Alberto João Jardim está tão magoado com o PSD de Passos Coelho que confessa que não votou no partido que ajudou a fundar nas últimas eleições legislativas. O ex-presidente do Governo Regional da Madeira, em grande entrevista ao jornal i (ver edição impressa), culpa o líder dos sociais-democratas pelo Estado do partido e pela vitória do PS e diz que se Passos voltar a ser candidato a primeiro-ministro vai “levar um banho”.

“Votei sempre no PSD menos nas últimas eleições legislativas, mas não votei noutro partido”, conta, ao passo que diz que lhe “custou”. “Magoou cá dentro”, sintetiza. Mas o caminho até ao voto nulo ou em branco já leva vários anos. Conta que começou a sentir “resistência” à “frente do PSD desde que o Passos Coelho assumiu a presidência do PSD”, mas também conta que a ligação ao partido sempre foi muito mais instrumental e por necessidade do que por vontade. Até em termos ideológicos, Jardim diz estar mais afastado: “Hoje sinto-me mais à esquerda que o PSD”, diz. Contudo, mais tarde, faz juras ideológicas: “Tenho a impressão que sou o último Sá-Carneirista vivo”.

Alberto João Jardim tem dúvidas sobre a solução de Governo de António Costa, mas não tem dúvidas do que a causou. Na entrevista ao i defende que a solução de governo minoritário com o apoio do PS “é perfeitamente legítima” e que Passos Coelho foi o culpado pela sua existência:

“Esta solução aparece porque o Governo do senhor Passos Coelho não teve sensibilidade social e causou repúdio nas pessoas. A culpa de hoje haver um Governo socialista minoritário com o apoio dos partidos radicais de esquerda e da governação do senhor Passos Coelho. Eles não querem ver isso e vão recandidatar outra vez o senhor Passos Coelho, mas vão levar outro banho porque ninguém lhe vai dar uma maioria absoluta”

A sentença está dada. Para o madeirense, “o PSD não tem hipótese no futuro com o Passos Coelho. Nem com o Passos Coelho, nem com a sua corte”. O tiro ao alvo é quase sempre ao líder social-democrata a quem trata por “o Passos Coelho” ou “o senhor Passos Coelho”. Diz que o ex-primeiro-ministro “acha prestigiante andar ali debaixo das saias da Merkel” e acrescenta a comparação: “O António Costa é mais humanizado do que o Passos Coelho”.

Mas Alberto João não está seguro num Governo estável de António Costa: “Tenho muito receio destas alianças”, diz. Isto porque considera que PCP e BE são “partidos que estão na área do totalitarismo”. Mas há um mais estável que outro. Diz Alberto João Jardim que se o Governo “rebentar é por causa do Bloco de Esquerda”, que classifica de “meninos burgueses”.

Esperança no futuro do partido tem pouca. Rui Rio não é opção – “se é para ser mais um orçamentalista, vale mais ficar em casa” – e a solução poderá passar “por um novo partido”. E Alberto João, aos 73 anos, pondera criar um? “Você acha que com 73 anos ia-me meter numa coisa dessas?”.