O estádio era velhinho. O túnel que ligava os balneários ao relvado era estreito e apertado, inimigo dos claustrofóbicos. Os jogadores ali estavam, alinhados, à espera de o árbitro, lá na frente, dar a ordem para o seguirem e saírem dali. Mas começaram a ouvir-se uns berros lá atrás, conversa suja e a palavra começada por F a ser disparada para o ar. “Só via uns dedos a apontarem para o Gary [Neville]. Estavam a apertar com ele, passei-me. Cinco segundos antes, estava perfeitamente calmo, concentrado para o jogo”, admitiu, anos depois, Roy Keane. A tampa saltou ao irlandês do Manchester United, ao ponto de ameaçar Patrick Vieira, do Arsenal — “Vemo-nos lá dentro! Vemo-nos lá dentro!” — antes sequer de entrarem em campo.

Os adeptos em Inglaterra lembram-se bem disto. Em 2005, estava uma câmara no túnel do estádio de Highbury, em Londres, que gravou o episódio e mostrou como, por pouco, não houve pancadaria. Mas mesmo que ela tivesse aparecido, o árbitro não poderia mostrar um cartão vermelho aos dois jogadores e cortar ali o mal pela raiz. E a culpa era das leis do futebol. O homem do apito até os podia expulsar e impedir de ir a jogar, mas não lhe era permitido sacar do cartão vermelho do bolso e mostrá-lo fora do campo. Era uma espécie de contradição, que pode estar prestes a mudar — na sexta-feira, o International Football Association Board (IFAB) vai reunir em Cardiff para aprovar alterações a várias regras do futebol.

Caso este órgão, que já cá andava antes de a FIFA aparecer (foi criado em 1886), decida mudar as leis que ditam o quando, o como e o porquê dos sopros que o árbitro deve dar no apito, então casos como o de Roy Keane contra Patrick Vieira vão deixar de acontecer. Não se sabe, ao detalhe, quais são as propostas que irão a votos, mas uma delas visa alterar uma regra quanto aos cartões vermelhos antes de os jogos começarem. Esta sabe-se porque o ESPN falou com David Elleray, um ex-árbitro inglês, que foi responsável por supervisionar grande parte das alterações que estão a ser propostas e que falou de algumas ao site norte-americano.

Uma versão encurtada

Mostrar Esconder

O IFAB passou os últimos 18 meses a trabalhar no documento que compila e explica as regras do futebol. Os membros da entidade terão cortado o conteúdo, que originalmente tinha à volta de 22 mil palavras, para contar apenas cerca de 12 mil.

Já lá vão 24 anos desde a última vez que o IFAB decidiu algo que mudou o futebol a sério. Aconteceu em 1992, antes do Campeonato da Europa ganho pela Dinamarca, quando os guarda-redes deixaram de poder agarrar com as mãos uma bola passada por um jogador da mesma equipa. Até esteve perto em 2012, quando disse que sim à tecnologia de linha de baliza e deixou que fosse utilizada na Premier League inglesa e na Séria A italiana e que o venha a ser no Europeu de França. Mas além das expulsões antes de a bola começar a rolar, tem-se falado em algumas mudanças que, se forem aprovadas, poderão mudar muito o jogo. Especialmente uma.

O problema é que o IFAB não pode alterar nada sozinho. Qualquer mudança aceite pelo organismo — que é composto por um representante das federações inglesa, escocesa, norte-irlandesa e galesa, além de quatro membros apontados pela FIFA — tem depois de ser aprovada pela entidade que manda no futebol mundial. Talvez seja bom sinal, portanto, que Gianni Infantino vá sair pela primeira vez da Suíça desde que, na passada semana, foi eleito presidente da FIFA, para estar presente na reunião desta sexta-feira.

Pedir ajuda à televisão

Que é como quem diz, a um vídeo-árbitro

Os rumores sussurram que esta é a alteração que mais discussão tem causado no organismo: que o árbitro possa, durante o jogo, ser auxiliado por um vídeo-árbitro, que estará sempre à frente de uma televisão e com acesso a repetições, nas situações em que o homem do apito tenha dúvidas em golos, penáltis, faltas ou expulsões.

Quando se é visto pelo médico

Já ninguém terá que sair do campo para voltar a entrar

Quando um jogador se magoa sozinho ou após sofrer uma falta, vai deixar de ser obrigado a sair e reentrar em campo. “Sempre pareceu injusto que a equipa vítima ficasse reduzida [temporariamente] a dez jogadores, enquanto a culpada ficava a jogar com 11 contra 10”, disse David Elleray, o antigo homem do apito que, durante a carreira, expulsou Roy Keane quatro vezes.

Pontapés de saída

E o primeiro toque na bola

Há muito que a lei obriga que o primeiro toque que se dá numa bola que para no meio campo — após um golo, no início do jogo, depois do intervalo ou entre as partes de um prolongamento — seja dado para a frente. Isto deverá deixar de ser regra. Que influência terá isto, na prática? Nenhuma.

Mais uma substituição

Mas só com mais de hora e meia de jogo

Na agenda da reunião anual do IFAB também estará a aprovação de uma quarta substituição. A medida só se aplicará, contudo, em partidas que tenham mais 30 minutos de prolongamento. Apenas nesse período os treinadores serão autorizados a realizaram uma troca adicional na equipa.

Quando se tem de trocar de chuteiras

E esperar que o árbitro as veja

As leis ditam que quem tem o apito deve inspecionar o equipamento de cada jogador. Isto obrigava a que, sempre que alguém saía do campo para trocar de chuteiras, tivesse que esperar que o jogo fosse interrompido, o árbitro se mexesse e visse como estava o novo par de botas. Era muito tempo que se perdia e que uma equipa ficava a jogar com menos um. Ora, a partir de sexta-feira, se tudo correr bem, o quarto árbitro passará a poder executar esta tarefa e ser ele a autorizar o jogador a regressar ao campo.