Comícios, visitas a instituições, muitas conversas com eleitores. Os 15 dias na estrada foram assim, mas isso não significa que se tenha ficado a saber muito mais sobre o que cada um dos principais candidatos pensa sobre os desafios imediatos do país e o que o atual Governo está a fazer.

Não é que Marcelo Rebelo de Sousa não responda às perguntas. Responde, mas pode não dizer o que pensa. A resposta formatada poderia ser qualquer coisa como: “Se o primeiro-ministro diz, não tenho razões para duvidar”. E esta frase não é nem um exagero, nem uma citação mal retirada. É a resposta-tipo que serve para quase todos os assuntos mais temáticos, desde as 35 horas, à questão do Banif, às dúvidas sobre o Orçamento do Estado ou mesmo sobre as pressões de Bruxelas.

Desde o primeiro dia que o candidato presidencial se tem esforçado por não tomar partido nas mais diferentes matérias, comenta, diz que espera que se resolva e que acredita num final feliz, mas poucas foram as vezes que deu a sua opinião. Nunca se ficou a saber se Marcelo concorda ou não com a redução do horário de trabalho dos funcionários públicos para as 35 horas, soube-se que o candidato acredita que o Governo chegue a um acordo com os sindicatos e os partidos à esquerda.

Nunca se soube se o candidato concorda ou não com as críticas de António Costa ao Governador do Banco de Portugal sobre a decisão de dividir as obrigações do Novo Banco. Soube-se que Marcelo, enquanto Presidente “secundará” todas as decisões que o Governo decidir no que diz respeito à estabilidade do sistema financeiro. Até na substituição do próprio Governador? Bem, sobre isso o candidato deixou uma neblina de dúvidas, mas deixou a ideia que se Costa retirar a confiança política a Carlos Costa, Marcelo estará lá para o apoiar.

Os exemplos repetem-se. Apenas no que diz respeito ao terceiro setor, à educação, à organização dos tribunais e à Segurança Social se pode dizer que a resposta mudou de chip. O professor defende que se devem fazer consensos de regime nestas áreas, sem no entanto dizer se concorda ou não com as alterações legislativas que já foram introduzidas.

A postura é assumida pelo próprio, que quando questionado sobre o porquê de raramente dizer o que defende, recusa a ideia. “Fartei-me de dizer o que pensava sobre tudo”, lembrando os casos do Banif, TAP, saúde, consenso na educação, mas acrescenta que “não é uma campanha de programa de governo” e como Presidente da República “deve procurar os consensos, mas não tem de impor o seu programa”. Ou seja, melhor conter o discurso antes para não ter de se contradizer no futuro. Marcelo resguarda-se até porque “potencialmente” pode vir a coabitar com “vários governos”.

“Não gostaria de fazer promessas”

Consciente de que o território em que se move é essencialmente socialista, António Sampaio da Nóvoa tem evitado, de um modo geral, comentar tudo o que esteja diretamente relacionado com o que tem dedo do Governo. O candidato considera que não se deve imiscuir nesses assuntos e chuta para mais tarde uma opinião pormenorizada, caso se justifique.

“Sobre as matérias concretas da ação governativa, compreenderá que eu não me vou pronunciar em nenhuma circunstância”. Sampaio da Nóvoa disse isto logo ao terceiro dia de campanha e em resposta a um assunto não particularmente picante, as portagens nas ex-SCUT. A cautela usada neste tema serviu de exemplo para outros, bem mais melindrosos.

A saber, a discussão do Orçamento do Estado. Nóvoa reitera que tem “confiança” num bom desfecho, que é necessário deixar os partidos entenderem-se, que é preciso dar tempo ao tempo para o tempo novo se implementar. Também quanto às 35 horas de trabalho na Função Pública o candidato deu uma resposta idêntica. “Vamos acreditar que se vão construindo os compromissos. Os compromissos são difíceis, os acordos são difíceis, mas é para isso também que é preciso persistência, determinação, convicções. E as coisas vão acontecer”, disse inicialmente em exclusivo ao Observador. Depois, foi um bocadinho mais longe. Nunca disse explicitamente que era favorável à medida, mas vê com bons olhos a “reposição dos direitos dos trabalhadores”, o que já é dizer mais do que outros candidatos.

Se em temas como o Banif (“uma má solução, mas a menos má”) e a subvenção vitalícia a políticos, Nóvoa até tem posições bastante vincadas, outros assuntos mereceram respostas redondas ou silêncio. Sobre a implementação do voto obrigatório, trazida à baila por um apoiante no Porto, Nóvoa nada disse. Relativamente à legalização de drogas, o candidato não foi mais longe do que afirmar que gosta de “todas as liberdades”. E sobre a presença indisfarçável de autarcas e membros do Partido Socialista na campanha, Sampaio da Nóvoa sempre preferiu desvalorizar: quer o apoio de toda a gente e quer ser Presidente para todos, não apenas para militantes do partido rosa.

No fundo, o ex-reitor conseguiu mantar-se fiel a um princípio que definiu logo nos primeiros dias. “Não gostaria de fazer promessas. Gostaria de fazer compromissos.”

“Presidente não comenta cenários”

A César o que é de César. Lema feito em lei por Maria de Belém. 35 horas? Não comento. Misericórdias? Não comento. Procedimento por défice excessivo? Não comento. Referendos? Não comento. Não comento, não comento e não comento. Durante a campanha presidencial, a ex-ministra da Saúde recuou-se sempre a comentar matérias que fossem de exclusiva competência do Executivo. Foi um ponto de honra, de resto: não misturar os papéis do Presidente da República e do primeiro-ministro.

Com o difícil dossier da reposição das 35 horas semanais a ameaçar colocar frente a frente Governo e sindicatos, Maria de Belém recusou-se a comentar a questão. Dois depois, viria a pedir concertação entre Executivo, partidos e sindicatos, mas sempre lembrando que este era “um dossier que o Governo está a tratar e, portanto, acho que não há comentários a fazer. Ninguém deve interferir num processo negocial em curso e muito menos quem é candidato à Presidência da República ou quem é Presidente da República”.

Foi assim sempre. Quando desafiada a comentar a intenção do Governo de anular a transferências dos hospitais de Santo Tirso e de São João da Madeira para as Misericórdias – ela que foi  vice-provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – negou-se a fazê-lo, alegando que “era uma matéria para ser tratada entre o Governo e a União das Misericórdias”. E estados de espírito não eram para ali chamados.

Instada a pronunciar-se sobre a possibilidade de o país não conseguir sair do procedimento por défice excessivo e as consequências que tal cenário teria para o país, nova resposta evasiva. “[Os jornalistas] estão sempre a pensar em cenários complexos. Eu tenho uma perspetiva mais otimista. Estou sempre a pensar que vamos fazer como nos propomos”.

E assunto arrumado era mesmo assunto arrumado com Maria de Belém. A candidata chegou mesmo a deixar claro que “a candidata a Presidente da República não tem de estar a opinar sobre tudo e todas as coisas, nomeadamente quando são matérias de governação”.

Quando António Sampaio da Nóvoa admitiu a possibilidade de referendar questões europeias que ponham em causa a soberania do país, Maria de Belém também se ficou por um “não comento”. Embora aqui tenha ido ligeiramente mais longe. “[Há] pessoas que desconhecem o regime de referendos” e que, por isso, “propõem referendos para tudo e para nada”. Para bom entendedor…