Manuel vive em São Paulo, mas acha que foi no Rio de Janeiro que terá sido infetado com zika. Bom, desconfia que apanhou, pois os centros de saúde públicos não têm forma de o comprovar cientificamente. Entrou em pânico, ficou nervoso por já não ter seguro de saúde e chegaram a dizer-lhe que era uma mera amigdalite… até verem as manchas no corpo. Os mosquitos, conta o português ao Observador, parecem máquinas e são agressivos como cães raivosos.

“Comecei por sentir muito cansaço e muitas dores no corpo, desde as pontas dos dedos das mãos às pontas dos dedos dos pés. Era especialmente nas pernas. Tinha também dores de cabeça intensas, parecia que a cabeça latejava”, conta. “Tive também dores de garganta, olhos vermelhos, febre ligeira, bastantes pintas vermelhas no corpo e manchas vermelhas na cara, prisão de ventre, dores de estômago, enjoo e dores atrás dos olhos. As dores no corpo eram bastante fortes. Mas era engraçado, porque parado, o corpo não doía. Apenas sentia bastantes dores ao mais pequeno movimento.”

“Do dia para a noite, as pintas aumentaram muito e comecei também a ficar com um olho vermelho. Aí percebi que talvez não fosse gripe e achei melhor ser consultado por um médico. Confesso que fiquei nervoso. Foi incrível como as pintas e os olhos começaram rapidamente a ficar vermelhos.”

O português, que desconfia ter sido infetado no fim de semana de 23 e 24 de janeiro, teve os primeiros sintomas no dia 29. “Entrei um pouco em pânico quando as manchas surgiram no corpo. Inicialmente pensei que estivesse com uma gripe. Achei estranho as dores bem intensas que senti no corpo, mas achei que fosse da gripalhada“, explica. “Só ao quarto dia consecutivo de mal-estar é que me surgiram as pintas no corpo. Do dia para a noite, as pintas aumentaram muito e comecei também a ficar com um olho vermelho. Aí percebi que talvez não fosse gripe e achei melhor ser consultado por um médico. Confesso que fiquei nervoso. Foi incrível como as pintas e os olhos começaram rapidamente a ficar vermelhos.”

O português lembra ainda que havia vários posters de recomendações nos centros de saúde, nomeadamente sobre os cuidados a ter para evitar a reprodução do mosquito. As televisões começaram a passar anúncios sobre o tema e foram organizadas formações a funcionários nas empresas. Até Dilma Rousseff, a presidente do país, admitiu que o Brasil estava a perder a guerra contra o mosquito. “As pessoas aqui no Brasil estão bastante alertadas. Trata-se de um problema extremamente grave para as grávidas. Pode ser uma geração que está em causa.”

Manuel diz ter sido sempre cuidadoso. “Com o crescente alarmismo que agora estão a passar, sempre tentei evitar ter as janelas abertas e usei bastante repelente, especialmente no tal fim de semana que estive no Rio de Janeiro. No Rio os mosquitos parecem máquinas, são muito agressivos — voam à tua volta, levam paulada e não desistem. Parecem cães raivosos a querer morder.”

“Em dois minutos tinha três enfermeiros e dois médicos à minha volta, a questionarem várias coisas para fazer um diagnóstico mais completo”

Não ter seguro de saúde deixou-o reticente. “Já o tive, mas entretanto acabou o prazo. Como estou aqui com visto de turista, restava-me apenas ir a um centro de saúde e tentar a sorte. E fiquei muito surpreendido. No centro de saúde, em São Paulo, foi tudo muito rápido e despacharam-me para um médico. Acho que o facto de ter dito que estava com sintomas de zika e de ter apresentado o passaporte português ajudou na rapidez. É turista? Então bota para a frente para não haver exportação do vírus. Acho que é isto”, considera.

O primeiro diagnóstico da médica deixou Manuel surpreendido. É que, após analisar a ficha preenchida pela enfermeira, a médica disse ao português que podia ir para casa, que se tratava apenas de uma amigdalite. Manuel ficou atónito, levantou a t-shirt e perguntou a origem das manchas. “Em dois minutos tinha três enfermeiros e dois médicos à minha volta, a questionarem várias coisas para fazer um diagnóstico mais completo. Intrigava-os o facto de eu ter dores de garganta, pois dizia-se que zika não dava essas dores. Depois a minha namorada leu num site do Governo brasileiro que os sintomas incluíam dores de garganta. A médica ainda não tinha conhecimento disso. Acho que o vírus tem tanto de novidade e mistério que todos os dias surgem coisas novas…”

— Pode ir para casa, você tem é uma amigdalite.
— Como assim, uma amigdalite!? E estas manchas?
— Caramba! Quanta pinta!…

Manuel fez depois três exames — um hemograma (confere o nível de plaquetas no sangue) e outros dois para testar rubéola e dengue. “Todos os sintomas que tinha tido eram parecidos com os de rubéola também. O primeiro deu negativo, enquanto o resultado da sorologia para dengue será conhecido apenas daqui a 35 dias”, precisa.

“Todos os sintomas que tive são iguais aos associados com zika. A dengue cria uma febre mais alta do que a que tive e zika deixa os olhos vermelhos. Apenas não tive a comichão insuportável que alguns pacientes de zika descrevem. Tive apenas uma comichão mais suave, suportável”, explica.

“Pelo que me informaram no centro de saúde, ainda não existe disponível para o grande público um exame que permita saber se o paciente tem zika. A sorologia, por enquanto, existe apenas para dengue. Mas, pelo que li, o Governo brasileiro terá em breve um exame que irá permitir rapidamente o despiste na hora.”

Na altura do Natal Manuel esteve em Lisboa e considerou gritantes a falta de informação e de conhecimento. “Falei com uma prima médica, que é uma das maiores especialistas em oncologia em Portugal, e ainda não sabia o que era zika. Ela foi ao site da OMS [Organização Mundial de Saúde] e ficou escandalizada pelo facto de não se falar de zika em Portugal. Disse-me logo que esse problema poderia colocar em causa uma geração de bebés”, conta.

“A verdade é que os meios de comunicação social aí em Portugal só começaram a falar do assunto no início de Janeiro”, continua. “Pelo que percebi, aqui no Brasil, os meios de comunicação e o Governo deixaram arrastar a coisa para não criar alarmismo. Ter os Jogos Olímpicos a chegar não é fácil. Acho que os Estados Unidos já disseram aos atletas que se quiserem não vir, não serão prejudicados.” Os Jogos Olímpicos terão lugar no Rio de Janeiro, entre 5 e 21 de agosto.

A cura passa por repouso e a ingestão de muitos líquidos. “Neste momento sinto-me bem. Mas só me comecei a sentir em pleno há cinco dias. As manchas desapareceram do meu corpo há cinco dias e o cansaço que sentia há nove dias foi desaparecendo gradualmente…”

Zika é um arbovírus, um grupo de vírus transmitidos por insectos ou aracnídeos e que, neste caso, é transmitido por mosquitos. Dentro deste grupo também se incluem vírus como dengue, chikungunya ou febre amarela. Outros arbovírus podem ser transmitidos por pulgas ou carraças. O vírus foi isolado pela primeira vez em 1947, em macacos-rhesus (Macaca mulatta), na floresta Zika do Uganda. Um ano depois foi encontrado em mosquitos Aedes africanus na mesma floresta e no início dos anos 1950 em humanos. Veja aqui o Explicador do Observador sobre o vírus.