Ao longo da História os mosquitos não têm construído uma reputação muito positiva junto da espécie humana. E não falamos apenas dos verões passados com repelentes ou a matar os insetos com aquelas raquetes munidas de carga elétrica. Desde o século XVIII que vários países americanos e do continente asiático combatem o dengue, uma doença de que o Aedes aegypti é vetor. Agora, este mesmo mosquito está a ser responsável por um surto de zika, que está a comprometer a saúde de milhares de pessoas.

Quando os especialistas que reuniram com a Organização Mundial de Saúde avisaram que este surto podia ser mais ameaçador para a saúde pública do que o ébola, os sinos soaram junto de alguns biólogos. Mike Turner, chefe do departamento de Imunobiologia e Infecção da Wellcome Trust (uma organização não governamental britânica dedicada à pesquisa na área biomédica) veio defender o regresso do pesticida DDT para eliminar a espécie de mosquito que funciona como vetor do zika.

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O diclorodifeniltricloroetano foi um pesticida desenvolvido durante a II Guerra Mundial que na altura servia para combater a malária e o tifo. A descoberta deste medicamento valeu a Paul Hermann Müller o Nobel da Medicina de 1948.

O que aconteceria se matássemos todos os mosquitos?

Todos os anos, um milhão de pessoas morrem devido a infecções causadas por doenças transmitidas através dos mosquitos. Mas, das 3500 espécies deste insecto conhecidas pelo Homem, apenas 6% representa uma ameaça para nós. Além disso, só a picada das fêmeas dessa minoria pode trazer problemas: só elas é que precisam de sangue durante o ciclo de reprodução para desenvolver os ovos. E apenas 100 das espécies podem transmitir doenças perigosas para o ser humano.

É por isto que Olivia Judson, bióloga evolucionista da Universidade de Oxford, escreve no New York Times que um “especicídio” podia mesmo ser a solução para acabar com as doenças espalhadas pelo mosquito. Como? Através do chamado “ADN egoísta”. De acordo com a explicação da cientista, estes genes têm a capacidade de “se espalharem rapidamente através de uma população – muito mais rápido do que um gene regular – mesmo que seja prejudicial ao seu hospedeiro”. A proposta de Olivia Judson é criar uma outra sequência “egoísta” a que ela chama de “gene da extinção” e que acredita poder extinguir uma espécie em menos de 20 gerações.

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“ADN egoísta” são partes do código genético que não contribuem para o bem-estar do indivíduo, mas que conseguem persistir ao longo das gerações, mesmo sendo nocivas. De acordo com Olivia Judson, estes genes “contornam as tabelas de Mendel”, ou seja, contrariam as regras de funcionamento biológico conhecidas hoje.

Mas matar os mosquitos significava também ditar uma sentença de extinção a algumas espécies vegetais, o que iria desequilibrar as cadeias alimentares. Este é o argumento de Phil Lounibos, entomologista da Universidade de Flórida. À semelhança de alguns pássaros, os mosquitos são polinizadores: quando se aproximam das plantas para se alimentarem levam no corpo o pólen das plantas. O que significa isto, na prática?

Imagine que um mosquito se aproxima de uma flor para recolher o seu pólen e acaba por transportar consigo alguns desses grãos das anteras da planta masculina. A seguir, esse mosquito pode pousar numa planta feminina. Se isso acontecer, a gâmeta masculina pode acabar por se unir com uma feminina, desencadeando o desenvolvimento de uma nova planta. Isto é que explica um estudo ecológico da Nature: “Eliminar uma espécies de mosquito pode deixar um predador sem presa ou uma planta sem polinizador”.

cadeia

Exemplo de uma cadeia alimentar onde os mosquitos estão envolvidos. Se o número de mosquitos diminuir, todos os animais que se alimentam de mosquitos iriam diminuir em número. E as plantas perderiam um dos vetores que contribuem para a cadeia reprodutiva das mesmas.

Nem todos concordam com este argumento: é certo que o desaparecimento dos mosquitos podia fragilizar as cadeias alimentares, mas a bióloga Olivia Judson argumenta que os outros insetos rapidamente se adaptariam às novas condições e iriam conseguir substituir os mosquitos no seu efeito polinizador. Por outro lado, Phil Lounibos diz que esse reajuste pode ser parte do problema: as espécies substitutas podiam desencadear novos problemas e espalhar outras doenças que o Homem não conhece tão bem.

Outro lugar importante que os mosquitos ocupam na Natureza é que são o alimento de pássaros, morcegos mais novos, peixes e sapos. Se estes animais deixarem de ter alimento, também a sua população vai diminuir. E o mesmo vai acontecer com os animais que se alimentam desses peixes ou desses pássaros. Conclusão: se os mosquitos desaparecessem, as cadeias alimentares iriam entrar em desequilíbrio, o que também afetaria a espécie humana.

Que opções de escolha temos?

As estratégias de controlo das populações de mosquitos têm evoluído. Se em 1947 os Estados Unidos da América conseguiram matar os mosquitos causadores de malária em apenas 4 anos com um pesticida, o DDT, hoje os planos são outros. Existem pesticidas menos fortes que combatem aumentos populacionais pontuais. E alguns laboratórios criam mosquitos geneticamente modificados que os tornam inofensivos.

Isto é que está acontecer agora no Brasil para travar o surto de zika: os cientistas introduziram um gene nos mosquitos macho que impede os seus descendentes de se desenvolverem corretamente. A segunda geração morre ainda antes de se desenvolver. Em 2009, quando os mosquitos modificados no Reino Unido foram enviados para as Ilhas Caimão, a população de mosquitos Aedes aegypti diminuiu 96% em relação às áreas afetadas mais próximas, indicou a Oxitec num relatório publicado um ano mais tarde. Ainda assim, este número foi adjetivado de “sucesso moderado” pelo investigador britânico Frances Hawkes: estas iniciativas “envolvem o lançamento de milhões de insetos modificados que cobrem apenas uma pequena área”. E isto seria válido, considera ele, mesmo que as fêmeas se cruzassem com machos esterilizados.

Entretanto, outros cientistas estão a desenvolver mecanismos de detectar mosquitos perigosos para a saúde humana através de materiais acústicos. Em Londres, a Kew Gardens está a trabalhar num dispositivo que identifica o tipo de mosquito de acordo com o som produzido pelo bater das asas de cada espécie. Se essa máquina for distribuída pelos habitantes dos países em risco, todos poderiam saber se o mosquito que têm dentro do quarto é ou não perigoso.

Outra solução pode estar nos clássicos repelentes: na Escola de Higiene de Londres, por exemplo, os investigadores estão a estudar que cheiros mais atraem as fêmeas dos mosquitos para aperfeiçoar as fórmulas dos sprays e creme anti-insetos. Ou então descobrir como podem os mosquitos tornar-se resistentes aos parasitas causadoras de doenças: é a Austrália que está à frente dessa pesquisa, com o programa “Eliminar o Dengue”.