Pela primeira vez nos últimos meses, o líder do Ciudadanos (partido de centro-direita espanhol) admitiu a possibilidade de entrar num governo em coligação com o PSOE (socialistas espanhóis). Em declarações à rádio espanhola Cadena Ser, Albert Rivera explicou que o seu partido quer “um pacto de governo com o PSOE para toda a legislatura” e que “não descarta entrar no governo”.

O líder do Ciudadanos, contudo, colocou pressão no PP de Mariano Rajoy: para o acordo ser possível, os “populares” têm de “permitir [a formação de um] governo estável”, viabilizando um eventual governo a dois (entre PSOE e Ciudadanos) através da abstenção. Caso contrário, o PP “terá de explicar, no caso de haver um acordo [de governo] mais ou menos razoável, porque é que prefere novas eleições ou que o PSOE governe com o Podemos”.

As declarações mostram um PP cada vez mais isolado, já que, se até aqui Albert Rivera e o seu partido defendiam um acordo de governo a três (PSOE, PP e Ciudadanos), agora não há ninguém a defender a inclusão do partido de Rajoy, a força política mais votada nas últimas eleições, num eventual governo, à exceção dos próprios. A razão? Os vários casos de corrupção que têm afetado o partido, como explicou o assessor de comunicação do Ciudadanos, Fernando de Páramo (“Não vamos contar com um PP apodrecido pela corrupção”) e o próprio Rivera:

Não penso contar com um partido político que é incapaz de se limpar [dos recentes casos de corrupção] para governar.

Negociações à esquerda e à direita

As declarações foram prestadas no mesmo dia em que Pedro Sánchez, líder dos socialistas, e Albert Rivera se reuniram no Congresso (a Assembleia do país). O encontro enquadrou-se na estratégia que tem sido seguida pelo PSOE, que tem defendido o diálogo com todas as forças políticas, à exceção do PP e dos partidos independentistas, para um acordo de investidura.

Uma estratégia que tem esbarrado na posição do Podemos e do Ciudadanos: os socialistas precisam de ambos para formar governo mas, apesar de Ciudadanos e Podemos se mostrarem disponíveis para negociar os socialistas, continuam a rejeitar um acordo que inclua as três forças políticas.

É esse equilíbrio difícil de forças que Pedro Sánchez tem tentado alcançar nos últimos dias. Só esta quinta-feira, para além de se ter reunido com Rivera (o El Español chamou-lhe mesmo “uma reunião secreta”), juntou-se ao Podemos, Esquerda Unida e Compromisso, numa negociação a quatro e apenas com partidos de esquerda, que durou cinco horas.

Da reunião não saiu fumo branco: como explicou Alberto Garzón, líder da Esquerda Unida, as quatro forças ainda não chegaram a acordo quanto a um programa de governo, o que seria essencial para passar à fase seguinte: a negociação quanto à composição de governo. Aí, a pretensão de Pedro Sánchez parece ser formar um governo minoritário, apoiado no parlamento pelos restantes partidos (Ciudadanos e Podemos à cabeça), mas o Podemos mantém-se inflexível e quer coligar-se aos socialistas, tendo já reclamado para si vários ministérios.

Texto editado por Pedro Esteves.