Traduzido para português, Tamagotchi significa “pequeno ovo bonito”. Olhando para ele pelo retrovisor, do ponto de vista de quem cresceu nos anos 90, de facto era um ovo e era pequeno, mas nem sempre ficava bonito — tudo dependia da forma como o educávamos.

Criado há 20 anos — a última versão saiu em 2015 –, o objetivo do brinquedo era e continua a ser o mesmo: criar um animal de estimação virtual. Como? Através de três botões com os quais podemos ver quais as necessidades que devem ser satisfeitas… e satisfazê-las. É necessário alimentar o animal de estimação — havendo a possibilidade de escolher entre uma refeição e um lanche –, brincar com ele, dar-lhe banho e medicamentos, apagar a luz para o adormecer, saber que idade tem, qual o seu peso, e ainda discipliná-lo. Um funcionamento aparentemente simples mas nem por isso menos viciante.

Logo quando foi inventado, em 1996, o propósito inicial do Tamagotchi era ensinar jovens adolescentes a cuidar de uma criança. Mas o conceito generalizou-se de tal forma que essa ideia perdeu-se pelo caminho e tornou-se uma dor de cabeça para pais e professores que tinham de levar com um animal sedento por cuidados a apitar até à exaustão, tanto em casa como na escola.

Quem acha que as redes sociais são viciantes é porque nunca teve um Tamagotchi ou nunca jogou Snake num Nokia 3310.

Eu não ousava levá-lo para a escola. Talvez por isso os meus Tamagotchis morressem tanto e as únicas recordações que tenho deles limitam-se aos primeiros tempos de vida. Um Tamagotchi pode viver até 25 anos, em anos Tamagotchi, claro, onde um dia humano equivale a um ano no brinquedo. Nunca tive nenhum que morresse de velhice.

“Tiveste um Tamagotchi?”

Com a memória incompleta, falei com amigos para que me ajudassem a assinalar os 20 anos do brinquedo, disse-lhes quais as minhas experiências mais marcantes a tentar cuidar de um bicho nem sempre grato, e pedi-lhes que partilhassem comigo as suas alegrias e frustrações. Comecei com a simples pergunta: “tiveste um Tamagotchi?” e foi o que bastou. Curiosamente, quase todos tiveram e muitos deles até tiveram mais do que um.

Acho que a razão pela qual o Tamagotchi foi tão popular é porque era um brinquedo para meninos e meninas. Ou, se calhar, foi porque não havia iPads e iPhones ou, como me disse uma amiga: “para quem estava habituado a brincar com um aquário com dois paus onde tinham de se enfiar argolas, aquilo era o último grito”. Ela referia-se ao Aquaplay Argolinhas.

De tudo o que vivi com o meu, que era cor-de-rosa, e de tudo o que me disseram, selecionei aquilo que ficou das várias tentativas de cuidar e acarinhar um animal da melhor forma que podíamos e sabíamos na altura.

1. O início de vida

Era um ovo. O ovo partia-se e era um mundo de possibilidades. Era preciso alimentá-lo, brincar com ele, limpar os cocós, alimentá-lo novamente, dar banho, ir ver se os quatro corações da satisfação estavam preenchidos. Era uma demanda constante por atenção que se traduzia num apitar frenético de cinco em cinco minutos, ou menos.

2. O sono

Ou deverei dizer a paz? Se há uma imagem que tenho na cabeça até hoje são os “ZzZzZz” que saíam do Tamagotchi enquanto dormia. O alívio que era apagar a luz, após um dia de exigências infindáveis e pô-lo a dormir.

3. A disciplina

Eu nunca fui de disciplinar muito os meus. Talvez tivesse medo que eles crescessem feios e zangados (se conseguissem chegar tão longe). E o sentimento de culpa por ter ralhado com uma criatura tão pequena e inocente só porque ela tinha os corações da satisfação todos completos e estava a pedir mais comida, deixa marcas. Deve ser o que os pais sentem quando ralham com os filhos.

