Gastos recorde em transferências prometem elevar a Superliga chinesa de futebol ao rubro, refletindo a ambição de Pequim para a modalidade, mas profissionais do setor alertam que o escasso investimento na formação poderá comprometer metas nacionais.

No total, as 16 equipas que disputam a prova máxima do futebol chinês investiram esta época, até à data, 258,9 milhões de euros na contratação de jogadores estrangeiros, mais 67% do que gastaram na temporada interior.

Neste campo, a Superliga chinesa, cuja janela de transferências fecha a 26 de fevereiro – quase um mês depois dos principais mercados europeus – superou todas as expectativas.

“Está a ser surreal”, comenta em Pequim o empresário de futebol Pedro Neto. “Pensava que ia acontecer passo a passo, e não um ‘boom’ como este ano”, diz.

Natural do Porto, o empresário de 35 anos começou a negociar a transferência de jogadores e treinadores da Europa para o ‘gigante’ asiático em 2011.

“Nessa altura, era quase impossível convencer um jogador a vir para a China. Hoje, é ao contrário: é preciso convencer os clubes, porque jogadores a querer vir não faltam”, ilustra.

No início do mês, Alex Teixeira, internacional brasileiro nos escalões mais jovens, disse adeus ao Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, e foi contratado pelo Jiangsu Suning por 50 milhões de euros, protagonizando a mais cara transferência de sempre na China.

O negócio deu-se dois dias após o Guangzhou Evergrande, o atual campeão, ter estabelecido um recorde que durou pouco, ao pagar 42 milhões de euros ao Atlético de Madrid pelo colombiano Jackson Martínez, ex-avançado do FC Porto.

Para Pedro Neto, que já fez 36 viagens à China, a recente vaga de estrelas a rumar a oriente não se deve apenas aos salários milionários: “Eles sabem que os ‘flashes’ começam a estar nesta liga”.

Outros craques a assinar por clubes chineses incluem o internacional brasileiro Ramires, que já passou pelo Benfica, o costa-marfinense Gervinho, o camaronês Stephane Mbia ou o colombiano Fredy Guarín, que representou o FC Porto.

A entrada de grandes grupos chineses, privados e estatais, no futebol coincide com o desejo do governo chinês de converter o país numa potência futebolística à altura do seu poder económico e militar.

O presidente chinês, Xi Jinping, assumiu já o desejo de ver o país qualificar-se para a fase final do Mundial, organizar um Mundial e um dia vencê-lo.

Profissionais do setor alertam, no entanto, para a importância em edificar as bases primeiro.

“A curto prazo, a contratação de treinadores e jogadores do mais alto nível terá vantagens, mas é importante que durante este período os esforços se concentrem na formação”, diz Yu Genwei, antigo internacional chinês.

Yu entrou para a história do futebol chinês ao marcar o golo que apurou a China para a sua única participação num Mundial, a edição de 2002, disputada na Coreia do Sul e no Japão.

Hoje, olha apreensivo para o desenvolvimento da modalidade no país: “O nosso sistema de formação é ainda muito atrasado (…), há clubes que nem sequer têm camadas jovens”.

O técnico português Joaquim Preto, que dirige a academia Luís Figo, constatou o mesmo fenómeno, afirmando que “a pirâmide do futebol na China está totalmente invertida”.

Lançada em Pequim na primavera de 2014, a academia com o nome do antigo capitão da seleção de Portugal está já implantada em 14 cidades chinesas e emprega 60 treinadores portugueses.

Entretanto, o Benfica abriu no ano passado a sua primeira academia de futebol no país e o Sporting anunciou a construção de outras 20 até 2018.