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Dizem, com muita razão, que as primeiras vezes contam muito. A ténue linha entre meter o pé a medo ou com a dose certa de força decide se, num ressalto, acabamos com a dor ou com a bola do nosso lado. Na primeira oportunidade que um jogo nos dá em discutir com um adversário quem fica com a bola ou quem mete o melhor passe, finta ou remate, é melhor caprichar. Porque é esse vai não vai, são essas primeiras perguntas que o jogo nos pede para responder, que mais têm a mania de importunar a confiança e sussurrar-lhe coisas que ela pode ficar a mastigar até ao fim do jogo. É qualquer coisa como escrever que o que cedo fica torto pode não se endireitar em hora e meia.

Por isso deve ter sido tramado para Danilo Pereira que, antes de o jogo contar três minutos, na primeira vez que saltou para tocar com a cabeça na bola, tenha perdido em altura e antecipação com Diego Carlos. O matulão de 1,88m viu um grandalhão de 1,84m a fazer com que a primeira tentativa do médio em fazer algo certo acabasse no 1-0 que deu um começo errado aos dragões. Lenta, à espera do que aí vinha e recuada, a equipa deixara o Estoril encher o peito na própria casa e bater de frente no visitante. Isto podia mexer com a confiança, mas não.

E o “não” aqui foi dito de várias maneiras. Uma delas em castelhano com dois sotaques, um uruguaio e outro mexicano, vindo das motas que Maxi Pereira e Miguel Layún ligaram e das auto-estradas que a equipa montada à maneira de José Peseiro lhes dá para correrem. Os extremos não paravam de ir pedir a bola ao centro, deixando as alas com relva descoberta para os laterais pisarem. O outro “não” apareceu na forma como os dragões encurtaram os metros entre jogadores e os mantiveram juntos para, a cada bola que recuperavam, facilitarem uma tarefa — reagir rápido e montar jogadas velozes, só com passes para a frente. Foi nisto que André André pensou aos, 18’, quando matou na relva um chutão para a frente de Iker Casillas.

Assim que a bola ficou no pé do médio ele preocupou-se em fixar um adversário e lançar o sprint que já embalara Layún, na esquerda. O mexicano apanhou o passe a acelerou ainda mais, só abrandando na área tocar um pequeno passe para o lado e ver Aboubakar transformá-lo no empate. Recuperação, reação, aceleração. E confiança, a que o FC Porto ganhou com o golo e fez a equipa jogar cada vez mais com o avançado, arriscando passes para o camaronês segurar e devolver em quem chegava de frente para depois fazer as jogadas chegarem aos laterais. Antes da meia hora já Gerson e Mairon gastavam a frescura das pernas a defender e sentiam o cansaço quando era hora de atacar.

Estoril's Brazilian defender Diego Carlos (C) celebrates with teammates after scoring during the Portuguese league football match GD Estoril Praia vs FC Porto at the Antonio Coimbra da Mota stadium in Estoril on January 30, 2016. AFP PHOTO/ JOSE MANUEL RIBEIRO / AFP / JOSE MANUEL RIBEIRO (Photo credit should read JOSE MANUEL RIBEIRO/AFP/Getty Images)

O que está de dedo no ar é Diego Carlos, o central que marcou o golo aos dragões. Foto: JOSE MANUEL RIBEIRO/AFP/Getty Images

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O “não” que falta aparecia nas tabelas curtas, nos toca-e-vai e no respeito da regra em dar sempre a bola a quem esteja de frente para a baliza de Kieszek que faziam com que os dragões conseguissem fazer tudo rápido após recuperarem bolas. Foi assim que aos 34’ ganharam o canto que Layún cruzou para alguém se vingar. Danilo fazia o 2-1 com a cabeçada que lhe faltara no golo do Estoril e enchia a equipa de confiança para a viagem até ao balneário. Na segunda parte bastou confiarem no que José Peseiro lhes pediu para fazerem.

E não pareceu que algum dragão dissesse que não às ideias que o técnico lhes explicou durante a primeira semana de treinos completa com a equipa. O Estoril quis responder, passou a ter mais companhia da bola, mas poucos passes para a frente fazia bem feitos após a linha do meio campo. O FC Porto defendia com os jogadores bem mais recuados do que estavam com Lopetegui, quase até encolhidos na sua metade do relvado, mas resultava. Os que vestiam de amarelo só disseram olá a Casillas uma vez, num contra-ataque em que Afonso Taira alimentou o sprint de Gerson para o canhoto rematar a bola por cima da barra.

Os dragões mantiveram-se calmos a aproveitar a pressa adversária e a respeitar a ordem das tabelas curtas para chegarem à baliza de Kieszek. Os extremos andavam sempre perto de Aboubakar e as jogadas bonitas de se ver até se sucediam, enquanto Herrera jogava mais e melhor com o espaço que agora tem por partir para o ataque ao lado de Danilo.

Os laterais deram nas vistas em que antes caprichavam Brahimi e Jesús Corona — com Peseiro, a equipa funciona mais com Maxi e Layún — e até deu para Aboubakar, aos 77’, atirar a bola por cima da barra quando estava a menos de um metro da baliza. O acerto ficaria para André André, que lhe cruzara a bola e, aos 82’, preferiu bater de primeira a recarga a um remate de Corona que Kieszek defendeu para o lado. O 3-1 matava o jogo e dava o “não” final para responder à pergunta que o treinador do Estoril fizera aos jornalistas, antes de a bola rolar: “Acham que o FC Porto está morto?”. O próprio Fabiano Soares já tinha respondido: “Os jogadores que tem e, até a própria classificação, não diz isso”. E o que a classificação continua a dizer é que os dragões estão em terceiro, empatados com o Benfica até pelo menos os encarnados jogarem no domingo.