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Touchdown. Este português vai jogar futebol americano a sério

Nem há três anos joga, mas um clube finlandês contratou-o. Miguel Valente terá salário, casa e transporte nos Seinäjoki Crocodiles e será o segundo português a ser profissional no futebol americano.

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Miguel Valente tem 22 anos e começou a jogar futebol americano no final de 2013 sem "nunca ter visto um jogo da NFL". Menos de três anos de treinos, jogos, ginásio e esforço, vai passar pelo menos três meses como profissional da modalidade

Vasco Estrelado

Miguel Valente tem 22 anos e começou a jogar futebol americano no final de 2013 sem "nunca ter visto um jogo da NFL". Menos de três anos de treinos, jogos, ginásio e esforço, vai passar pelo menos três meses como profissional da modalidade

Vasco Estrelado

É tempo de estar bem-disposto. Trocam-se abraços, o sorriso está fácil nas caras e a alegria é comum. Mas, chegados ao recanto do balneário, o presidente tem algo a dizer: um deles vai embora. “Epá, isto está mesmo a acontecer a um gajo, ainda por cima meu colega de equipa!”, conta Duarte Carreira, replicando a reação que viu muitos terem no sábado, a frio, mesmo à sua frente. Os jogadores Lisboa Devils acabavam de ganhar o oitavo encontro seguido da época e o presidente dizia-lhes que, no final de maio, o right guard da equipa os ia abandonar : “Ficaram muito contentes, claro, mas também incrédulos”. A história de Miguel Valente ajuda a explicar a reação.

Miguel era um rapaz do Porto a viver em Lisboa. Não era muito tu cá, tu lá com o desporto, muito menos um que implicasse jogar em equipa. Puxava pelo corpo apenas no bodyboard, dedicava-se às ondas e ao mar, até que apanhou algo nas redes sociais que o deixou a matutar. Os Lisboa Devils, que até treinavam “perto de casa”, tinham estado à caça de interessados em futebol americano. Miguel não o era — “nunca tinha visto um jogo da NFL, sequer” –, mas viu a palavra “captações” emparelhada com “futebol americano” e arriscou. Resolveu experimentar. Trocou umas mensagens com Duarte Carreira, perguntou se o clube ainda estava à procura de jogadores e a resposta quase que fazia tudo correr mal. “Já tinham fechado”, lembra.

O amadorismo prega partidas e puxar pelo futebol americano, no qual os portugueses (ainda) pouco se interessam, provoca sempre “necessidades”. Daí que, mesmo com as captações fechadas, o presidente dos Devils enviou um sms a sondar a idade, altura e peso de Miguel. Aos 19 anos, já iria a caminho dos 1,86m e 113 quilos que hoje tem e esses números deram-lhe uma hipótese. “Lembro-me perfeitamente do primeiro treino. Não sabia nada, foi estranho, mas tinha bastante vontade de aprender, apesar de não saber sequer para o que ia”, resume ao Observador, a rebentar do tipo de melancolia que puxa pelos risos, acentuados pelas memórias da “porrada” que aguentou ao início: “Levei um bocadinho, mas gostei. Por isso é que fiquei!”.

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Foto: Margarida Cautela

Aconteceu há dois anos e quatro meses. No fim de 2013 começa a aprender futebol americano e no início de 2016 fica a saber que será o segundo português a jogá-lo profissionalmente. “Nunca pensei que isto me poderia acontecer”, dispara, hoje com 22 anos, mal começa a falar com o Observador. Uma garantia que acaba desmascarada nos minutos seguintes de conversa.

Porque, no verão, Miguel Valente viu com olhos de curiosidade a chegada de Collin Franklin e Joey Bradley à equipa. Norte-americanos — o primeiro chegou a jogar, durante dois anos, na NFL –, entraram no Lisboa Devils depois de o clube os encontrar no EuroPlayers, uma espécie de rede social de jogadores que praticam futebol americano na Europa ou querem vir a praticar. “Já tinha algum bichinho por aquilo e quis sentir o que era passar pela experiência. Com a vinda deles para cá, senti que queria viver o que eles estão a viver hoje”, acaba por confessar. E Miguel fez por isso.

