“Muitas vezes o esforço vence o talento.”

A frase não tem mentira nenhuma. É verdade que um depósito com mais genica injeta nas pernas mais corrida e na cabeça mais vontade de fazer as coisas. Também não está errado dizer que é quando o cansaço aparece que é quem mais se esforça que melhor lida com isso. Uma equipa em que toda a gente se esforça ao máximo pode correr, lutar, saltar, comer quilómetros e ajudar mais um companheiro do que o adversário. Dar o litro pode funcionar quando a bola rola e o esforço tem oportunidade para se medir contra o jeito que os outros têm a mais para fazer qualquer coisa à bola. Mas e se ela estiver parada?

Aí não há muito a fazer e por muito que os jogadores da barreira saltassem, nenhum conseguiu impedir Sérgio Oliveira de fazer o que pretendia. O português da fita a prender o cabelo e tatuagens a cobrir os dois braços mostrou a situação em que o talento num pé direito contraria a frase que um treinador adversário (Nandinho) diz antes do jogo — um livre direto. Foi mesmo à entrada da área que o português parou de correr depois de entrar em campo para bater a bola. Com tanto jeito a rematou que a fez entrar junto ao cruzamento entre o poste e a barra onde deveria estar uma coruja a dormir.

Talento é estar há 10 segundos em campo e ter um pé que, à primeira vez que toca na bola, a faz voar por cima de uma linha de cabeça e torna irrelevante haver, ou não, um guarda-redes na baliza. Por isso não havia esforço que pudesse impedir o 3-0 com que Sérgio Oliveira matou o jogo a 20 minutos de o árbitro o declarar mesmo morto.

Antes dos 70’ é que o esforço podia valer ao Gil Vicente, e valeu. A partida arrancou com Simy, Vagner e Vítor Gonçalves, os três que andavam lá à frente, a puxarem a equipa a reboque. Pressionavam os dragões em cima, logo à entrada da área, e cada um fazia o que lhe pediam — os extremos encostavam a Maxi e Layún enquanto o avançado se intrometia no espaço entre Maicon e Marcano. A ideia era obrigar o FC Porto a arriscar o que tantas vezes tenta, que é sair a jogar com passes pelo centro e com a bola na relva. Era aí que os gilistas apostavam o otimismo de recuperarem bolas no sítio em que mais poderiam magoar os dragões.

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Não o conseguiram muitas vezes, mas obrigavam os portistas a ser cuidadosos no risco e lentos pelas preocupações de jogar pela certa. Tanto que, num lançamento lateral de Maxi, ficaram adormecidos enquanto o Gil lhes roubava a bola e a fazia chegar rápido a Vítor Gonçalves, que à esquerda da área rematou a bola em jeito para a ver bater na barra da baliza de Helton. O esforço da equipa de Nandinho ia compensando, mas era uma questão de tempo até o revés aparecer nas pernas. À meia hora já se viam gilistas a pressionar e outras a descansar e os dragões só não aproveitavam porque teimavam em não acelerar corridas e trocas de passes. O esforço que ia estoirando os anfitriões mal se notava nos visitantes.

Apenas se viu um traço dele quando Rúben Neves apanhou a ressaca de um canto à entrada da área e se esforço para bater a bola com força para passar entre tantos corpos. A bola parou na baliza e o 1-0 que a segundos de o árbitro apitar para o intervalo era um brinde que relaxou os dragões e os fez ouvir José Peseiro no balneário. Talvez se tenha lembrado da frase de Nandinho e ter-lhes-á pedido que juntassem uma pitada de esforço ao talento que tinham a mais que os gilistas.

Os dragões obedeceram, mas não muito. Varela acelerou as corridas com bola para fazer tremer os adversários como Brahimi, experimentado a número 10, não fazia. Os laterais aproveitaram mais o cansaço de Vagner e Vítor Gonçalves e nem a pujança do trinco Djamal chegava para o esforço do Gil Vicente acompanhar a subida de ritmo do FC Porto. Antes de Sérgio Oliveira mostrar o que é talento e de Bruno Santos ser expulso por fazer a falta que lhe deu o livre para bater, já Miguel Layún acumulara outra assistência esta época. O mexicano foi atacar à esquerda, a equipa lá variou a bola de um lado do campo para o outro com rapidez e deu tempo para o lateral cruzar à vontade.

Pé direito, bola, cruzamento e cabeça de Suk. O sul-coreano estreava-se a marcar para fazer o 2-0 antes de acabar por sair lesionado de um jogo em que, à exceção do golo, as coisas até nem lhe estavam a sair. Depois, com o jogo moribundo com o 3-0 de Sérgio Oliveira, foram 20 minutos de relaxamento, passes bonitos e gente a que não tinha brilhado (Marega, Aboubakar e José Ángel) a tentar brilhar. A equipa jogou bem? Nem por isso, mas fez o suficiente. O resultado chegava para fazer da segunda mão no Dragão uma escala quase desnecessário para, quatro anos depois, o FC Porto voltar a viajar até ao Jamor. Quanto a isto, o esforço gilista não deverá ter grande coisa a fazer.