Quando nasce, a mulher já tem todos os óvulos de que poderá dispor para a sua vida reprodutiva. Mas a validade destes óvulos é relativamente curta e a partir dos 35 anos a fertilidade na mulheres cai a pique. Com uma vida profissional cada vez mais exigente, muitas mulheres deixam passar o período mais fértil – entre os 25 e os 30 anos – e podem ter de recorrer a técnicas de reprodução medicamente assistida. Agora, Simon Fishel, da clínica de fertilidadae britânica Care Fertility, pediu autorização à Agência para a Fertilização Humana e Embriologia (Reino Unido) para conduzir um ensaio clínico com uma nova técnica.

A ideia é encontrar e recolher células percursoras dos óvulos (linhas celulares germinativas) que ainda mantenham mitocondrias jovens – a “fábrica” de energia das células -, noticiou o jornal britânico The Telegraph. Depois, essas mitocondrias seriam colocadas nos óvulos maduros para lhes rejuvenescer pelo menos uma parte do funcionamento.

Os cientistas querem conduzir um ensaio clínico inicial com 20 mulheres já a partir do próximo ano, mas o laboratório norte-americano OvaScience, que desenvolveu a técnica “Augment”, ainda tem de conseguir que o ensaio seja aprovado pela agência norte-americana do medicamento (FDA, na sigla em inglês).

A primeira grande dúvida que surge neste momento é se existem realmente células percursoras de óvulos de onde se possa retirar as mitocondrias jovens. “É difícil de acreditar. Há uma grande quantidade de observações que sugerem que não restam linhas germinativas nos ovários de ratos uma semana após o nascimento. Não há nenhuma boa evidência em nenhum modelo animal que haja linhas celulares germinativas que dêem origem a oócitos”, disse, citado pelo The Telegraph, Robin Lovell-Badge, investigador Francis Crick Institute. “A OvaScience está a cobrar muito dinheiro por esta técnica e não há muita evidência de que tenha algum resultado. Até podem ter alguma informação que mostre que funciona, mas até agora não a vi.”

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Marta Devesa, investigadora no Hospital Universitário Quiron-Dexeus (Barcelona), apresentou, em 2015, no congresso anual da Sociedade Europeia de Reprodução e Embriologia um relatório em que mostrava que as mulheres a partir dos 35 anos deveriam congelar os óvulos para garantir que conseguiam engravidar mais tarde com os próprios óvulos caso quisessem.

Mas Ana Teresa Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, já tinha dito ao Observador, noutro momento, que: “A gravidez em idade tardia também tem riscos mesmo que os óvulos sejam jovens”. Para Josephine Quintavalle, ativista no grupo de ética de reprodução humana Corethics, citada pelo The Telegraph: “Há um grande foco neste momento em manipular e brincar com os óvulos, mas uma abordagem mais simples seria educar as mulheres para entenderem a sua biologia e garantir que a sociedade lhes permitia ter filhos enquanto são novas.”