Doze pessoas por dia iniciaram tratamento e dez foram internadas por problemas relacionados com o uso de álcool em 2014, segundo um estudo que revela uma tendência de aumento na procura de ajuda contra o alcoolismo.

De acordo com o relatório anual “A situação do país em matéria de álcool 2014”, do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências), estiveram em tratamento no ambulatório da rede pública 11.881 utentes, dos quais 3.353 iniciaram tratamento pela primeira vez e 930 foram readmitidos.

Estes números revelam uma tendência de acréscimo, registando-se nos últimos três anos os valores mais elevados de novos utentes e de readmitidos.

Quanto a internamentos devido ao alcoolismo, deram entrada em Unidades de Alcoologia e Unidades de Desabituação 1.472 utentes (1.465 na rede pública e 7 na licenciada) e 2.256 em Comunidades Terapêuticas (61 em públicas e 2.195 licenciadas).

Pelo segundo ano consecutivo aumentou o número de internamentos por problemas relacionados álcool em unidades de alcoologia, enquanto nas comunidades terapêuticas a tendência de subida verifica-se já há vários anos.

Em termos gerais, o consumo de álcool mantém-se relativamente estável, com 70% da população com mais de 15 anos a afirmar ter consumido bebidas pelo menos uma vez no último ano, sobretudo com uma frequência diária ou semanal.

No entanto, ao nível do consumo arriscado/binge, os resultados do inquérito apontam valores muito superiores aos de 2012: 33% da população consumidora tomou, pelo menos uma vez, 6 ou mais bebidas alcoólicas numa única ocasião.

Apesar disto, os jovens portugueses estão mais conscientes dos riscos de consumir bebidas alcoólicas do que os europeus, tendo a maioria dos jovens (59%) de 15-24 anos considerado de “alto risco” o consumo regular de álcool, enquanto 36% o classificaram de “médio risco”.

O relatório destaca que entre 2010 e 2014 se verifica entre a população escolar uma tendência de descida das frequências de consumo dos vários tipos de bebidas alcoólicas, bem como das prevalências e frequências de embriaguez.

O relatório relaciona o consumo nocivo de álcool com a população reclusa, revelando que mais de metade afirma ter ficado embriagada antes de entrar na prisão, um em cada dez reconheceram que antes de serem presos tiveram um episódio de coma alcoólico e 28% estavam alcoolizados quando cometeram os crimes.

Quanto aos consumos em contexto de reclusão, “como expectável, verifica-se uma redução importante com a entrada na prisão”.

No entanto, dentro dos estabelecimentos prisionais também existe consumo, sendo que o mais prevalente foi o de cervejas e bebidas alcoólicas de “fabrico artesanal” na prisão.

Em 2014 continuaram a registar-se internamentos hospitalares com diagnóstico principal atribuível ao consumo de álcool, embora em tendência decrescente nos últimos três anos (menos 7% face a 2013 e menos 17% em relação a 2012).

Nesse ano, foram internados em hospitais 5.768 pessoas por causa do alcool, a maioria (67%) com doença alcoólica do fígado (dos quais, 53% cirrose) e 20% com síndrome de dependência.

Se se considerar para além do diagnóstico principal também os secundários, o número de internamentos atribuíveis ao consumo de álcool é bastante superior — 34.272 internamentos em 2014 –, e tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos (+1,4% entre 2013 e 2014).

Os registos de mortalidade em 2014 indicam a existência de 829 óbitos devido ao álcool: 33% em acidentes de viação, 31% morte natural, 18% suicídio e 5% intoxicação alcoólica.

A criminalidade relacionada com o consumo de álcool também tem vindo a diminuir (menos 16% face a 2013), invertendo a tendência crescente entre 2009 e 2012, mantendo-se no entanto um aumento da proporção estes crimes no total da criminalidade.

Em 2014, registaram-se 20.752 crimes por condução sob efeito de álcool e 27.317 participações de violência doméstica relacionada com consumo de álcool, 41% das quais referiam-se a casos já sinalizados.

Em matéria de fiscalização relativa ao consumo e disponibilização de bebidas alcoólicas em locais públicos, em 2014 foram fiscalizados 7.312 estabelecimentos comerciais, registadas 728 infrações e aplicadas 87 contraordenações relacionadas com a venda a menores.