O homem não se dá mal com as feiras. O homem dá-se bem com as crianças e não embaraça ninguém junto dos idosos. O homem sabe meter conversa com pessoas na rua e mantê-la. O homem sabe animar a multidão e soprar-lhe frases orelhudas aos ouvidos. O homem sabe fazer piadas e jogar matraquilhos. O homem sabe até fazer política. Mas nada disso se compara com o homem na sala de aula. Qual Arquimedes, deem-lhe uma sala de aula e mudará o mundo. O homem transfigura-se. Sampaio da Nóvoa, o professor, revelou-se esta quinta-feira. Se não deixam jogar o Mantorras, ao menos deixem o homem dar umas aulas.

“Acredita mesmo que vai mudar Portugal?”. Nenhuma das perguntas feitas pelos alunos de Filosofia do 10º ano da Escola Secundária da Trofa foram fáceis ou pré-formatadas para deixar Nóvoa fazer um brilharete. Mas o candidato demonstrou porque é que passou quase toda a vida do outro lado dos bancos da escola e esteve bastante tempo à conversa com os estudantes, mesmo que, ao seu lado, vários membros da caravana lhe fossem dizendo que já eram horas de ir andando. Ora, e afinal, acredita mesmo que vai mudar Portugal? “Acredito muito nisso. Só vens para um combate destes, que é muito duro e exigente” se assim for, disse Nóvoa à aluna que o interpelou. A mesma estudante já tinha, momentos antes, falado com uma franqueza pouco usual em campanhas eleitorais. “Uma coisa é estar aqui a dizer-nos a nós estas coisas, mas se depois não vai fazer nada…” O candidato reage bem ao golpe e promete voltar à escola brevemente. “Daqui a um ano vocês batem-me ‘eeeeh, é igual aos outros todos'”, brincou Nóvoa.

A visita à escola trofense, apenas o segundo ponto de uma agenda relativamente preenchida na zona do Porto, deu a Sampaio da Nóvoa a oportunidade de se explicar perante aqueles que foram, até hoje, os seus interlocutores mais aguerridos e difíceis de convencer. “Palavras não salvam o mundo”, admitiu o candidato perante uma crítica de que a política é muita palavra e pouca ação. “Dão-nos consciência das coisas”, continuou, “e a consciência pode mudar o mundo”.

Presidenciais 2016: campanha eleitoral de Sampaio da Nóvoa

No mercado de Braga, Nóvoa até dançou. (Foto: Adelino Meireles/Global Imagens)

O mundo de Sampaio da Nóvoa parece ter mudado entre o primeiro dia de campanha e esta quinta-feira, véspera da ida final a Lisboa antes das eleições. O homem tem retórica, tem palavras, mas não só. Logo de manhã, no mercado de Braga, tratou de demonstrar isso mesmo. A princípio, a indiferença de comerciantes e clientes para com o chinfrim que a caravana fazia à porta do recinto fazia temer uma arruada meteórica. Os primeiros beijinhos e abraços de Nóvoa também não foram prometedores. Depois, a coisa lá animou um pouco. “Estava a ver se o senhor era mesmo como na televisão. Não é mais gordo nem mais magro”, atirou Celeste, vendedora do mercado, que usou da típica honestidade nortenha para pôr as cartas na mesa. “Sou socialista até morrer. Já disse aos meus filhos que quando morrer quero uma bandeira por cima [da urna]. Gosto muito deste senhor, tem muita personalidade, mas estava inclinada para a Belém. Mas como ela não tem hipóteses…”

Vai avante, Nóvoa

Maria de Belém não tem hipóteses, diz Celeste. E Nóvoa sente-o. Por isso, apela diretamente ao voto a cada pessoa que cumprimenta e cumprimenta mais do que tem sido hábito. “Tempo não tenho, que já só tenho um dia e meio para ganhar as eleições”, atira a rir-se aos alunos da Trofa, prestando-se no entanto a responder a mais perguntas. Fala sobre o aborto, os refugiados, a criação de emprego e Hannah Arendt. “Estamos um bocadinho desconfiados”, admite no fim um dos estudantes mais céticos. Nóvoa repete: daqui a um ano cá estará para prestar contas.

Isto se for eleito, claro está. E todos os votos contam, mesmo todos. Mesmo os dos moradores do Bairro Mineiro, em Gondomar, onde as curvas do caminho poderiam desencorajar uma visita. A Associação Vai Avante dedica-se há anos a cuidar dos idosos e crianças do bairro, muitíssimo carenciado. Recebido com a euforia própria de quem raramente merece tais atenções, Nóvoa faz questão de correr todos os cantos à casa. Pega em bebés ao colo, abana bandeiras, canta o hino nacional, faz brincadeiras. Trinta por uma linha. Se não ganhar as eleições, já tem emprego prometido. “Está sujeito a ser convidado para vir trabalhar cá. Tem muito jeito”, diz-lhe um responsável da instituição enquanto o candidato segura numa criança com uns dias ou semanas de vida.

Nóvoa quer ir avante, quer. Mas nem todos os cenários são tão cor-de-rosa como o berçário de Gondomar. As sondagens mostram que está a subir, mas ainda falta um bocadinho para forçar a segunda volta. A Rua de Santa Catarina, no Porto, mostra alguma animação, mas não a suficiente para mudar o rumo das eleições. Às cinco horas, bombos a tocar já há meia hora, Nóvoa assoma à Praça da Batalha para a primeira das duas grandes arruadas da campanha. Trezentos apoiantes atrás, muitas bandeiras e muito barulho, desce o candidato rua abaixo. Não tem as multidões habituais das legislativas — muito longe disso, aliás — nem os cidadãos que passam se mostram particularmente entusiasmados por o ver. Abraçado por Maria Antónia Palla (jornalista e mãe de António Costa), a atriz Maria João Luís e o adepto boavisteiro mais famoso do mundo (Manuel do Laço), Nóvoa desfaz-se em sorrisos e fala do alto de um banco aos correlegionários, qual militar em pleno PREC. “Apelo a todos e a todas para se juntarem a esta candidatura”, grita. É o sprint final. Faltam 24 horas para convencer os indecisos.