A quem tem o desafio, como o jornalista tem, de contar-lhe em crónica, semana após semana, o que de melhor se viu num determinado jogo, o melhor é ter histórias para contar. E só há histórias, regra geral, quando há golos, muitos ou poucos, quando há sururu ou incerteza até ao último sopro do árbitro, e nunca ou quase nunca quando o que se viu foi um marasmo pegado, sem ponta por onde se lhe pegue.

O Sporting-Tondela desta noite teve de tudo um pouco. O que faz a mão escrever a crónica mais a eito.

Vamos lá a isto: a 1.ª parte foi tristonha. Não há como dizê-lo de outra forma. Não necessariamente mal jogada, mas tristonha. Valha-nos que o Tondela, mesmo sendo último da tabela, mesmo tendo perdido oito dos últimos nove jogos que fez, não estacionou o “autocarro” à frente da defesa e, quando o Sporting deixava – e entenda-se o “deixava” por “metia água em barda” –, contra-atacou.

O Sporting entrou relaxado. Talvez demasiadamente relaxado, como que admitindo, mesmo que inconscientemente, que mais minuto menos minuto, o líder venceria o último da Liga. E num contra-ataque, pois claro, Nathan deu por si na frente do veloz Naldo, viu Rui Patrício a sair-se aos seus pés, tentou desviar-lhe a bola, mas acabou derrubado na área. Patrício é expulso pelo árbitro Luís Ferreira, Nathan pousa a bola na marca dos 11 metros, Boeck entra a frio para defender o penálti, escolheu um lado, Nathan escolheu o outro e o Tondela, o último, surpresa das surpresas, vencia o líder em Alvalade – e o Sporting não perdia em casa há 25 jogos.

O primeiro facto histórico do jogo – e são três até final – é que Patrício, ao fim de três expulsões, ultrapassou Costinha (2) e é o guarda-redes que mais vezes viu a cartolina que ninguém quer ver, a encarnada, na história do clube.

O Sporting reagiu. Mesmo com somente dez no relvado e o Tondela os mesmos 11 do início. Atacou, atacou mais ainda, encostou o Tondela às cordas, não o deixou por novamente o pé em ramo verde, cruzou mais, tabelou melhor e rematou por fim. E nada. Nem um golo até à segunda apitadela do árbitro, a tal que diz que está na hora de recolher ao balneário. William não voltou de lá. Voltou Gelson na sua vez.

E voltou com vontade de correr. Mais do que correr, de ziguezaguear. Mais do que ziguezaguear, de assistir. Assistiu João Mário na área, o médio-centro fez o mesmo, mas a Slimani, o argelino rematou à baliza, a bola resvalou no central Tikito e foi mesmo para o fundo das redes. Ei-lo, o empate, aos 55′. O Sporting foi melhor com menos um do que com todos no onze. E rematou mais no recomeço do que em toda a 1.ª parte.

A revira-volta no placard chegaria pouco depois, aos 60′. Uma reviravolta com história. E é tempo de contar-lhe a segunda história da noite em Alvalade, depois da de Patrício. É que o golo de Gelson, num remate de ressaca depois de um corte a trouxe-mouxe de Hélder Tavares na área, foi o golo cinco mil do Sporting na Liga. A 20 de janeiro de 1935, Soeiro, o melhor marcador da primeira edição, fez o primeiro golo nos registos do Sporting. O golo mil foi de Travassos, o “Zé da Europa” e um violino de entre cinco; o dois mil de Morais, o autor do golo da vitória do clube na final da Taça das Taças de 1963/1964; o três mil de Jordão, que é o quarto melhor marcador de sempre com a camisola verde-e-branco sobre os ombros. O quatro mil não tem grande história que se lhe conte: marcou-o na própria baliza o defesa-central Paulo Alexandre, do Desportivo de Chaves.

Por fim, a terceira e última história da noite, contada em tons de negro. O negro do Tondela, que hoje assim se vestiu, e o negrume do que viria a seguir para o líder. Foi a primeira vez que o Sporting recebeu o Tondela em Alvalade. Tudo o que não fosse a derrota, seria um resultado histórico para o Tondela. E foi. Salva, de apelido Chamorro, mais possante e veloz do que Jefferson, chutou para o empate, lançado que foi na frente, e desde atrás, por Bruno Monteiro. Pior — para o Sporting e os sportinguistas: o Benfica joga amanhã, o FC Porto no domingo e se os dois vencerem, ficam a somente um par de pontos do topo.

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