Educação

Filhos de pais pobres têm maus resultados? Nem sempre

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O contexto socioeconómico dos pais influencia as notas dos filhos, mas escolas e professores dinâmicos podem alterar o "destino" dos alunos, conclui estudo do Ministério da Educação.

José Goulao/LUSA

Autor
  • Marlene Carriço

Está genericamente comprovado, através de vários estudos, que o contexto socioeconómico das famílias influencia o sucesso escolar dos alunos. E esta ideia tem sido passada e aceite ao longo dos últimos anos. Mas agora um estudo levado a cabo pelo próprio Ministério da Educação conclui que há outros fatores a influenciar os resultados dos alunos, reforçando a necessidade de centrar as atenções nas escolas e nos métodos de ensino.

A Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC) confirma, através do estudo “Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares”, que “há uma relação muito forte entre o desempenho escolar dos alunos e o meio socioeconómico dos seus agregados familiares” a nível nacional, na medida em que os alunos oriundos de famílias de baixos rendimentos apresentam taxas de sucesso mais baixas.

Um exemplo: entre os alunos cujas mães têm uma licenciatura ou bacharelato, a percentagem de percursos de sucesso (positiva nas provas finais de português e matemática e zero chumbos nos 7.º e 8.º anos) no 3.º ciclo é de 71%, uma percentagem que cai para os 19% entre os alunos cujas mães têm habilitações baixas, equivalente ao 4.º ano.

Já entre os alunos que não recebem qualquer apoio de ação social escolar a percentagem de sucesso é de 49%, enquanto que entre os alunos com maiores necessidades (escalão A) a percentagem de sucesso cai para os 20%.

Diferenças socioeconómicas com impactos diferentes no sucesso dos alunos consoante o distrito

Mas se é certo que a nível nacional esta relação se verifica, a DGEEC — neste estudo que relaciona os resultados escolares dos alunos do 3.º ciclo (9.º ano) do ensino público com as qualificações académicas das mães dos alunos e com o nível socioeconómico dos agregados familiares –, descendo na análise ao nível dos distritos, chega a uma outra conclusão que, embora não invalide a anterior, introduz uma nuance nesta avaliação que é feita ao desempenho dos alunos.

As estatísticas apresentadas no estudo sugerem que o nível socioeconómico não equivale a destino, ou seja, não determina de forma inapelável o desempenho escolar dos alunos.”

“Prova disso é o facto de os alunos de certas regiões do país com indicadores socioeconómicos desfavoráveis, como Braga ou Viseu, terem, não obstante, indicadores de desempenho no 3.º ciclo francamente superiores à média nacional”, lê-se no estudo.

Essa realidade é “especialmente notável” quando se olha para o distrito de Setúbal que é “um dos distritos do país onde o nível de escolaridade das mães é mais alto”, mas onde só 32% dos alunos constroem um percurso de sucesso, abaixo da média nacional. E Setúbal não é caso único, demonstrando “a manifesta baixa correlação, ao nível dos distritos, entre o desempenho escolar dos alunos e o nível de habilitação das mães”.

Neste estudo, comparam-se os distritos de Braga e Beja e os autores concluem que os alunos de Braga cujas mães têm apenas o 6.º ano têm desempenhos escolares melhores do que os alunos de Beja cujas mães têm o equivalente ao 12.º ano, por exemplo.

Ao contrário do que seria de esperar, os distritos onde as mães têm habilitações médias mais baixas apresentam quase todos taxas de percursos de sucesso no 3.º ciclo relativamente elevadas e, inclusivamente, superiores à média nacional. São todos no norte do País.”

Distritos com mais alunos com apoio social apresentam resultados acima da média

Se ao invés de olharmos para as habilitações das mães e nos focarmos nos apoios sociais escolares, a conclusão não difere muito. “Os distritos do país onde mais alunos recebem apoio social escolar, portanto os distritos onde o nível económico dos agregados familiares é mais baixo, são distritos onde a taxa de percursos de sucesso no 3.º ciclo é relativamente alta face à média de Portugal Continental, regra geral”, escreve a DGEEC.

Por exemplo: Setúbal e Coimbra têm ambos apenas 34% dos alunos com apoio social escolar, mas Coimbra regista uma percentagem muito mais elevada de alunos com um percurso de sucesso escolar do que Setúbal.

E esta conclusão mostra que “existem portanto outros fatores importantes em jogo, além do nível socioeconómico, fatores que importa investigar localmente e de forma mais aprofundada”.

Dinamismo das escolas e dos professores são peças-chave para o sucesso

Segundo o estudo da DGEEC, existem outros fatores “igualmente importantes” que “podem compensar e até superar os efeitos do nível socioeconómico no distrito”. Entre esses fatores, destaque para “o dinamismo das escolas e dos seus professores”, para o “grau de importância atribuído ao ensino das crianças e ao trabalho escolar na cultura da região”, que não é possível contudo medir de forma direta ou explícita.

Em comunicado enviado às redações, o Ministério de Tiago Brandão Rodrigues diz mesmo que “este estudo reforça a necessidade de colocar o foco na melhoria das aprendizagens e na inovação pedagógica como estratégia para a melhoria dos resultados, suportada pelo facto de ser possível inverter tendências preditas pelos baixos rendimentos”.

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João Pires da Cruz
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