma unidade de produção nesta zona temos acesso ao mercado norte-americano”, revela o diretor de Inovação da ERT.