Rob Spence é realizador de cinema. Canadiano. Cegou parcialmente aos nove anos de idade, num acidente que é tão infeliz quanto caricato. Enquanto disparava contra uma pilha de bosta de vaca, acidentalmente disparou, mesmo que de raspão — as consequência podiam ter sido mais graves –, contra si e perdeu a visão no olho direito. Hoje, com 43 anos, e aproveitando-se da profissão que tem, resolveu-se por fim a retirar o globo ocular que não vê, substituindo-o por uma prótese, muito semelhante (na cor e na dimensão da retina) ao olho esquerdo.

Mas Rob acrescentou-lhe um pormenor que a diferencia da maioria (se não mesmo de todas) das próteses oculares: uma câmara de vídeo. Ao New York Post, Rob Spence recorda que, quando se propôs a fazê-lo, “todos, literalmente todos — mesmo os médicos –, pensavam que estava a brincar com eles, que era um piada”. Mas não era. “A ideia de fazer um vídeo constante das nossas vidas é algo mais da cultura pop e da ficção cientifica do que propriamente do dia-a-dia”, afirma. Apesar de considerar que a decisão que ia tomar era “uma loucura”, tomou-a. Porquê? “Gravar tudo quando fazemos é somente mais data base acumulada. Todos o fazemos, com os smartphones; é algo que, mais dia menos dia, se vai generalizar a todos.”

Mas a invenção de Rob Spence — foi o próprio que pensou no olho-câmara, que o desenvolveu, fazendo da invenção um site: Eyeborg Project — ainda precisa de ser aperfeiçoada. Primeiro, não estando a câmara conectada com o nervo óptico, ele apenas poderá ver o que grava via radio-transmissão, num tablet, por exemplo — mas em tempo real. Contudo, isso é o de menos. O “pormaior”, chamemos-lhe assim, é que a câmara, que é acoplada à prótese, apenas grava durante curtos períodos de tempo, sobreaquecendo depois e tendo que ser removida. E entenda-se “curtos períodos de tempo” como somente três minutos.

A vida e as rotinas de Rob (e do seu olho-câmara), que até gosta mais de ser tratado como “Eyeborg” do que por Rob, vai fazer parte de um documentário da Showtime, uma espécie de reality show, a estrear brevemente e que dará pelo nome de Dark Net. Rob Spence reconhece que a câmara ocular terá vantagens, permitindo-lhe realizar entrevistas “mais íntimas” e sem necessidade da “intromissão de câmaras volumosas e equipas de rodagem”. Contudo, este aparelho traz ainda questões éticas, que importa discutir — e Rob fá-lo-á em Dark Net –, sobretudo no respeita à “privacidade”, podendo ser uma invenção “desconfortável para quem é filmado, na rua, o tempo inteiro”, explica ao New York Post.