Foi a 10 de agosto de 1992, ainda Aníbal Cavaco Silva era primeiro-ministro em pleno terceiro mandato. O verão escaldava e Cavaco estava “supostamente de férias”. Mas não estava sozinho. Além de Maria Cavaco Silva, assessor e segurança, também lá estava uma jornalista do Público e Luís Ramos, ex-editor fotográfico do mesmo jornal. Nesse dia o fotojornalista teve a oportunidade de passar “um dia inteiro” com o agora ex-Presidente da República. É essa a história que o próprio agora recorda no seu novo blogue Vida de Fotógrafo, lançado esta quarta-feira.

“Começámos por voar de Faro para Monte Real, na região de Leiria, a bordo de um avião a jato Falcon, da Força Aérea, ao serviço do Governo”, começa por contar Luís Ramos. O objetivo? Ir “a um encontro nacional de escuteiros”, refere, acrescentando que, a dada altura, “os escuteiros gritaram para Cavaco, que tinha subido para um palanque com alguns metros de altura: salta, salta”. Cavaco não saltou.

Fotografia: LUÍS RAMOS

Quando regressou ao Algarve, novamente de jato, Cavaco Silva abriu-lhe “a sua casa de Montechoro, a Vivenda Mariani”, onde “comeu iogurte junto à piscina, apanhou figos da árvore de um terreno contíguo e deu uma volta na velha ‘pasteleira’, para a fotografia”, escreve o fotógrafo.

3 fotos

Mas a aventura não se ficaria por aqui. Contaria ainda com uma ida à praia ao final da tarde. A escolhida recaiu sobre Olhos de Água. E foi Cavaco quem, “no seu próprio carro”, os terá conduzido até “à praia da sua infância”, escreve Luís Ramos. “Com Maria ao lado e os seguranças sempre vigilantes.”

Não pensem que foi uma maçada. Viajar de Falcon é o máximo e, o senhor e a sua esposa foram do mais simpático possível, mesmo. O que era difícil de acreditar, estando em presença do homem conhecido pela sua arrogância e austeridade, apelidado de cara de pau, autor da frase “deixem-me trabalhar” e a senhora que, nas bocas do establishment, não passava de uma pirosa”, escreve o fotojornalista no seu blogue.

A Luís Ramos tinha-lhe saído a sorte grande. Como fotojornalista, claro: aquele era Cavaco ao natural. E ainda hoje o jornalista questiona se o então primeiro-ministro “se esqueceu momentaneamente” da sua presença, ou se estaria a testar-lhe “a concentração”. “Uns dias após a publicação do trabalho, recebi um bilhete que me endereçou, escrito pela sua mão”, recorda Luís Ramos. “Queria dar-me os parabéns pelo meu trabalho e desejar-me felicidades”, revela. As fotografias que aqui reproduzimos fizeram parte dessa reportagem.

Luís Ramos nasceu em Lisboa e iniciou a sua carreira no jornal Expresso. A ligação profissional com o jornalismo não é tão forte como outrora, mas nunca largou a fotografia, trabalho que ainda exerce de forma independente. Tem exposto com regularidade em Portugal e no estrangeiro e, recentemente, esteve na capital alemã, Berlim, na Berliner Liste, Fair for Contemporary Art, com o projeto “Insomnia” e com exposições individuais em Bruxelas, na Casa da Cultura do Brasil com “Lapso de Tempo”, e em Faro, no Teatro das Figuras, com “Layers”.

Luís Ramos está também a preparar a exposição “São precisos dois para dançar o Tango”, um conjunto de 40 dípticos, que explora “a utilização de várias fotografias na ‘mesma imagem’, no sentido de transmitir diferentes e por vezes mais fortes emoções”. Esta exposição individual deverá inaugurar a 7 de abril, na Galeria Municipal de Arte de Almada. Quanto ao blogue que agora lançou, Luís Ramos explica que irá “continuar com uma regularidade semanal”. Na calha está já agendado um novo texto para a próxima semana. Será “uma história sobre refugiados”, avança Luís Ramos ao Observador.