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Ouvir-com-outros-olhos

Título: Ouvir com Outros Olhos. Ensaios
Autor: João Lobo Antunes
Editora: Gradiva
Número de páginas: 200
Preço: 14€

Se há pessoa que dispensa apresentação, é João Lobo Antunes. Figura pública reconhecida; professor universitário e neuro-cirurgião consagrado, ele é isso e mais do que isso, confirmando com esta sua mais recente recolha de ensaios que ele busca ser um «intelectual integral» no próprio sentido cristão que tal comporta. É isso que me parece ele esboçar em mais de um ensaio deste livro, sobretudo, naquele que dedica ao «discurso que Bento XVI não chegou a pronunciar» na Universidade La Sapienza de Roma em 2007, a saber, não apenas a conciliação entre a ciência praticada por Lobo Antunes e a «razão ética» invocada pelo anterior Papa, mas igualmente a necessidade da co-presença permanente de ambas, para não dizer, usando um termo recorrente do autor, da sua natureza mutuamente transcendente da ciência e da ética.

A longa e exitosa prática profissional que o autor tem exercido ao longo da vida, assim como os saberes cultivados desde sempre, em benefício directo ou indirecto desse exercício profissional, compelem-no uma reflexão incessante – um vai-vém contínuo e profícuo entre a ciência, a cultura e a filosofia – que atravessa as páginas deste seu mais recente livro, como se se tratasse do indispensável lubrificante desse motor que é, para ele, a profissão, ou mais específica e elegantemente, a prática. Por sua vez, esta noção forte de prática, muito própria se não exclusiva da prática médica, permite a cada um de nós, que exercemos profissões distintas da sua, extrapolar da medicina para o conjunto daquilo que ele designa como the learned professions e talvez possa ser traduzido pelas profissões cultas ou instruídas.

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É esse o sentido mais vincado deste conjunto de dezasseis ensaios de dimensão e alcance muito diversos, dos quais destacarei alguns a fim de transmitir a forte impressão que o livro no seu conjunto me deixou. Resta acrescentar que, na breve introdução do próprio autor, ele evoca duas dimensões que constituem o duplo fundamento, por assim dizer o «húmus», em que João Lobo Antunes mergulha a sua escrita. A saber, «a compulsão biográfica» que espreita quase tudo» quanto ele escreve – a evocação da família, da infância, da juventude, dos tempos de estudo, da formação nos Estados Unidos ou as histórias de Santa Marta e de Santa Maria – a biografia é, por assim dizer, o terreno onde o autor assenta os pés, não para contar histórias por contar, mas sim para fundar a reflexão que em cada momento o conduz – isto por um lado.

A outra dimensão que lhe serve de renovada força, como a Anteu, reside na repetida invocação de sentimentos como a «doçura», a «suavidade» e a «compaixão», em oposição à «comiseração piedosa, um sentimento mais barato», como ele diz, a fim de erigir os primeiros sentimentos e emoções em autênticos valores condutores que o autor não hesita em preconizar ao longo das múltiplas reflexões do livro. O tema continua a ser o da omnipresença da prática médica e da transcendência que esta tem para o autor, das quais tal pulsão biográfica e tais valores éticos são parte integrante e motivadora. Em derradeira instância, é como se estivéssemos diante do auto-retrato do artista enquanto médico!

O poder curativo da palavra

O primeiro ensaio, que dá o nome e o tom ao livro: «Ouvir com outros olhos» – numa palavra, exercer a prática médica com a escuta ancorada, conforme o ensaio seguinte virá confirmar, no «consolo das humanidades» – esse ensaio inaugural lança efectivamente o essencial daquilo que está em jogo no conjunto do livro. Isto é, o surgimento e as tribulações da medicina narrativa, a qual quereria guindar-se às vezes a uma meta-medicina (a «doença como metáfora» de Susan Sontag, citada criticamente) ou então a tornar-se (cito de novo) um «método» alternativo a outro, como por exemplo «a medicina baseada na evidência», que o neuro-cirurgião João Lobo Antunes também não parece comprar por atacado, mas os leigos têm dificuldade em entrar nestas tecnicalidades…

