Não existem pés redondos, triangulares ou retangulares. Pés são pés, e se alguém brinca às analogias para ligar esta parte do corpo a formas geométricas, isso não costuma ser bom sinal. Muito menos se, numa conversa, puxar do quadrado para falar de um jogador cujo trabalho é fazer coisas boas com uma bola redonda. Houve uma altura em que folhear os jornais, desbravar os textos dos sites desportivos ou ouvir adeptos e comentadores falaram de si não tinha nada de agradável para este avançado. Conseguia dificultar golos fáceis, falhava remates que os adeptos imaginavam os avós a acertarem. “Perdia muitos golos. Criavam bastantes situações, mas ainda não era hábil em frente à baliza”, reconheceu, tristonho, sobre a altura em que diziam que tinha “os pés quadrados”.

Até o treinador, mais para tornar as críticas em brincadeira, lhe atirava essa boca. Vincent Aboubakar aguentou, não deixou que o psicológico lhe pregasse partidas, e foi-se fazendo forte. Confiou nele próprio, como o fez quando, esperançoso, tentou misturar três coisas num só toque na bola — uma receção orientada, um drible para bater o defesa, uma oportunidade de golo. Arriscou. Imaginou-se a fazer tudo e conseguiu ter as três coisas quando o Estádio da Luz contava o 64.º minuto do clássico em que a sua equipa queria reentrar no círculo de dois candidatos ao título onde podia caber mais um. Esse toque na bola plantou Jardel na relva e deu-lhe espaço para dar uso ao pé esquerdo.

Nem o pé nem o pontapé foram quadrados. Dali saiu o golo, o segundo do FC Porto no jogo, como um biscoito que se dá a um cão que cumpre as tarefas que lhe pedem e deixa o dono feliz da vida. O quarto de hora que se contou desde que o regresso dos balneários mostrou os dragões a fazerem quase tudo o que não tinham feito na primeira parte. Montavam tabelas curtas, simplificam os dois-um e toca-e-vai, respeitando o jogador que estava de frente para a baliza. Brahimi passou a querer menos uma bola só para si e deixou que a equipa a fizesse chegar mais vezes aos “pés quadrados” de um camaronês. Quase uma hora depois, Aboubakar já tocava na bola.

Não lhe dava toques frutíferos desde que, logo no arranque do clássico, desmontara Lindelöf numa finta em ziguezague que André Almeida resolveria no segundo seguinte. Passara a primeira parte encolhido entre o sueco e Jardel, limitado a saltar a bolas que o ar lhe despejava. Os dragões procuravam mais a Brahimi, que a surpresa de Peseiro manteve perto de si até ao intervalo num 4-4-2 que serviu mais ao Benfica que ao FC Porto. Os encarnados queriam atacar rápido e com muitos homens a correrem de fora para o centro do campo. Abusavam de Pizzi, pediam o pé de Jonas, exigiam passes a Gaitán e confiavam em Mitroglou para segurar a bola e dar segundos a quem se desmarcava. Criavam jogadas bonitas e punham os adeptos a cantar.

Ou a gritar, como o avançado o fez, aos 17’, quando rematou a bola que Renato Sanches picou por cima de todos os defesas portistas. O grego de barba comprida no queixo fazia Rui Vitória pensar que, à 15.ª vez, ganharia um jogo ao FC Porto. Os encarnados atacavam melhor, mas passaram a defender pior. Renato passou a colar-se a Samaris em vez de se preocupar com o espaço que o grego não alcançava e os dragões passaram a ter relva para rodarem a bola de um lado do campo para o outro. O miúdo da Musgueira não estava perto de Herrera quando o mexicano pediu a outro uma tabela — quando Layún lhe devolveu a bola, na esquerda, Pizzi já vinha tarde para evitar que o capitão portista atirasse a bola rasteira e em jeito para a baliza. Era o empate.

Benfica vs FC Porto

Iker Casillas fez três paradas na segunda parte que valeram pontos. Foto: José Sena Goulão/Lusa

Herrera remataria mais duas vezes até ao intervalo, ambas após os dragões levarem a bola a passear pelos dois flancos, mas o cheiro a golo não veio daí. Apareceu do pé esquerdo de Jonas, cujo remate deixou Iker Casillas brilhar entre os postes, e do de Mitroglou, que parecia um defesa a cortar a bola quando não conseguiu acertá-la na baliza que estava um metro à sua frente. Ao empate que se levou para o intervalo seguiram-se os 15 minutos do FC Porto a crescer. Os pés de Aboubakar arredondaram e, depois disso, quase que o jogo acabou para os encarnados.

À medida que os minutos apertavam o desespero, Renato Sanches foi mostrando o lado negro da força de ser um miúdo. À pujança nas corridas para a frente e ao pulmão que embala uma equipa, mostrou como também pode falhar demasiados passes e cair na tentação de arriscar coisas á pressa. Jonas não se viu a não ser num remate que o corpo de Pizzi não deixou chegar à baliza e, ao sétimo clássico em Portugal, continuou sem marcar (nem ganhar). E quando o risco fez Rui Vitória atuar, o treinador preferiu tirar ao ataque quem mais lhe tinha dado até ali: encostou Gaitán a lateral esquerdo quando tirou Eliseu para, nove meses depois, devolver Salvio aos relvados (argentino lesionara-se no joelho em maio do ano passado).

Depois de sofrer o segundo golo, os encarnados só chatearem Casillas uma vez, quando o espanhol parou com as pernas a bola que Mitroglou rematou na pequena área. Foi a terceira vez em que os adeptos lhe puderam chamar San Iker: já tinha parado uma bola que Gaitán tentara desviar de si, após sprintar 70 metros num contra-ataque e, depois, ainda confiaria no instinto para impedir que Bruno Martins Indi saísse da Luz com um auto-golo na chuteira. E assim acabou por sofrer um quarto dos golos que sofrera na primeira vez que tinha entrado neste estádio, em 2010 (quando Portugal atropelou a Espanha com um 4-0).

Fez paradas que valeram pontos, os que encurtaram para três a desvantagem do FC Porto para a liderança do campeonato, que ainda é do Benfica, a meias com o Sporting, que joga no sábado (18h30, na Madeira, contra o Nacional). Os dragões ressuscitaram na luta pelo título e reentrou à força num círculo onde já só parecia haver espaço para leões e encarnados. Aboubakar arredondou-o, abriu espaço e num remate certeiro mostrou como os pés que tem já não têm nada de quadrado — este 16.º golo que marcou serviu para igualar o melhor que conseguira na carreira, com o Lorient (2013/14). O tempo dos “pés quadrados” já lá vai.

Porto's Cameroonian forward Vincent Aboubakar (L) celebrates a goal with teammate Porto's Mexican midfielder Hector Herrera during the Portuguese league football match SL Benfica vs FC Porto at the Luz stadium in Lisbon on February 12, 2016. / AFP / PATRICIA DE MELO MOREIRA (Photo credit should read PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

Os golos de Aboubakar e Herrera deram José Peseiro a primeira vitória na careira no Estádio da Luz. Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images