Os juros da dívida portuguesa a 10 anos rondam os 3,2% esta quinta-feira, os mesmos níveis do pico da crise grega do último verão e bem acima de quando o Banco Central Europeu (BCE) passou, no início de 2015, a comprar dívida pública dos países da zona euro ao abrigo do programa de estímulos monetários. Todos os países da periferia estão a sofrer com o facto de os investidores estarem a prever nova deceção para a reunião desta quinta-feira do BCE, mas a incerteza política e o rescaldo da decisão sobre o Novo Banco colocam Portugal numa posição mais vulnerável, dizem os analistas.

“Nem mesmo o dinheiro do BCE consegue impedir que os investidores estejam preocupados com Portugal”, titula esta manhã a agência Bloomberg, onde é possível extrair o seguinte retrato da evolução dos juros de Portugal a 10 anos desde início de 2015:

GSPT10YR Index (PORTUGUESE GOVER 2016-01-21 08-27-00

Parte do efeito de agravamento dos juros deve-se à alteração da linha de referência a 10 anos para a linha emitida na semana passada, para 2016.

A pressão é generalizada sobre os países do Sul da Europa, havendo escassas expectativas de que a reunião desta quinta-feira do BCE resulte em quaisquer reforços dos estímulos monetários. As expectativas foram geridas no mercado por notícias na imprensa nas últimas semanas sobre o caminho que a autoridade monetária quer seguir daqui para a frente. Cada vez mais membros do BCE veem com ceticismo a possibilidade de se avançar com mais estímulos nos próximos tempos. “Agora é a vez de outros fazerem o seu trabalho“, disse um responsável do BCE à Reuters.

Investidores precisam de ver “responsabilidade” em Portugal

Os juros de vários países estão a subir, mas é mais pronunciado o agravamento do risco em torno de Portugal. “Para os investidores manterem a exposição à dívida portuguesa, precisam de ver que o novo governo está a seguir o caminho da responsabilidade orçamental“, disse à Bloomberg Ciaran O’Hagan, analista do Société Générale.

A diferença entre os juros de Portugal e da Alemanha, que está em 266 pontos, está no nível mais elevado desde julho de 2014. Parte do efeito de agravamento dos juros deve-se à alteração da linha de referência a 10 anos para a linha emitida na semana passada, para 2016.

spreaddddddd

As compras de dívida do BCE estão a ter um impacto. São uma torneira que está sempre a correr, mas não é capaz de travar um tsunami.

As declarações de Ciaran O’Hagan vão no mesmo sentido que as de Scott Thiel, gestor da BlackRock – uma gigante da gestão de ativos que foi apanhada na recente decisão do Banco de Portugal de retransferir algumas obrigações senior do Novo Banco de volta para o BES. Para Scott Thiel, que deu esta semana uma entrevista à Bloomberg TV, esse foi um dos episódios que leva os investidores internacionais a acreditarem que “a situação política lá [em Portugal] não está a ser bem vista pelo mercado”.

A evolução desfavorável dos juros de Portugal está, não só, a ter efeito no chamado mercado secundário mas já se manifestou na última emissão de dívida de longo prazo feita por Portugal, em que a taxa absoluta suportada pelo Tesouro foi a mais elevada desde 2014.