Não há meias palavras para os países europeus na gestão da crise dos refugiados, António Guterres volta à carga: faltou solidariedade. E a crítica do ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados à Europa não fica por este capítulo, já que Guterres acredita que esta “enorme falta de solidariedade” também “se revela em outra dimensões da vida europeia”.

Quanto à chave para o problema, Guterres foi dizendo aos deputados da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros – onde foi ontem ouvido – que não há só uma. Mas coloca grande peso na necessidade da união política da União Europeia. “Eu sou um federalista, continuo a achar que não há solução para estes problemas sem unidade política na Europa”, afirmou em resposta a uma série de perguntas do deputado do BE Pedro Filipe Soares.

Guterres foi chamado à comissão parlamentar pelo PSD para falar de migrações e refugiados, numa altura em que prepara a candidatura a secretário-geral da ONU. Um tema que não passou à margem da audição, com os maiores partidos a declararem apoio, mas era como especialista no tema humanitário do momento que o ex-primeiro-ministro português ali estava para somar às soluções para esta crise a “pedagogia” para “o respeito pela diversidade, que é uma riqueza, mas exige grande investimento económico, político e social”, frisou.

Foi neste ponto que deixou um rasgado elogio a Portugal. “É muito reconfortante ser português neste momento, porque nenhum dos senhores deputados foi eleito com um discurso populista em relação aos imigrantes, aos estrangeiros ou refugiados. É reconfortante ser português nesta Europa”, concluiu o ex-primeiro-ministro.

Mas o maior desafio da resposta à crise dos refugiados passa, no entender de Guterres, pela capacidade de pacificar os países de origem. E nesse ponto, os interesses estão longe de se concertarem. Aos deputados, o ex-alto comissário deu a Síria como exemplo: “Estou convencido que se os sírios discutirem entre si dificilmente chegarão acordo, mas a guerra continuará se um conjunto de países continuar a apoiar militarmente e financeiramente países como este”. Por isso, acredita que é preciso “convencer” EUA, Rússia, Arábia Saudita, Turquia “que esta é uma guerra que ninguém ganha, temos todos a perder” e é a esse propósito que defende a existência de “medianeiros imparciais que sejam capazes de ter um poder de convocaria para resolver problemas”.

Feito o diagnóstico e identificados os caminhos por onde têm de passar as soluções, Guterres também afirmou não ter “ilusões de que não vai haver imediatamente a reforma que todos gostariam”. E, questionado pela deputada do PSD sobre as prioridades do caminho que pretende seguir, no topo da ONU, coloca à cabeça a necessidade de um “impulso na diplomacia para a paz e a capacidade de federar os que são parte na resolução de conflitos”. Cruzam-se as exigências do que cargo que deixou e do que quer assumir.