É uma espécie de namorados envergonhados ou, então, nas palavras de um alto dirigente socialista, um casamento moderno “porque a malta é de esquerda”. PS, PCP e BE enamoraram-se ao ponto de assinar papéis mas não são muito românticos em público. Quer ver? Jerónimo de Sousa só faz votos de “seriedade e sinceridade”, Heloísa Apolónia reforça as “convergências” entre os partidos e Catarina Martins só diz que “estava mais do que na hora”…

Quase ficamos com a dúvida se é apenas um casamento de conveniência.

“Não é um acordo para fotografia, mas assente em compromisso para fazer aquilo que é necessário”. O casamento não era somente para tirar uma fotografia, emoldurar e pendurar na parede. António Costa, citado pela TVI24, esclareceu logo isso no dia da assinatura, focando que a base do compromisso era fazer o “necessário”. E, a bem da verdade, mal houve registo fotográfico da assinatura dos papéis, uma singela foto para cada acordo.

Mas não foi paixão à primeira vista. Afinal, já vem bem detrás.

“Estamos a fazer o que nunca foi feito… e ainda bem. Estava mais do que na hora”. Foi assim que Catarina Martins, porta-voz do Bloco de Esquerda, se referiu ao compromisso assumido com os socialistas, durante a discussão do programa de Governo PSD/CDS, que resultou na aprovação da moção de rejeição. Catarina Martins comentava o feito que os compromissos da esquerda representaram na história da política portuguesa, com 40 anos de divergências aplacados. Mais ou menos na mesma linha de Costa. Ainda durante as negociações, o agora primeiro-ministro mostrava-se satisfeito com os 40 anos que ficaram para trás, e que permitiram o casamento moderno. Focou, por isso, a importância de “ter sido possível derrubar um muro de 40 anos”.

Mas é, por isso mesmo, um compromisso tímido. Foram muitos anos de separação.

Jerónimo de Sousa não fala em casamentos, namoricos, nem em divórcios, mas, mesmo assim, fez os seus votos, citou o Público: “Seriedade e sinceridade”, quer se fale da “convergência” com o PS, quer se fale nas afirmações das diferenças com o partido que formou Governo. E foram as “convergências” com o PS e os restantes partidos dos acordos que Heloísa Apolónia, deputada do PEV, destacou aquando da discussão do programa de Governo socialista. Um momento em que também aproveitou para referir que a ilegitimidade dos compromissos celebrados à esquerda só podia ser fundamentada no “medo” dos partidos à direita, citou o Público.

E, atenção, ainda não estava nada assinado quando António Costa se prestou a colocar todos os pontos nos ‘is’.

“No dia em que qualquer um deles sentir a necessidade de apresentar moções de censura, é no mesmo dia em que qualquer um de nós mete os papéis de divórcio. Nesse dia o casamento acabou, nesse dia o Governo acabou”. Esta foi a declaração de António Costa, citado pela TVI 24, após a moção de rejeição aprovada pela esquerda, e que provocou a queda do Governo de Passos Coelho. Acordos assinados, casamento celebrado, mas Costa disse logo que se houvesse necessidade de moções de censura por parte dos partidos que apoiariam um Governo de esquerda, então era porque o divórcio era certo.

Sobre este casamento, que foi celebrado à porta fechada, um alto dirigente socialista afirmou que foi assim, um casamento moderno, porque, afinal, “a malta é de esquerda”.

Mas há regras universais. “O que permite esta solução é a capacidade que cada um teve de, respeitando diferenças, partilhar”. Para António Costa, citado pela TVI24, foi esta a base dos compromissos que assumiu com a esquerda.

E esta não foi daquelas uniões que se fazem à escondida das famílias. Não foi um compromisso ilegítimo, pelo contrário…

A “legitimidade” do compromisso da esquerda política foi um dos pontos destacados pelo primeiro-ministro na cerimónia de tomada de posse, no Palácio da Ajuda. “Que não fique a mínima dúvida: este é um Governo confiante no projeto e na maioria parlamentar que lhe confiou apoio e lhe confere legitimidade”, focou António Costa, via Expresso. Uma relação política que, ainda assim, surgiu num “tempo de muitas incertezas e de enormes desafios”.

Mas antes de tudo isto, já António Costa tecia elogios. Depois da aprovação dos compromissos pela Comissão Nacional do PS, o primeiro-ministro fazia referência ao “sentido de responsabilidade” e ao “espírito construtivo de compromisso” do Bloco de Esquerda, Partido Comunista e d’”Os Verdes”.

E depois de 40 anos de separação, está no tempo de voltar “juntar os trapinhos”, algo que Jerónimo tinha afirmado não querer fazer há menos de dois anos. Mas Santos Silva estava convicto: “A hora é de unir, de reunir, re-unir o que foi divido”, declarou Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, citado pelo Público durante a votação do seu programa.

E há sempre as trocas de elogios. O líder da bancada bloquista, Pedro Filipe Soares, congratulou António Costa pela mensagem de Natal que transmitiu aos portugueses, que representava um “novo ciclo” para o país. “Este é o primeiro Natal dos últimos anos em que, na sua intervenção, o primeiro-ministro [António Costa] refere a Constituição da República Portuguesa e coloca o próximo ano não como um ano de austeridade, de empobrecimento, de degradação dos serviços públicos, mas um ano de recuperação da economia, de luta pela igualdade e pelos direitos, e isso parece-nos muito positivo e assinalamo-lo como sendo, de facto, um novo ciclo que se abre no paíscitou a TVI24, via Lusa.

Jerónimo de Sousa é menos esfuziante mas muito comprometido. Durante a discussão do programa de Governo de António Costa, garantiu que estavam “reunidas as condições” para que o Governo sustentar “uma política duradoura” na legislatura.

São quatro anos, não estamos a fazer reservas mentais, tudo faremos para que exista essa solução duradoura”, afirmou Jerónimo de Sousa, aquando da aprovação do acordo pelo Comité Central, citado pelo Correio da Manhã.

*Editado por Helena Pereira