O Ministério Público e a Guarda Civil levaram a cabo, nesta terça-feira, uma operação que levou à detenção de 24 pessoas, entre elas o ex-líder do PP na Comunidade Valenciana, Alfonso Rus. Rita Barberá estará também na mira deste furacão na política espanhola, depois de ter sido associada a um caso de corrupção na Comunidade Valenciana, nomeadamente por comissões e campanhas ilegalmente financiadasconta o El País. Barberá, ex-presidente do município de Valência entre 1991 e 2015, avança o diário espanhol, só não terá sido detida por ter imunidade parlamentar.

Entre os detidos está María José Alcón, uma ex-vereadora da Comunidade Valenciana. Alcón foi apanhada numas gravações em conversas suspeitas com Marcos Benavent sobre “a chefe”, que as autoridades acreditam ser Rita Barberá. Pois bem, quem é Marcos Benavent, o autor das gravações?

Esteve nas entranhas da política durante anos a fio, ao serviço do PP, e chegou a liderar a Imelsa, uma empresa pública de impulso económico local. Acabou corrompido pelo poder. Gravou centenas de conversas proibidas com membros do PP, nas quais até se pode ouvir Alfonso Rus numa contagem de notas que resultaram de comissões ilegais, que serviam de moeda de troca para contratos públicos na província. “O poder gera corrupção e o poder absoluto gera corrupção absoluta”, diria aos jornalistas. Pouco depois da polémica estalar, em troca de uma redução de pena, mostrou arrependimento, aceitou colaborar com a justiça e transformou-se…

Marcos Benavent gravou mais de dez horas de conversas, conta o El Mundo. Curiosa foi a transformação que protagonizou quando  compareceu em tribunal, em maio de 2015, para colaborar com a justiça espanhola. Benavent não surgia em público há vários meses, por isso o seu look surpreendeu: o fato e gravata ficaram em casa e tinha um estilo ‘hipster-hippie’, como chegaria a descrever um jornal espanhol. Chegou sorridente, com t-shirt branca e colete preto, juntando as mãos como quem está em meditação, cumprimenta ou agradece em culturas distantes. A barba conquistara muito terreno na sua face, tinha brincos e pulseiras.

Apesar da gravidade da situação e das suas transformações, e até de algumas sugestões de que estaria a tentar passar por louco, Benavent enfrentou os jornalistas durante uns 20 minutos. As acusações e a retórica prometiam algo grande, um autêntico tsunami por acontecer, com ondas que afogariam altos quadros do PP. “Sou culpado das minhas ações. Fui consciente, vivi em consciência. Vou tentar repor tudo o que puder e assumir a pena que me imponham”, admitiu. E porque praticou tais delitos? “Porque era um viciado do dinheiro [yonqui del dinero]”, disse, com um ligeiro sorriso. “As gravações são verdade, fi-las eu. Agora vai sair merda em grande escala [“va a salir mierda a punta pala“]. (…) Não sei se servirá de algo, pois vou provocar muito dano…”

Dito e feito. Até agora foram detidas 24 pessoas, oito delas com ligações próximas ao PP; há também 29 investigados. Esta Operação Taula investigou 250 contas bancárias e já participaram oito juízes, sob liderança do juiz Víctor Gómez.

Este artigo do El Mundo fala ainda num homem que, apesar de estar ligado ao Partido Popular cedo na vida, ganhou um fascínio pelos argumentos do 15-M dos indignados, um movimento anti-austeridade que surgiu na mesma altura do Podemos de Pablo Iglésias. Na sua comunidade chamavam-lhe, por isso mesmo, o “indignado”. “Dava-nos lições”, recordaram ao El Mundo alguns membros da sua entourage. “Gostava de meditação e era atraído pelo budismo”, escreve o diário espanhol, o que ajuda a explicar o tal gesto com as mãos. Outro artigo do El Mundo dava conta de que, em privado, Benavent ameaçava um dia “deixar tudo” e tornar-se hippie. Pelo meio das aventuras e desventuras, Benavent abriu um cabeleireiro para, diz o El Mundo, lavar dinheiro — chamava-se Qué hay de lo mío.

Os terramotos no Partido Popular de Espanha continuam. Depois do escândalo que teve como protagonista o ex-tesoureiro Luis Barcenas e do Caso Grütel, o PP volta a estar no coração de uma investigação de corrupção. Mariano Rajoy, em entrevista à Tele 5, comentou o episódio delicado, afirmando que em nada deverá prejudicar as negociações para um novo Governo, conta o El Mundo. “Não há razão para a corrupção dificultar as negociações para Governo. (…) O PP tem sido e será implacável”, garantiu, informando que, caso seja acusada de algo, Rita Barberá “teria o mesmo tratamento que qualquer militante do PP”, acabando por ser “afastada”.