Tradição

A maresia das algas: do areal para o laboratório

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Da apanha tradicional de sargaço nas praias do Norte à investigação científica portuguesa, as algas perdem e ganham importância. O que era tradição para uns, tornou-se inovação e desenvolvimento.

Jardel Mineiro

Autor
  • Rita Neves Costa
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A vila de Aver-o-Mar na Póvoa de Varzim ganhou fama pelos pescadores, pelas sargaceiras e pelas palavras imortalizadas da escritora Luísa DaCosta: “Cruzam-se duas traineirinhas/uma entra, em direção à Póvoa,/outra sai, rumo ao largo”. O céu está nublado, o mar não agoira temporal, mas as pingas de chuva avançam tímidas na Praia da Fragosa. Maria de Fátima, antiga sargaceira em Aver-o-Mar, carrega 66 anos, porém hoje voltou à infância. “Tinha oito anos e andava em cima daquelas pedras”, aponta para um conjunto de rochedos.

A vida na apanha do sargaço, as algas que chegam ao areal das praias, terminou há 24 anos. Maria de Fátima trabalha nos meses de verão como concessionária de um bar de praia e das respetivas barracas, contudo não esquece os tempos em que as algas eram imprescindíveis à sua subsistência. “O sargaço dava para tudo na agricultura: couves, batatas e cebolas”. A família era feita de pescadores e sargaceiras, logo não havia como fugir à sina do mar.

Tal como Maria de Fátima, muitos poveiros abandonaram o sargaço. A proliferação de fábricas no concelho, o abandono dos campos e a dureza no trabalho não adivinhavam um futuro duradouro para a apanha tradicional. Hoje, os resistentes são poucos e já nada se faz como antigamente. “Agora, anda um ou outro com carroças e tratores”, afirma a antiga sargaceira.

A cada instante, Maria de Fátima limpa com um lenço de papel os olhos lacrimejantes, seja pelo frio cortante que se sente à beira-mar ou pelas lembranças que lhe provocam risos. A graveta, o ganha-pão ou a carrela, os instrumentos tradicionais da apanha do sargaço, foram alguns dos protagonistas da sua vida enquanto sargaceira. “Uma vez, o ganha-pão [para arrastar as algas] caiu-me das costas e tive de pedir a dois senhores que estavam na praia para me ajudar”, relembra.

Não se cansa de repetir que aquela vida “era de escravo” e que não havia lugar para facilidades, sobretudo com uma avó de 85 anos que não deixava que ninguém fosse para os rochedos e o areal marcados para colocar o sargaço da família. “A minha avó era muito matreira”, afirma. O dinheiro rápido e mais valioso era obtido através da “francelha”, uma espécie de alga vermelha, da qual era possível retirar compostos para a indústria farmacêutica. “Deixávamos o sargaço de lado e íamos vender logo a dois ou três negociantes”, diz Maria de Fátima.

Sempre se soube o valor das algas para as mais variadas indústrias. No entanto, na Póvoa de Varzim, a importância permanecia no sargaço e na utilidade que tinha enquanto fertilizante dos solos. Maria de Fátima afirma que era “mulher para voltar à água”, caso o tempo voltasse atrás, para a época dos trajes típicos das sargaceiras, com as velhas saias rodadas. Aí poderia voltar novamente a dançar pela praia com a irmã e a prima, enquanto ouvia a reprimenda da avó: “Deixai de ser tolas, raparigas!”.

Mais a norte, em Esposende, a tradição da apanha de sargaço também perdeu a força do antigamente. Laurentina Torres, presidente do Grupo dos Sargaceiros da Casa do Povo da Apúlia, revela que as algas sempre se mantiveram como o fertilizante de excelência dos agricultores da vila. “Os adubos químicos eram apenas utilizados na falta do sargaço”, afirma.

Autoria Jardel Mineiro1

O presente faz-se de forma diferente: os sargaceiros carregam as “ervas marinhas” com a ajuda de tratores para as dunas ou os campos. “Fica à superfície cerca de um mês e depois é envolto na terra quando esta é lavrada”, esclarece Laurentina Torres. As noites de trabalho na praia surgem como uma solução quando a apanha fica interdita à luz do dia nos meses de verão. Durante a época balnear, muitas algas são desperdiçadas devido à proibição: entram em decomposição no areal ou o mar leva-as de volta. “Só a partir de 15 de setembro, os agricultores de Apúlia têm permissão para irem ao mar apanhar o sargaço para as suas terras”, salienta.