4. O cocó

O momento mais lembrado por todos os utilizadores de Tamagotchi. O acordar pela manhã, virar-se para a mesinha de cabeceira, agarrar no brinquedo para ver se estava tudo bem e deparar-se com um ecrã repleto de cocó digital. O desespero para tirá-lo daquela situação, a questão “como é que fui deixar isto acontecer?”, o peso na consciência. E ele furioso, mas era tarde demais.

5. As brincadeiras

A primeira versão do Tamagotchi só tinha um jogo disponível que consistia em acertar no lugar para o qual o bicho se ia virar — se errássemos ele ficava novamente zangado. Vamos ser realistas: que género de jogo é este e como é suposto sabermos para que lado ele vai virar a cabeça? O brinquedo pode ter ensinado muitas coisas a quem nasceu nos anos 80, mas a frase “perder ou ganhar é desporto” não foi uma delas.

6. Quando apitava sem razão

Às vezes o Tamagotchi apitava, simplesmente apitava. Ele estava alimentado, tinha tomado banho, não estava doente, estava ótimo. O dono tentava os ícones todos e ele abanava sempre a cabeça que não. Quantas crianças não devem ter gritado para aquele pequeno visor: “mas o que é que tu queres?”, angustiadas. Quem sabe não houve Tamagotchis atirados ao chão às custas disso.

7. A morte

O problema da atenção constante que se dava ao bichinho é que isso pressuponha apegarmo-nos. Até que ele morria. Em 1997, um artigo do The New York Times relatava casos de crianças que tinham ficado à beira de um ataque de nervos quando viram que todos os seus esforços tinham sido em vão e o animal tinha morrido. Na altura, um médico descrevia-o como “o produto mais poderoso que alguma vez existiu, em termos daquilo que exigia de uma criança”. Eu lembro-me como se fosse hoje de ver o animal a tornar-se um anjo, ganhar asas e partir (aconteceu tanta vez), mas duas amigas confessaram-me que os matavam deliberadamente. Uma porque se fartava e a outra porque gostava deles pequenos.

8. O reset

Fruto dos meus maus cuidados, o botão de reset do meu Tamagotchi estava todo enfiado para dentro. Mas, por alguma razão, eu continuava a insistir em trazer novos ovos à vida. Acho que tinha esperança de me tornar numa melhor “mãe”. Um amigo com quem falei não teve tanta sorte e só cuidou de um bichinho. Na altura, dando razão à expressão “as crianças são cruéis, os colegas disseram-lhe que se o animal de estimação morresse não havia mais nenhum, era o fim. Como não existia YouTube para ver tutoriais, ele ficou em pânico, acreditou e nunca mais brincou.

Aprender a cuidar de alguém

O brinquedo que tantas recordações deixou às crianças (e aos pais e professores das crianças) nascidas nos anos 80 e 90 foi lançado em novembro de 1996 no Japão. No ano seguinte viria a ser lançado mundialmente, vendendo 75 milhões de exemplares até 2010 — hoje existe uma aplicação para Android e iOS chamada Pou e que é semelhante ao Tamagotchi, mas não preciso de experimentá-la para saber que a mística não é, nem pode ser, a mesma.

Apesar de ser um dos maiores marcos de quem teve a sorte de crescer nos anos 90, o expoente máximo da tecnologia na altura, e de fazer as delícias de quem não tinha um animal de estimação de carne e osso, ninguém me soube dizer porque é que ele adoecia. Nem eu sei. À semelhança dos meus amigos, desconfio que fosse falta de comida, de carinho ou de sono, mas não sei precisar se um fator tinha mais preponderância do que outro.

Eu encaro o Tamagotchi como a primeira vez em que me apercebi de que tenho dificuldades em cuidar de outrem. Mas apesar da falta de jeito, com esta viagem nostálgica fui tomada por uma enorme vontade de voltar a brincar com um e, quem sabe, cuidar melhor dele desta vez. Gostava de ver a reação das pessoas no metro quando aquilo começasse a apitar e eu o tirasse do bolso para o alimentar.