Não são as boas notas, não são as fracas condições económicas nem tão pouco é o talento abismal. Numa província da África do Sul, é a virgindade que dá direito a bolsas de estudo. A situação é contada por um dos responsáveis da iniciativa à Associated Press.

Este ano já foram premiadas 16 raparigas por estarem virgens. O prémio pela “pureza e pelo foco (exclusivo) na escola” é dado pelo município de Uthukela, na província de KwaZulu-Natal, África do Sul. São entregues mais de 100 bolsas de estudo todos os anos a alunos promissores, tanto do liceu como da universidade, mas só este ano foi introduzida uma bolsa de estudo com este critério, esclarece o Mic. Esta bolsa serve de encorajamento para continuarem imaculadas e pretende ser um “exemplo” para as restantes raparigas.

Dudu Mazibuko, presidente de Uthukela, garante que as raparigas que concorreram à bolsa fizeram-no “voluntariamente” e concordaram “de livre vontade” em submeter-se a testes regulares de virgindade, que consistem na inspeção ao hímen, feita por uma mulher idosa.

Os testes vão acontecer várias vezes nos próximos três anos. Quem chumbar deixa de receber financiamento. “Para nós, isto é uma forma de lhes dizermos ‘obrigada por se manterem assim’ e continuem a manter-se assim durante os próximos três anos até conseguirem o certificado”, explicou Mazibuko.

Um abuso ou uma forma de evitar doenças?

A questão é controversa. Dudu Mazibuko diz à BBC que o objetivo é reduzir “as gravidezes indesejadas e o HIV”, bem como outras doenças sexualmente transmissíveis, mas há várias associações a acusarem os responsáveis de “sexismo” e “limitação da liberdade” das jovens.

Segundo dados recentes, há 6,3 milhões de pessoas na África do Sul infetadas com o vírus HIV e o país contou ainda 20 mil gravidezes em raparigas em 2014 — 223 delas estavam ainda na escola primária. Um outro estudo conclui que 5,6% das raparigas entre os 14 e os 19 anos engravidaram em 2013.

Mas os grupos de direitos humanos não estão convencidos. Apesar de reconhecer que as “intenções” podem ser boas, um representante da Comission for Gender Equality destaca: “Há aqui uma questão de discriminação com base na gravidez e na virgindade, e até contra os rapazes. Isto foi longe demais”.

Os testes de virgindade são permitidos na África do Sul, mas várias associações consideram-nos “violentos”, “discriminatórios” e “invasores”. Em 2004, o vice-presidente sul africano, Jacob Zuma, defendeu publicamente a prática: “A virgindade de uma mulher é o maior tesouro de uma família”.