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Chegou à polícia a dizer que dois homens armados e de caras “parcialmente” tapadas o tinham assaltado. Sob ameaça de arma de fogo, pediram-lhe o dinheiro, o telemóvel, os documentos e um fio de ouro que, segundo o queixoso, tinha sido comprado pouco antes para oferecer à namorada. Como foram usadas armas de fogo, a investigação passou para a Polícia Judiciária (PJ). Mas os inspetores não perderam muito tempo. Assim que ouviram o suposto ourives, que teria vendido o colar, perceberam estar perante uma história falsa. Não tinha havido qualquer crime.

O caso aconteceu no Porto e foi esta terça-feira divulgado pela PJ. Mas é apenas um de muitos outros casos, grande parte resolvidos, que ocorreram no Norte do país. Segundo dados da Direção Nacional da PJ facultados ao Observador, nos últimos três anos aconteceram 128 casos idênticos: 36 em 2013, 53 em 2014 e 39 em todo o ano de 2015. Na maior parte dos casos, quem se queixa quer esconder uma ausência e simula um sequestro, por exemplo.

“Muitas vezes são situações criadas para justificar o desaparecimento de objetos ou quantias de dinheiro”, explica o diretor nacional adjunto da PJ, Pedro do Carmo.

No caso agora divulgado, o homem de 32 anos acabou por confessar que a namorada estava prestes a deixá-lo. E que esta seria uma forma de justificar porque se esqueceu de lhe comprar uma prenda e de reacender “a paixão”, conta ao Observador o inspetor-chefe Manuel Santos, responsável pela investigação dos roubos com arma de fogo na Diretoria do Norte da PJ.

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Aos olhos da lei, inventar um crime pode dar um ano de prisão ou 120 dias de multa. Ao crime chama-se simulação de crime, para quem “sem o imputar a pessoa determinada, denunciar crime ou fizer criar suspeita da sua prática à autoridade competente, sabendo que ele se não verificou”. Na prática, reconhece  Manuel Santos, o Ministério Público raramente formaliza uma acusação contra estas vítimas, que acabam a ser constituídas arguidas. Normalmente redimem-se a prestar trabalho comunitário. Para o inspetor-chefe, a vergonha que estas pessoas sentem quando são descobertas “já é uma pena suficiente”.

“Podiam, eventualmente, ser condenados a pagar os gastos que a polícia teve. Mas uma pena de prisão seria excessivo”, diz Manuel Santos.

É que há investigações que chegam a ser complexas e que exigem recolha de imagens de sistemas de videovigilância, várias horas de visualização de imagens e vários quilómetros e horas a inquirir testemunhas. Para nada.

A cozinheira e o amante

Foi o caso de uma cozinheira de 50 anos que, em junho de 2015, se queixou à polícia de um roubo. Alegou ter sido assaltada em plena rua, também por dois homens armados. Neste caso havia registo de agressões. Violência em troca de um levantamento em dinheiro numa caixa multibanco e de várias compras efetuadas num centro comercial da zona. Só três meses depois, a PJ chegaria à verdadeira história. A mulher tinha tido uma relação extraconjugal com um homem e quando pôs um ponto final no relacionamento chegaram as ameaças. Ele ameaçou contar tudo ao marido, que estava em França, aos filhos e ao patrão. A menos que ela lhe pagasse o silêncio. Só quando o dinheiro começou a acabar depressa demais e o marido lhe pediu justificações é que a mulher decidiu apresentar uma versão dos factos. Simulada.

O inspetor-chefe Manuel Santos reconhece que a experiência na investigação de assaltos à mão armada ajuda a resolver os falsos crimes. “Às vezes há pormenores no modo de atuação dos suspeitos que são comuns a vários casos. E que escapam nestas versões das histórias”. Assim que a PJ percebe que está perante uma história falsa, acaba por confrontar o queixoso e este acaba por assumir.

“Normalmente estas queixas são apresentadas à PSP e à GNR e depois encaminhadas para nós. As pessoas interiorizam a história. Quando são confrontadas quase se penitenciam perante nós. E acabam por justificar porque o fizeram. Sentem-se envergonhadas”.

Mas o que leva alguém a inventar um crime? Amor e dinheiro responde o investigador. Seja para esconder uma infidelidade, seja para recuperar uma qualquer perda. E lembra o rapaz que se esqueceu de um telemóvel de 600 euros em cima de uma mesa de um centro comercial e que para ativar o seguro inventou um assalto à mão armada. “Há muitos casos de telemóveis por causa de seguros.” O rapaz acabou por nunca recuperar o telefone esquecido e foi constituído arguido por simulação de crime.

Simulou o próprio sequestro para justificar falta ao trabalho

Amarrado a uma árvore, de pés e mãos atados, nas margens do rio Douro, num local “recôndito, e acesso extremamente difícil, só possível de aceder pela via fluvial quando a maré está na fase praia-mar”. A descrição foi feita em agosto de 2015 pela própria Polícia Judiciária para explicar como encontrara o rapaz de 26 anos alegadamente vítima de um sequestro.

Naquele dia, mal teve conhecimento do caso, a PJ alertou a Polícia Marítima para colaborar numa operação de resgate que envolveu “significativos recursos humanos e logísticos”. Os inspetores pensavam estar perante um crime de sequestro, mas a investigação que se seguiu veio mostrar que algo não batia certo.

O queixoso acabou, confrontado pela polícia, por admitir que ele próprio se tinha colocado naquela situação. Justificação: passara a noite em bares com “diversas companhias femininas” e por ter medo da reação da entidade patronal simulou o sequestro. Mais. Escolheu aquele local antes de a maré subir e “por não saber nadar, não sabia como escapar da situação que criara”. O caso foi tratado pelo Ministério Público de Vila Nova de Gaia.

Casal queria ficar com mercadoria do patrão

Um ano antes do alegado sequestro que terminou nas margens do rio Douro, a PJ do Porto desvendava mais um crime simulado. Desta vez um casal que alegara ter sido vítima de um assalto à mão armada em trabalho. Os dois encontravam-se numa carrinha de transporte de mercadorias por conta de uma empresa, quando teriam sido abordados por dois carros e ameaçados com armas. Tinham sido obrigados a entregar os 600 euros, recebidos de clientes naquele dia, e cerca de três mil euros em material – entre tablets, iPads e telemóveis.

Os inspetores partiram para o terreno, em Vila Nova de Famalicão, e numa semana conseguiram “desmontar toda a versão”, como então anunciaram. As vítimas, de 27 e 31 anos, passaram a suspeitos do crime de simulação de roubo e e apropriação ilícita de bens alheios.