Tropas do governo do Sudão do Sul participaram num possível “crime de guerra”, matando, pelo menos, 18 civis dentro de um campo das Nações Unidas, disseram habitantes, rebeldes e fontes humanitárias à agência France Presse.

Mais de 70 pessoas ficaram feridas nos confrontos de quarta-feira para quinta-feira no campo da ONU na cidade de Malakal (nordeste), próximo de uma base da organização, informaram os Médicos Sem Fronteiras, com dois dos seus funcionários entre os 18 mortos.

O campo acolhe 47.700 pessoas em fuga da guerra civil no Sudão do Sul, que começou no final de 2013. Pelo menos 26.000 daqueles deslocados fugiram do campo depois do ataque, disse em Genebra Andreas Needham, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

A Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) atribui os confrontos a tribos rivais dentro do campo — “entre jovens shilluk e dinka” — considerando que “tal ataque contra civis e instalações da ONU pode constituir um crime de guerra”.

Jacob Nhial, que vive no campo, contou que tropas do governo com uniformes do Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA) “disparavam contra civis”, enquanto combates decorriam no campo.

Comunicações internas da ONU também referem que soldados do SPLA participaram no ataque.

O porta-voz do SPLA Marko Mayol disse não ter qualquer informação sobre os relatos de que as tropas governamentais tinham estado envolvidas.

Um setor inteiro do campo foi arrasado e hoje de manhã ainda se ouviam disparos esporádicos, disseram funcionários de organizações humanitárias.

Perto de 200.000 civis buscaram refúgio nas bases da ONU em todo o país desde que começou a guerra civil em dezembro de 2013, quando o presidente Salva Kiir acusou o seu antigo vice-presidente Riek Machar de planear um golpe, desencadeando combates no seio das forças armadas, minadas por conflitos políticos e étnicos alimentados pela rivalidade entre os dois.

No total, mais de 2,3 milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas e dezenas de milhares morreram nos dois anos de guerra civil, encontrando-se o país numa situação humanitária catastrófica, com 2,8 milhões (quase um quarto da população) a precisarem de ajuda alimentar de emergência.