Criou um perfil no site, registou os dados e tratou de arranjar um vídeo que juntasse os melhores momentos que teve na linha ofensiva dos Lisboa Devils. “Com o tempo”, explica, começou a receber mensagens e a ser contactado por várias equipas estrangeiras. Chegaram-lhe perguntas da Alemanha, de França e da República Checa sobre o que pretendia fazer, os objetivos que tinha na cabeça, a vida que levava, a disponibilidade em ir jogar para fora. Nenhum contacto puxou tanto por Miguel como o que veio da Finlândia. “Os Seinäjoki Crocodiles foram os que me apresentaram a melhor proposta. E, sobretudo, deram-me o melhor tempo para poder ir. Em outras propostas teria que sair do país a meio da época e não queria isso”, explica, por estar “completamente dedicado” aos Devils e com vontade de participar na Liga dos Campeões de futebol americano — será a primeira vez que uma equipa portuguesa competirá na prova.

Welcome to Crocs, Miguel Valante!! Vihree Iskee!!http://www.crocodiles.fi/edustus-uutiset/1006/hyokkayksen-linjaan-vahvistus-miguel-valante-crocodilesiin.html

Posted by Seinäjoki Crocodiles on Tuesday, 8 March 2016

Conseguirá fazer tudo e ainda ter “algum tempo de descanso”. O combinado com a equipa finlandesa é Miguel enfiar-se num avião apenas no final de maio e, quando desembarcar, ter ordenado, casa, alimentação, ginásio, seguros e meio de transporte à espera. “Tenho o necessário para estar lá confortavelmente”, resume. E talvez melhor do que está em Lisboa, onde interrompeu a licenciatura em Direito para trocar de curso e, nos últimos tempos, estava “a ajudar” na empresa do pai. “Só não sei se vou conseguir poupar dinheiro, porque o custo de vida na Finlândia é mais caro. Mas vou tentar”, assegura, a prolongar um riso, quem arrancou muitos sorrisos a Duarte Carreira.

O presidente do Lisboa Devils ficou feliz mal soube da novidade. Duarte não sente que vai perder Miguel. Espera que apenas o vá emprestar, apesar de temer que o destinatário não o devolva. “Aqui entre nós, não sei se ele regressará já para o ano, porque tem muito potencial para permanecer lá ou ir para outras equipas europeias”, perspetiva, ao falar dos três meses de duração do contrato com os Seinäjoki Crocodiles — a época finlandesa espalha-se por apenas 12 jogos.

IMG_8502Créditos-Lisboa-Devils

Foto: Lisboa Devils

Duarte acha possível. Vê-o como bem mais certo do que prever o que fará uma bola oval quando bater no chão, embora algumas coisas tenham sempre que aparecer. “Não é que o universo se tenha que alinhar, mas também sabemos que tem de haver um conjunto de fatores para que isso se torne uma realidade. Acho que, para irem jogar para fora, têm que ser jogadores mais novos, que não sejam casados, não tenham filhos e estejam dispostos a ter uma experiência no estrangeiro. Sabemos que há dois ou três jogadores com potencial para isto”, explica, antes de defender a ideia de que este é um cenário comum às 10 equipas de futebol americano que existem em Portugal.

Miguel Valente “devia ser o vigésimo” caso destes, mas é apenas o segundo. O primeiro apareceu “há quatro ou cinco anos”, recorda-nos Duarte. Chamava-se Pedro Simões e foi jogar para a Alemanha. Mais poderão surgir e o fundador dos Devils sabe que “vários na equipa também já foram contactados”. Que é como quem diz, “já foram sondados, do género ‘estás disponível, não estás, o que procuras, para o que é que estarias disponível, e tal’”. É sempre “muito por aí”, conclui. O que hoje acontece com dois ou três pode bem vir a passar-se com dezenas, caso sigam o exemplo de quem conheceu o futebol americano há menos de três anos e “mete na cabeça que queria” viver uma experiência no estrangeiro. Como profissional: “Tornou-se completamente focado nisto. Não obcecado, mas focado. Ainda bem que isto lhe aconteceu, porque é a prova, até para os colegas, que o esforço compensa. Acaba por espicaçar os outros”.

O convite que vai levar Miguel até à Finlândia “acabará por espicaçar os outros”. Ou se calhar já espicaçou: “De certeza que, desde ontem [segunda-feira], há mais de 50% dos jogadores da equipa que passaram a ter um perfil no EuroPlayers”.

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