No Dia Internacional de Recordação do Holocausto, a presidência israelita decidiu publicar uma carta enviada pelo dirigente nazi Adolf Eichmann ao então presidente de Israel, Isaac Ben-Zvi, a solicitar clemência dois dias antes de ser enforcado.

Eichmann, que participou no envio de centenas de milhares de judeus para campos de concentração durante a chamada “Solução Final” ordenada por Hitler, enviou um documento manuscrito onde pedia a alteração da pena capital, assegurando que foi “um mero instrumento” e que apenas obedecia a ordens superiores: “Eu não era o responsável, e como tal, não me sinto culpado”, cita o El Pais.

O alemão fugiu para a Argentina onde se escondeu sob identidade falsa até que foi encontrado em 1960 pelos serviços secretos israelitas, a Mossad. Nesse ano foi transportado para Jerusalém onde foi julgado por crimes de guerra e contra a humanidade. Para evitar a forca, Eichmann escreveu: “Nunca ocupei uma posição tão elevada como a de exercer autoridade independente, e nunca dei ordens em nome próprio, mas atuei de acordo com as ordens de outros”.

Durante o julgamento em 1961, acompanhado pela filosofa alemã Hannah Arendt para a The New Yorker, cuja cobertura já deu um filme, o advogado do nazi, Robert Servatius, alegou que o seu cliente era “uma pessoa sem importância que foi vítima dos acontecimentos políticos”.

Aqui fica um testemunho de uma mulher durante o julgamento de Adolf Eichmann:

Foi também publicado a transcrição do discurso do então procurador geral de Israel perante o tribunal que condenou Eichmann à forca 14 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial:

Quando compareço perante vós, juízes de Israel, para apresentar as acusações contra Adolf Eichmann não estou sozinho. Junto a mim há seis milhões de acusadores. Mas eles não se podem colocar em pé e assinalar com o dedo o homem que se senta no banco com o grito ‘J´accuse!’ [eu acuso] nos seus lábios. Eles agora são apenas cinzas empilhadas no alto das colinas de Auschwitz, nos campos de Treblinka e espalhadas nos bosques da Polónia. As suas sepulturas estão espalhadas por toda a Europa. O seu sangue grita, mas a sua voz foi silenciada. Agora falarei por eles, e em seu nome vou apresentar esta terrível petição de condenação”.

Adolf Eichmann. O “burocrata” dos campos de extermínio

Começou por ser cabo das SS em 1934 no campo de concertação de Dachau onde ganhou estatuto e prestígio aos olhos dos seus superiores. Foi por isso promovido e mudou-se para Berlim onde trabalhou nos registos de movimentos sionistas e de outras organizações judaicas.

Já durante a Segunda Guerra ficou responsável pela organização das deportações para a Polónia ocupada. O trabalho consistia em coordenar junto das autoridades policiais a retirada dos judeus, tratar da propriedade confiscada e conseguir financiamento bem como transporte. Conta-se que, dias depois da sua nomeação, Eichmann já tinha elaborado um plano para a deportação de 600 mil judeus para o “Governo Geral” (parte de Polónia ocupada pelo regime nazi).

Como consequência destas medidas, as comunidades judaicas foram organizadas em ghettos nas maiores cidades alemãs à espera para, mais tarde, serem transportadas para fora do país ou para os campos de concentração. Até que, em 1940, Eichmann escreveu o memorando do “Projeto Madagáscar” onde se planeava a recolocação de um milhão de judeus por ano na ilha africana. No entanto, as constantes derrotas contra a força aérea britânica, e o consequente adiamento da invasão do Reino Unido provocaram o atraso da execução desta proposta. Em 1942, Hitler cancelou definitivamente o plano de Eichmann.

Mas em 1941 o Führer dava a ordem, que Hermann Göring devia transmitir, para preparar e colocar em prática o plano para a “solução total da questão judaica” em todos os territórios sob ocupação germânica.

Em 1942, e depois de Hitler ter dado ordem para se avançar com o extermínio dos judeus, foi organizada a Conferência de Wannsee, para a qual Eichmann preparou uma lista com o número de judeus presentes nos vários países europeus e com estatísticas de emigração. O alemão esteve presente na conferência tendo inclusivamente, mais tarde, supervisionado as deportações em massa para os campos de concentração quando a “solução final” começou a ser colocada em prática – exemplo disso mesmo foi o momento em que, no ano de 1944, na Hungria organizou a deportação de 800 mil judeus. Em menos de dois meses, 147 comboios transportaram mas de 400 mil para Auschwitz.

No final do maior conflito de que há memória, em 1945, Eichmann foi detido por soldados norte-americanos conseguindo esconder a sua verdadeira identidade. Um ano depois escapou juntamente com outros prisioneiros. Anos depois, período durante o qual trabalhou na Alemanha sob identidade falsa, conseguiu viajar para a Argentina através de Itália com o nome de Ricardo Klement. Foi então encontrado e detido pela Mossad em 1960.

O julgamento de Adolf Eichmann, chefe da Seção de Assuntos Judeus no Departamento de Segurança de Hitler, foi o segundo maior e mais mediático julgamento no pós-guerra sendo apenas ultrapassado pelos julgamentos de Nuremberga. Foi condenado à morte depois de mais de 100 testemunhas e duas mil provas. Apesar disso, durante o julgamento que foi transmitido pela televisão, o alemão tentou sempre passar a imagem de que não passava de um burocrata que apenas assinava papéis.