Este título poderia ser aquilo que é? Podia. É possível que seja aquilo que é? É possível. E é difícil que seja? É. Confuso? É confuso. Mas o sketch dos Gato fedorento a imitar Marcelo podia aplicar-se que nem uma luva a esta campanha. E é o candidato que o diz. “Para trabalhos de precisão sou melhor com a esquerda”. É melhor? É. Mas também sabe trabalhar com a direita.

Marcelo Rebelo de Sousa estava a falar da mão. Na verdade é um canhoto que foi ensinado a trabalhar com a mão direita, mas não perdeu jeito para se virar à esquerda. Tem sido assim a campanha do candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS: encostado à esquerda da direita e volta e meia piscar o olho à direita. Ou um abraço meio-incomodado, como aquele que deu a Ângelo Correia quando o histórico social-democrata apareceu sem avisar numa ação de campanha em Sintra. Marcelo negou o incómodo, antes pelo contrário, disse que era uma “grande figura dos primórdios da democracia”.

Mas a democracia desenvolveu-se nos últimos anos e dá-se o caso de neste momento, o Presidente da República que for eleito ter de lidar com o Governo de António Costa, apoiado pelo PCP e pelo BE. Nada que pareça incomodar o candidato que acredita que Costa é capaz de fazer um “equilibro talentoso” entre a espada de Bruxelas e a parede do PCP e do BE no que diz respeito a assuntos de orçamento. “O equilíbrio que o Governo está a tentar fazer é por um lado cumprir os compromissos eleitorais e os compromissos dos acordos com os três partidos no Parlamento e por outro lado não se afastar da meta inferir a 3% e não se afastar das regras do euro. Esse equilíbrio talentoso, que eu espero que seja atingido. Era bom para o país”, disse.

A mensagem nesta campanha esgota-se nestes últimos dias. Depois dos debates, o candidato repete as garantias de estabilidade e a esperança em que tudo corra bem ao Governo. E pouco mais. O candidato já conta em horas o encerramento das urnas: “Já não é dias, é horas… Faltam 52 horas menos uns minutos”, diz aos jornalistas durante uma viagem de comboio de Santa Apolónia até ao Porto.

Foi na estação que explicou o porquê de fazer ali a espécie de comício em Lisboa, com muitos amigos e pouca multidão. Leonor Beleza, Manuela Ferreira Leite e Assunção Esteves estivereram por lá. Disse que era uma maneira de homenagear aqueles que partiram nas décadas anteriores e nos últimos anos. Não, Marcelo não chegou a falar das chegadas emblemáticas à estação de Humberto Delgado ou de Mário Soares.

Mas também houve direito a adeus para a posteridade.

Se na semana passada, Marcelo ia transmitindo alguma ideias, nesta segunda semana de campanha, mais light, o candidato esmera-se em falar pouco e em conviver mais.

Pode dizer-se que o contacto lhe é genuíno, mas que aproveita bem a genuinidade da sua personalidade para as câmaras de televisão. Esta quarta-feira, Marcelo esteve no Centro de Educação de Cidadãos com Deficiência em Mira-Sintra e por lá se demorou em conversa sobre tudo e até sobre futebol.

A campanha está na reta final. Esta quinta-feira, o candidato passará o dia em campanha no distrito no Porto e depois Viana do Castelo e Braga. Marcelo acabará a campanha em Celorico de Basto.