Em compensação, este leitor sentiu-se feliz por descobrir que o autor partilhava comigo a ideia de que, para bem escutar os rumores do mundo e dos entes que o povoam, o que era preciso era «um ouvido colado ao chão, atento como um índio, pronto a detectar o tropel longínquo da cavalaria», como num daqueles westerns das nossas juventudes… Desde esta altura do livro que ficamos a perceber que era na cultura – a literatura imaginativa, «real books read us», segundo o crítico literário norte-americano de meados do século passado Lionel Trilling, por coincidência ou talvez não, outro familiar dos ofícios das humanidades – que Lobo Antunes diz mais de uma vez que «apurava o ouvido» a fim de melhor «apreender o sentido mais profundo da narrativa», incluindo «os segredos escondidos no interstício do discurso».

Do mesmo passo, porém, que se tornou evidente, para ele, o «reconhecimento do poder curativo da palavra», também se «acentuou o risco de desencontro no diálogo pelo uso de dois idiomas diferentes» – o do doente e o do médico, salientando o autor que ele próprio tem um discurso como médico e outro como doente, daí porventura a troca dos ouvidos pelos olhos no título do livro e do primeiro ensaio! Durante todo esse tempo – e quantos serão os médicos que têm isso presente na sua prática, para não falar dos leigos? – o autor lembra ainda que «só a saúde é muda», só ela é inaudível e invisível aos índios!

Poderíamos ficar o resto do tempo a comentar apenas este primeiro ensaio seminal, que não substitui os outros mas de algum modo os subsume, onde João Lobo Antunes mostra como «a neurologia e o seu braço armado, a neurocirurgia» sofreram, desde o seu tempo nos Estados Unidos, uma transformação radical com a introdução da imagem, da TAC e da Ressonância Magnética, que trouxeram um flagrante imediatismo ao diagnóstico e, com isso, abafaram a narrativa da doença» (estou a citar), enquanto as Humanidades conheciam entretanto «novo ímpeto». Segundo o autor, «no caso da Medicina sentia-se a necessidade urgente de um contrapeso ao reducionismo da técnica, da super-especialização, da submissão a novas materialidades, novos poderes, enfim tudo o que cavava um fosso cada vez maior entre as duas culturas», a científica e a humanística. E é esse fosso que ele pretende franquear através de uma ética integral.

O segundo ensaio é a continuação do anterior ou, melhor, uma outra face da prática médica, ou seja ainda, a experiência da doença. «O consolo das humanidades» reside, pois, no facto de elas oferecerem, segundo Lobo Antunes, «o eco mais perfeito da voz com que a doença exprime o seu sentir». O autor fornece então uma série de escritores da sua cabeceira, desde o omnipresente Montaigne, que voltará mais tarde a propósito da amizade; Cervantes; o Tolstoi de «A morte de Ivan Illitch»; a Virginia Woolf de On being ill – «Estar doente» – e tantos outros, bem como os escritores portugueses Cardoso Pires e o seu próprio irmão mais velho, António Lobo Antunes, a quem são dedicados dois ensaios muito especiais acerca deste mesmo papel da experiência da doença, a qual separa o próprio médico de si mesmo enquanto prático. Voltarei a eles antes de terminar.

Torna entretanto à superfície a «pulsão autobiográfica»: «A doença convida ao exame da vida», escreve ele, e «então regressam à cena os actores esquecidos da nossa biografia». De uma forma mais ampla, explica o autor uma vez mais: «É que a narrativa da doença (…) só é bem entendida quando já se escutaram outras vozes, na ficção, na filosofia ou na poesia, que ajudam a apreender o seu sentido mais profundo (…) De facto, o encontro singular da clínica é feito de palavras mas, não raramente, também da eloquência de um silêncio igualmente revelador»», o que vai muito mais longe do que «as alíneas do currículo profissional sobre a comunicação entre médico e doente»… Foi este o «consolo» que as humanidades ofereceram ao médico Lobo Antunes, graças àquilo a que chama «as inesperadas sinapses» das humanidades, que continuam a oferecer o seu «consolo», apesar das crises profissionais recorrentes das ciências sociais e humanas.

