O arranque das primárias norte-americanas, no sempre importante estado do Iowa, deixou a cabeça a girar a muitos dos que seguem a política norte-americana. Entre os Democratas, a magríssima vitória de Hillary Clinton sobre Bernie Sanders mostrou quão aberta estará, nesta fase, a corrida entre a antiga Secretária de Estado de Obama – de quem se apresenta como herdeira natural – e o candidato socialista, contra o establishment. Nas primárias Republicanas, Donald Trump perdeu para o Senador do Texas, Ted Cruz, e poderá ter levado o primeiro rombo na imagem de winner que o próprio cultiva. Mas a maior surpresa poderá, mesmo, ter sido Marco Rubio, que saltou para o terceiro lugar e já é visto por alguns como o principal candidato à nomeação.

Trump lidera, de longe, as sondagens para as primárias do New Hampshire do lado Republicano, que se realizam na próxima terça-feira (9 de fevereiro). O Iowa mostrou que as sondagens valem o que valem, mas The Donald deverá redobrar os esforços de campanha nos próximos dias para assegurar que não volta a ser ultrapassado por Ted Cruz, como foi nestas primeiras votações primárias. Duas derrotas consecutivas de um candidato como Trump podem tornar evidente que, ao contrário do que diz o próprio, o magnata é, afinal, mortal e o efeito bola de neve que se pode seguir não seria fácil de travar.

Alguns observadores viram na decisiva votação do Iowa, que abriu as hostes nas primárias dos EUA, o início do fim da euforia em torno de Trump. Outros dizem que, apesar destes resultados, seria uma “imbecilidade” descartar o magnata e a sua resiliência eleitoral nos estados mais conservadores.

Donald Trump foi ultrapassado no Iowa por um Ted Cruz cujas referências bíblicas o ajudam, por sinal, a sacudir a imagem de menino de boas escolas e a descolar-se da carreira feita no establishment político de Washington.

Numa campanha que — não só no lado Republicano mas, sobretudo, nos Democratas — está a mostrar que o eleitorado mostra aversão ao establishment, Ted Cruz poderá acabar por sofrer com o facto de ser casado com uma executiva do Goldman Sachs e de ter sido o gigante de Wall Street a conceder um empréstimo que permitiu a Cruz financiar a campanha para o Senado.

A ter em atenção: a ascensão de Marco Rubio

É devido à fragilidade demonstrada por Donald Trump e pelo pouco entusiasmo em torno da vitória de Ted Cruz que vários analistas estão a dizer que o Iowa nos deu um primeiro vislumbre daquele que poderá ser o candidato que, correndo por fora, se poderá afirmar como uma possível surpresa no Partido Republicano: Marco Rubio, que saltou para o terceiro lugar, com 23% dos votos — muito, muito próximo de Trump.

Rubio, que partilha com Ted Cruz a ascendência cubana, tem uma grande popularidade entre os mais jovens, licenciados, com uma inclinação para o conservadorismo. No fundo, apesar da enorme diferença de idade, o democrata Bernie Sanders e o republicano Marco Rubio estão a lutar pelos votos da mesma camada demográfica, com o primeiro à procura do voto liberal e o segundo do voto mais conservador, amigo do business.

Senator Marco Rubio meets with local voters

Até onde pode ir Marco Rubio com a sua nomeação? As opiniões (e as sondagens) quanto a esta questão têm oscilado nos últimos meses, mas o que é facto consumado é que no primeiro teste a sério — as primárias do Iowa — Marco Rubio surpreendeu tudo e todos. E, sobretudo se Trump vier a perder fôlego, um colunista do The Washington Post diz que os votos de Trump cairão, imediatamente, no colo de Rubio – mais do que no de Cruz.

Eles disseram que eu não tinha qualquer hipótese porque o meu cabelo não é suficientemente grisalho e as minhas botas não são suficientemente altas. Eles disseram que tinha de esperar a minha vez, que tinha de me pôr na fila. Mas esta noite, aqui no Iowa, as pessoas deste grande Estado enviaram uma mensagem muito clara. Após sete anos de Barack Obama, já não queremos esperar mais para recuperar o nosso país” (Marco Rubio).

O motor PredictWise, propriedade de um instituto ligado à Microsoft, já antecipa que Marco Rubio é o mais forte candidato à nomeação Republicana, com larga vantagem sobre Donald Trump e Ted Cruz.

marcorubio

Hillary empata e mostra dificuldades em afirmar-se entre os Democratas

O outro grande vencedor (ainda que derrotado) das primárias no Iowa foi o septuagenário Bernie Sanders, no lado Democrata. Apesar do muito menor músculo financeiro da campanha, o candidato limitou Hillary Clinton a uma vitória magríssima na luta mano a mano que está a ser a nomeação Democrata (e que contrasta com a corrida de cavalos que se vê no lado Republicano).

Os Democratas estão divididos ao meio, numa disputa que é, também, geracional. Sanders está a surpreender tudo e todos com a popularidade que consegue conquistar junto dos jovens e do eleitorado mais velho mas que sempre votou liberal, ou seja, nos Democratas. Hillary, por seu lado, baseia a sua força, sobretudo, na faixa demográfica que a associa às vagas gordas do tempo de Bill Clinton.

Mas há que recordar que Hillary nunca foi muito popular no Iowa – ali, foi trucidada por Barack Obama no arranque das primárias de 2008. Olhando para as coisas dessa perspetiva, Hillary até pode ter adormecido na segunda-feira com algum sentimento de alívio. Podia ter sido bem pior, tendo em conta a rápida ascensão de Sanders nos últimos meses.

Nas votações primárias nos EUA, muitas vezes os primeiros estados mostram ser decisivos – a História comprova-o – portanto, por muito magra que fosse a vitória no Iowa, Hillary precisava de não perder para Sanders antes de o circo se mudar para o New Hampshire, onde Sanders praticamente joga em casa e lidera destacado as sondagens.