De “Branca de Neve e os Sete Anões” em 1937 a “Frozen: O Reino do Gelo” em 2013, as protagonistas femininas nos filmes da Walt Disney Animation Studios evoluíram com o tempo: de figuras tranquilas, de discurso conciliador, que suportam as dificuldades e humilhações sem queixarem-se, a personalidades mais combativas, audaciosas, que pensam e agem com maior independência.

Apesar de esta evolução refletir a mudança na construção de personagens femininas nos filmes da Disney, as investigadoras Carmen Fought da Pitzer College e Karen Eisenhauer da North Carolina State University descobriram uma tendência que contraria esta transformação: mesmo quando são protagonistas dos títulos, as personagens femininas têm menos falas que as masculinas, sobretudo nos filmes lançados nas últimas três décadas.

De acordo com as conclusões preliminares do trabalho apresentado este mês no Linguistic Society of America’s Annual Meeting , enquanto as personagens femininas são responsáveis por 50 a 70% das falas em filmes da era clássica da companhia, como “Cinderela”, “A Bela Adormecida” e “Branca de Neve e os Sete Anões”, o número diminui durante o chamado “renascimento da Disney” entre 1989 e 1999: “A Pequena Sereia” (32%), “A Bela e o Monstro” (29%), “Aladdin” (10%), “Pocahontas” (24%) e Mulan (23%).

A tendência repete-se durante o “segundo renascimento da Disney” a partir de 2009, com os títulos “A Princesa e o Sapo” (24%) e “Frozen: O Reino do Gelo” (41%).  As únicas exceções: “Entrelaçados” com 52% das falas dedicadas a personagens femininas e “Brave: Indomável”, com 74%.

As investigadoras assistiram a todos os filmes de animação da Disney e quantificaram as falas de todas as personagens por género. Para elas, parte do problema é que os filmes mais recentes da Disney têm predominantemente personagens masculinas com poucas figuras femininas em posições de poder ou respeito. “Não há mulheres a liderar uma vila contra o Monstro, não há mulheres a criar vínculos em tabernas enquanto bebem ou cantam, não há mulheres a dar ordens ou a inventar coisas. Todos os que estão a fazer alguma outra coisa, que não seja encontrar um marido num filme, são homens praticamente”, defende Fought em entrevista ao jornal Washington Post.

No entanto, a investigadora não culpa a Disney. “O meu melhor palpite é que é um descuido, porque somos treinados para pensar no sexo masculino como norma. Quando você quiser criar um personagem lojista, o lojista é homem. Ou criar um guarda, o guarda é um homem. Acredito que é algo que está enraizado na nossa cultura”, defende Fought.

“É dito que os filmes da era da renascença como ‘A Pequena Sereia’ e ‘A Bela e o Monstro’ não são o típico filme de princesas, eles têm ‘mulheres ativas a resolver coisas’. Isso é bom, mas estes filmes são realmente bons para as raparigas verem? Quando você começa a olhar este tipo de coisas, começa a questionar-se um pouco”, conclui a investigadora.