A última aula do professor Marcelo Rebelo de Sousa terminou com uma ovação em pé. Esse foi, aliás, o único momento da aula a que os jornalistas que esperavam o Presidente eleito na Faculdade de Direito puderam assistir, já que os 50 minutos de Direito Administrativa ficaram reservados a alunos e colegas docentes. De resto, apenas os relatos dos jovens ilustram as últimas palavras de Marcelo como professor: não desperdicem as oportunidade e há mais vida para além da Faculdade.

Até pode haver mais vida, mas foi sempre à Faculdade de Direito de Lisboa que Marcelo Rebelo de Sousa regressou depois de ser diretor de jornal, ter integrado um Governo, ter sido candidato à Câmara Municipal de Lisboa e ter liderado o PSD. Ingressou no curso de Direito em 1966 e sai agora, 50 anos depois, como professor catedrático e com a tomada de posse como Presidente da República marcada já para a semana.

Segundo o antigo comentador político, esta era “uma aula de despedida” e estava com dores de garganta – uma desvantagem quando se vai falar a um auditório de 300 pessoas. Foi então dito aos jornalistas que não poderiam assistir à aula de Direito Administrativo para o 2º ano e, à porta, uma estudante do terceiro ano exclamou: “Nunca vi uma aula do Marcelo tão cheia”. Apesar de não estar completa, para além dos alunos, vários professores e antigos colegas e alunos vieram assistir à aula final do professor catedrático. Na audiência estava Pedro Lomba, antigo secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares e professor assistente na Faculdade de Direito de Lisboa.

Foi preciso assim esperar pelo fim da aula para saber o que Marcelo Rebelo de Sousa tinha para dizer aos seus alunos. Quem pensar que nesta última aula o docente pôs de lado a matéria em questão, engana-se. O Presidente eleito abriu a sua aula final a falar sobre Direito Administrativo e só depois passou para considerações mais gerais sobre a vida. “Disse-nos para aproveitarmos todas as oportunidades. Contou uma história sobre uma viagem que podia ter feito à Austrália. Não a fez e arrepende-se até hoje”, contou Madalena, aluna do 2º ano no fim da aula.

Já Salvador, colega de turma, disse que o professor tinha referido que estes anos de faculdade “são únicos e passam hiper rápido” e devem ser vividos através de outras experiências que a universidade oferece – Salvador foi depois requisitado pelas rádios para fazer uma pequena imitação de Marcelo Rebelo de Sousa, causando gargalhadas entre os alunos.

Sobre o que vai mudar na sua vida, Marcelo lamentou aos alunos a perda de privacidade e nunca mais poder conduzir, indicaram Francisco e José Maria à saída da aula. “Disse-nos que eram posições muito diferentes porque devido à perda de privacidade, ser Presidente ia ser um pouco o contrário de ser professor, pois ser professor é a expressão máxima da liberdade“, indicou Francisco. Alunos de Marcelo Rebelo de Sousa também no semestre passado, os dois colegas dizem que raramente o professor falou na sua candidatura a Belém e quando falava foi “sempre muito vago”. “Foi uma altura gira para ser aluno do professor Marcelo, mas agora também estamos entusiasmados com o novo professor”, garantiu José Maria.

No final da última aula, o Presidente da República eleito confessou-se “um bocadinho emocionado” e, perante a insistência dos jornalistas, relatou apenas ter falado aos alunos sobre “a diferença de ser professor e ser eventualmente Presidente da República”.

Marcelo, que garantiu que continuará a viver na sua casa de Cascais, revelou ainda que vai ter um segundo encontro com o primeiro-ministro, já esta quarta-feira.