A medicina como ciência social

Fernando Gil, falecido vai fazer dez anos, é personagem de vários ensaios e seguramente uma das suas figuras tutelares, citada por João Lobo Antunes no final do ensaio anterior pelo «socrático convívio filosófico» que manteve com ele. Ora bem, Fernando Gil não podia estar ausente do ensaio seguinte, «O Estado Social somos nós», onde o autor começa a desenvolver algumas das suas considerações de ordem pública, política nesse sentido, que decorrem da abordagem feita até aqui do imenso universo convocado pela sua profissão, desde a ciência às humanidades e desde o transcendente à experiência biográfica.

Eu próprio partilho o interesse do autor a respeito daquilo a que este chama «a medicina como ciência social», desde o welfare state até ao envelhecimento sócio-demográfico, temas por mim cruzados tanto com Fernando Gil como como João Lobo Antunes. As questões evocadas neste ensaio sobre o «estado social» darão origem, por sua vez, a uma pesquisa histórica e social do maior valor noutro ensaio, mais à frente, sobre uma questão fundamental para a compreensão global do Sistema Nacional de Saúde português passado, actual e futuro, a saber, a questão das «carreiras médicas» desde finais da década de 1950 até hoje. Quem diria que uma pessoa com actividades profissionais, culturais e políticas da maior relevância como o autor, ainda arranjaria tempo para pesquisar e analisar assuntos habitualmente entregues aos governantes do dia?!

No segundo ensaio desta secção – consagrado à bio-ética no plano internacional e nacional – o autor mantem-se não só mais informado do que a maioria daqueles que se têm dedicado ao tema em Portugal, como também concreto e prático, eminentemente atento às contradições próprias do desenvolvimento de matérias como estas, em que cada progresso aparente se desdobra em novas dúvidas, quanto mais não sejam as perplexidades enormes ditadas pela autonomia imparável dos factores científicos e tecnológicos. Servem-lhe de orientação, neste ensaio, a participação pública e o exercício da cidadania, que sabemos todavia serem muito escassos entre nós.

Uma vez mais, o pensamento de Fernando Gil não está longe quando João Lobo Antunes se vê constrangido a admitir que «as questões da bioética têm um extraordinário poder de atrair os ignorantes», em vez de os levar àquilo que ele designa, com base no exercício da medicina, «a ética do quotidiano». Poderíamos mesmo falar da ética no quotidiano, concretamente no Hospital de Santa Maria, beneficiando dessa experiência possivelmente única que é a da prática médica. É na secção seguinte do livro que se encontra o texto surpreendente de informação histórica e lucidez analítica a que me referi atrás – «O Relatório sobre as Carreiras Médicas» de 1961 – que está na origem do Sistema Nacional de Saúde actual! Vale a pena recordar que Lobo Antunes já tinha organizado, anteriormente, o ciclo de conferências da Fundação Gulbenkian intitulado «O Tempo da Vida» (Editora Principia, 2009), dedicado ao estudo do envelhecimento sócio-demográfico.

Na mesma linha das suas intervenções no campo das políticas públicas, é de assinalar a publicação, no presente volume, do seu relatório vivido por dentro sobre a recente fusão entre duas das universidades públicas de Lisboa, a chamada «Clássica» e a Técnica, transformando-as assim no maior estabelecimento de ensino superior do país. Só alguém como ele poderia escrever um documento desta natureza, concluindo sagement que «o mais difícil começava então», ao mesmo tempo que se congratula com o facto de a Universidade, com a centralidade que possui em qualquer país, ter sido capaz de iniciar a sua auto-reformar. É um documento que fica para memória futura!

Não é possível recensear todos os textos desta colectânea mas não quero deixar de assinalar as duas secções que o autor dedica, sempre aos pares, a «dois livros» e a «dois amigos». O primeiro par começa com o regresso do nosso autor ao De Profundis – valsa lenta de José Cardoso Pires, que o médico havia acompanhado durante a doença deste último e incentivado a escrever a respeito dela. Este regresso, dez anos depois, é um registo muito concreto do significado que, segundo Lobo Antunes, a narrativa da doença podia ter para a cura, antes mesmo de se falar da medicina narrativa enquanto método. Em contrapartida, reivindica-se uma vez mais de escritores como Tchekov e Simenon. O regresso à saúde é, afinal, a forma como a cura é vivida. É nisso que consiste o triunfo da medicina e foi isso que o levou a considerar o domínio biográfico como um elemento mais da narrativa médica enquanto busca da memória, ilustrando deste modo essa dialéctica entre ciência e humanidades que constitui, pois, o cerne da presente colectâna de ensaios.

