A 21 de janeiro, pelo menos 40 pessoas morreram na sequência de um atentado a um restaurante na Somália, reivindicado pelo grupo terrorista Al Shabab. Uma das sobreviventes, Nasro Dahir Abukar, contou à BBC como decorreu o momento em que os homens armados entraram no bar Beach View Cafe, onde estava com o irmão.

“Estava com o meu irmão mais novo, Eyamn. Estávamos a ver o mar e a desfrutar da paisagem e do barulho das ondas. Estava a ser um momento maravilhoso. De repente, começámos a ouvir um tiroteio, vindo de um restaurante sobre a praia. Todas as pessoas que estavam no bar agarraram nas suas coisas e tentaram.

Comecei a questionar se sairia dali viva. Entretanto, não consegui perceber se o meu irmão tinha conseguido sair do restaurante a tempo. Comecei a chamá-lo, enquanto tentava perceber como poderia contar à minha mãe que ele podia estar morto. Era não só o filho mais novo da minha mãe como o único rapaz. O nosso outro irmão tinha morrido há um ano e ela ainda chorava a sua morte.

Preparei-me para o pior. Enquanto os disparos se intensificavam, pensava na minha família. Achei que me iam culpar pela morte de Eyman, porque tinha sido ideia minha levá-lo àquela praia. ‘Porque é que o trouxe comigo?’, perguntei várias vezes.

Estava escondida na casa de banho e, de repente, alguns disparos atravessaram a porta. Uma poça de sangue começou a rodear-me e conseguia ouvir os gritos das mulheres e crianças, entre o barulho das balas e das explosões. Mas isso fez com que percebessem que havia sobreviventes e voltavam a disparar. Até que toda a gente se calou.

Estava tudo às escuras e eu estava sentada no chão da casa de banho, numa poça de sangue, com várias pessoas feridas em cima de mim. Não podia dizer uma palavra e assumi o pior: Eyman estava morto e eu prestes a morrer também. De repente, voltou a esperança. Comecei a ouvir os agentes das forças especiais, que nos avistaram com as lanternas e começaram a evacuar os feridos.

Eu estava em choque. Um dos homens agarrou em mim e fez-me sair do restaurante. Perguntou-me se estava ferida. Tinha pedaços de vidro a cobrir-me a roupa, mas estava bem fisicamente. Perguntei pelo meu irmão e disseram-me que tinha sobrevivido.

Pensei nestes soldados que arriscaram a vida para nos salvar. Enquanto saiamos do restaurante, podíamos ouvir o tiroteio e as bombas ao longe. Dava a minha vida a esses soldados e gostava de lhes agradecer pessoalmente. Mas nunca mostraram a sua cara. Nem sei como se chama.

Obrigada por terem arriscado a vida para nos salvar. E agradeço a Alá.”