Não é possível “apanhar sargaço sempre que o mar dá”, no entanto a presidente da associação revela que 2015 foi um “ano extraordinário” de abundância. De acordo com a Direção-Geral das Pescas e Aquicultura (DGPA) e o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2009 estavam licenciados 15 apanhadores de algas no Norte, sendo que todos pertenciam à Capitania de Viana do Castelo. Já em 2013, a Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos e o INE apontavam a existência de 20 contribuintes de apanha de algas em Portugal.

A valorização das algas na ciência

Isabel Azevedo, Patrícia Oliveira e Diogo Silva também apanham algas, porém a aplicação dada não é a mesma que a dos agricultores e sargaceiros. Os investigadores do Ciimar (Centro Interdisciplinar De Investigação Marinha e Ambiental) da Universidade do Porto dedicam-se ao estudo de macroalgas (algas vistas a olho nu), cujo propósito é a valorização prática das mesmas em várias indústrias como a da alimentação, a cosmética e a farmacêutica. “O objetivo passa por otimizar o cultivo de uma determinada espécie e depois ver o que se pode extrair da alga”, explica Patrícia Oliveira.

No laboratório do Ciimar, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), não há uma praia para contemplar, no entanto os balões volumétricos com pequenas “pétalas” de algas deixam transparecer o cheiro a maresia. Aqui, as algas não se tratam com as mãos ou os instrumentos tradicionais da apanha do sargaço, a pinça e as luvas brancas fazem parte da indumentária.

“Brincar com os componentes” como as luzes artificiais de laboratório, permitirá obter resultados na formação de determinadas espécies de macroalgas: dotá-las de nutrientes úteis à indústria. “Os diferentes componentes da luz podem influenciar a produção de caratenóides, os pigmentos que dão cor às algas e que têm capacidades antioxidantes”, afirma Isabel Azevedo.

Desde das algas carraginófitas, de cor vermelha, onde é possível retirar espessantes ricos em açúcar para o leite de chocolate ou os gelados, e o ágar para as gelatinas e o revestimento de certos medicamentos, vários tipos de macroalgas figuram atualmente na alimentação vegetariana, japonesa e até em ração animal. “As algas estão muito na moda e são benéficas na alimentação”, salienta a investigadora.

Na Estação de Zoologia Marítima Dr. Augusto Nobre, localizada na Foz do Porto, a praia está a um passo. Diogo Silva apresenta os diversos tanques com algas, que vivem e se reproduzem segundo normas definidas em laboratório. Porém, a água em constante movimento, a luz e a temperatura têm de estar em sintonia com a realidade, caso contrário, “elas sentem que não estão no seu ambiente natural”.

O valor comercial e a ligação com o mercado são duas dimensões impossíveis de dissociar da investigação científica. Um exemplo disso é o sistema de Aquacultura Multitrófica Integrada, que consiste no cultivo de três espécies em diferentes níveis, em que cada uma aproveita os resíduos da anterior para alimento. No caso do Ciimar, três filas em cascata, cada uma com três tanques de 100 a 300 litros, estão dispostas hierarquicamente: no primeiro conjunto estão os peixes, robalos, cujos resíduos serão aproveitados pelas ostras na segunda fila; a matéria excedente dos moluscos será consumida pelas algas na última fila. O benefício de tudo isto? “Toda a biomassa gerada pode ser comercializada: os peixes, as ostras e as algas”, esclarece Diogo Silva.

Embora o investigador do Ciimar acredite que as “ervas marinhas” estão cada vez mais em voga, relembra: “Portugal podia tirar melhor partido das algas, sabemos explorar e investigar, mas geralmente os resultados são aproveitados pelo estrangeiro”.

Rita Neves Costa é aluna do Mestrado de Jornalismo da Universidade Nova de Lisboa.

Texto editado por: Rita Ferreira

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