O outro livro que o autor vai comentar não pode estar mais próximo dele: é a narrativa do irmão António Lobo Antunes, Sobolos rios que vão (2007), acerca da doença do romancista, médico de formação também, o que nos remete de novo para a mesma dialéctica: de profissão para profissão e da medicina para a biografia, neste caso, as dos dois autores, António e João, tecidas ambas com a delicadeza necessária para assinalar a vulnerabilidade e a orfandade da doença, nas palavras do irmão João. No final, surge com força acrescida a ideia de que «a doença, quando vence a morte, é como um regresso após uma viagem».

A amizade

Na última secção, o ensaio «Dois amigos» – oferecido ao colega Henrique Bicha Castelo – é colocado sob o signo do texto paradigmático de Montaigne, criador por assim dizer do género ensaístico de registo pessoal, sobre a amizade que o escritor quinhentista dedicava a Étienne de la Boëtie. Como se de uma «carta íntima lida em público» se tratasse, – a expressão é de João Lobo Antunes, – este percorre a bibliografia clássica do tema, que a exemplo de Aristóteles já qualificava a «amizade perfeita» como um «estado entre iguais» na alegria como na tristeza e na mútua dádiva sem benefícios; para Aristóteles, a amizade era em suma uma «virtude».

E assim chega João Lobo Antunes ao paradigma de Montaigne, o qual, perante a morte de La Boëtie, respondia: «Si on me presse de dire pourquoi je l’aimais… Je réponds: parce que c’était lui; parce que c’était moi»! Pelo meu lado, evoco a mensagem pretendidamente científica de Goethe, então moderna (1809), com as suas «Amizades Electivas», as quais não deixam de se projectar, a seu modo, no ideal dos «grupos de afinidade» caro dos primeiros anarquistas, mas presumivelmente nunca ou raramente atingido, uma espécie de «self-selected groups» que seriam como que uma versão optimista da «guilda profissional»…

O último ensaio, também sob a égide da amizade, é dedicado ao nosso amigo comum Fernando Gil. Serei muito breve, não só porque o espaço falta mas também porque tenho receio de ser assaltado pelas memórias. Se há pouco procurava definições para a amizade, encontrei porventura a melhor de todas, a mais óbvia, quando o João relata que o Fernando, que vivia então em Paris, se lhe perguntavam acerca do que havia falado com ele numa das suas estadias em Lisboa, respondia: «Sobre nada de especial»!

«Nada de especial» e, todavia, é desse fio ininterrupto, mesmo quando espaçado no tempo, que é feita uma amizade. «Nada de especial», que o mesmo é dizer: «De tudo um pouco». Tanto mais que, segundo o João Lobo Antunes tão bem observou, «tudo tinha, no entanto, um sentido preciso e uma reticência quase ascética». Só talvez agora, retrospectivamente, eu me apercebi desse extraordinário traço reticente que o nosso comum amigo tinha e que, de algum modo, selava também para mim, o facto insofismável de que a amizade não nos impedia, talvez o contrário, de sermos «seus discípulos». João Lobo Antunes escreve com efeito: «Reclamo-me seu discípulo e isso significa… que ele induziu em mim uma mutação intelectual decisiva… No meu caso, o vírus continha apenas a sua palavra de eleição: “ver claro”». Ver claro significaria então outra forma de dizer: «Ouvir com outros olhos» – eis a súmula de um precioso conjunto de estudos!

Manuel Villaverde Cabral é sociólogo, Investigador-Coordenador Jubilado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e colunista do Observador. Este texto desenvolver a apresentação que o autor fez do livro de João Lobo Antunes em Novembro de 2015.

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