Konstantin Batygin e Mike Brown, dois investigadores do Instituto Californiano da Tecnologia (CalTech), descobriram pistas que sugerem a existência de um planeta gigante na parte mais exterior do sistema solar. Batizado como “Planeta Nove”, este corpo celeste poderá ter a massa equivalente a dez planetas Terra e estar vinte vezes mais afastado do Sol do que Neptuno. De acordo com os cálculos comunicados pelo instituto norte-americano, o planeta deve demorar entre 10 mil e 20 mil anos (terrestres) a completar uma translação à nossa estrela, numa órbita que deve ser “muito alongada”. Mas isto na teoria, porque na prática o dito planeta ainda não foi observado.

Esta previsão foi possível graças a uma série de cálculos matemáticos e a uma simulação computacional efetuados pelos dois cientistas. Ambos defendem que o corpo é efetivamente um planeta porque é suficientemente grande para receber essa denominação. Esta descoberta coloca mais luz sobre um mistério que dominava parte da investigação astronómica: um corpo com estas características pode explicar a forte influência da gravidade nos corpos gelados da Cintura de Kuiper, uma área do nosso sistema que orbita o Sol muito para além de Neptuno.

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Plutão deixou de ser um planeta principal em 2006. Houve três argumentos a suportar a decisão da União Astronómica Internacional: é um corpo demasiado pequeno, com uma massa pequena e a sua órbita cruza-se com a de Neptuno em certo ponto na sua translação em redor do Sol.

O conceito não é novo. Enquanto Konstantin Batygin e Mike Brown dizem que estas são as primeiras evidências sólidas desde há 150 anos de que “o censo do sistema solar está incompleto”, há muito que a comunidade científica especula sobre a existência de um corpo celeste – o Planeta X – que, orbitando a estrela muito para além do último planeta oficial deste sistema, justificaria as inconstâncias registadas na órbita de Neptuno e dos corpos da Cintura de Kuiper.

O caminho para a “descoberta”

Em 2013, dois cientistas aperceberam-se de que 13 dos objetos mais distantes da Cintura de Kuiper tinham um padrão semelhante em relação à sua órbita: em todos parecia haver a influência de um corpo mais distante, que os cientistas acreditaram ser um “pequeno planeta”, como escreveram no relatório da investigação. Brown apresentou o trabalho a Batygin e os dois começaram a investigar.

Konstantin Batygin e Mike Brown acabaram por entender que, dos 13 objetos considerados, seis tinham órbitas elípticas que “apontavam para a mesma direção no espaço físico”: “É quase como ter seis ponteiros num relógio todos a moverem-se a velocidades diferentes e quando se olha para eles estão todos no mesmo sítio”, descreve Mike Brown no comunicado lançado pela CalTech. Os investigadores explicam que os seis corpos considerados apontavam algures 30º abaixo da posição ocupada por Neptuno naquele momento.

Após excluírem várias teorias que poderiam explicar este fenómeno – que, segundo os cientistas, obedece a uma probabilidade de 0,007% de acontecer ao acaso – os dois investigadores simularam uma situação em que hipoteticamente existiria um corpo com uma massa muito grande e com uma órbita de características muito próprias no sistema solar exterior. E descobriram que os corpos simulados no computador comportavam-se do mesmo modo que os corpos reais, observados pelos outros dois cientistas. E isso inclui Sedna, um planetóide que, ao contrário dos objetos da Cintura de Kuiper (que se aproximam e afastam de Neptuno à medida que se movem), nunca se aproxima muito do último planeta oficial do sistema solar.

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Além de uma massa extremamente grande, o “Planeta Nove” tem uma órbita “anti-alinhada”. Este é o termo científico usado para quando o periélio (o ponto mais próximo ao Sol) do planeta está 180º além do periélio de todos os outros objetos e planetas conhecidos do sistema solar.

Se se confirmar a existência do Planeta Nove, a “fotografia de família” do sistema solar torna-se mais semelhante à dos outros sistemas com estrelas semelhantes ao Sol, observados pelos astrónomos: uns planetas têm órbitas muito próximas ao Sol e outros estão muito mais distantes. “Uma das descobertas mais surpreendentes sobre os outros sistemas planetários foi que os planetas mais comuns lá fora têm massas entre a da Terra e da Neptuno”, explica Konstantin Batygin. “Até agora, julgávamos que nos faltavam este tipo de planetas mais comuns. Mas talvez sejamos mais normais do que pensamos”, acrescenta.

De onde veio o Planeta Nove?

Quando a ciência procura responder a uma questão, surgem outras mais. Esta é uma das que se formularam com a teoria do Planeta Nove, mas Konstantin Batygin e Mike Brown já têm uma ideia.

Alguns cientistas acreditam que o sistema solar como o conhecemos hoje teve início num conjunto de quatro “núcleos planetários” que atraíram para si os gases da chamada “nuvem primordial”. Quando os gases começaram a orbitar estes núcleos, ter-se-ão formados os quatro planetas gasosos que conhecemos: Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. A teoria dos dois cientistas é que, afinal, existiria um quinto núcleo que atraiu gases para si, mas que terá sido ejetado para a parte mais exterior do sistema solar quando se aproximou de um dos outros planetas gasosos.

No entanto, esta é uma hipótese que ainda está a ser estudada pelos dois cientistas, que realçam que não existem observações reais do Planeta Nove e que não existem dados sobre a sua localização precisa. Os investigadores esperam conseguir olhar para o Planeta Nove quando ele entrar no periélio e estiver mais perto do Sol.