O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados António Guterres recolheu esta quinta-feira na Assembleia da República o elogio inequívoco do Bloco de Esquerda, mas não conseguiu obter do PCP o mesmo apoio.

Depois de uma hora de reunião com Catarina Martins e José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, António Guterres falou aos jornalistas vincando o quanto é importante “o contributo e as ideias de todos” e que por isso foi com “o maior interesse” que ouviu as posições e preocupações do Bloco de Esquerda.

Catarina Martins defendeu, por sua vez, que o apoio do Bloco de Esquerda à candidatura de António Guterres foi a decisão mais “acertada”. “[Esta] é uma candidatura muito forte“, sublinhou a coordenadora do BE, lembrando o mandato “muito positivo” do ex-primeiro-ministro à frente da ACNUR.

Ora, uma altura em que “as questões dos direitos humanos” e as questões que envolvem as “populações em fuga – seja em fuga das guerras, seja em fuga das secas e dos desastres naturais” – assumem uma grande centralidade, a candidatura de António Guterres não poderia ser mais “importante”, reiterou a bloquista.

António Guterres, que já tem o apoio do PS, PSD, CDS-PP e agora do Bloco de Esquerda, falou ainda de contactos que está a ter com o líder do PCP, Jerónimo de Sousa. Uma das conversas terá sido esta manhã, mas ainda não terá saído fumo branco, apesar de se dizer encorajado.

“Estive esta manhã reunido com Jerónimo de Sousa temos mantido um debate muito interessante e importante, não há da minha parte nenhuma lógica de discriminação, todas as forças politicas são muito importantes para discutir o futuro do mundo”, disse.

Contactado pelo Observador, o PCP, através do gabinete de imprensa, confirmou a reunião com Jerónimo, considerando-a um “encontro construtivo”, mas não faz quaisquer elogios ao ex-primeiro-ministro.

O secretário-geral do PCP teve ocasião de expressar a António Guterres o que consideramos fundamental ver assegurado a partir do exercício do cargo do Secretário-geral das Nações Unidas, nomeadamente, o respeito pela Carta da Nações Unidas e pela afirmação do direito internacional, e por uma contribuição determinada em defesa da paz e da cooperação, pela promoção do desenvolvimento económico e social no respeito pelos direitos dos povos e da soberania e da independência dos Estados – ou seja dos princípios igualmente consagrados na Constituição República Portuguesa”, diz o PCP.

Na Assembleia da República, o antigo primeiro-ministro socialista elogiou o consenso muito alargado que existe em Portugal no sentido de evitar culpar estrangeiros, imigrantes e refugiados pelos problemas domésticos, algo que “infelizmente se tem generalizado em muitos outros países”.

“Nós não temos, no nosso país, partidos políticos representados na Assembleia da República que tenham sido eleitos com base em discursos xenófobos ou racista. Somos um país onde a xenofobia não dá votos e onde as forças politicas têm, todas elas, reconhecido a importância de, na Europa e no mundo, termos consciência que as sociedades são multiétnicas, multirreligiosas, multiculturais”, disse.

A terminar, e desafiada a comentar o facto de a Moody’s der dado nota positiva ao Orçamento do Estado para 2016, Catarina Martins preferiu não fazê-lo. “Nós nunca valorizamos muito a posição da Moody’s e nem este é o momento [para comentar], nem esta é uma referência para o Bloco de Esquerda”, atirou a coordenadora do Bloco.