Era o primeiro-ministro do Japão quando, a 11 de março de 2011, um tsunami, na sequência de um terramoto, provocou o maior desastre nuclear desde Chernobil. Até esse dia defendia com unhas e dentes as centrais nucleares. Hoje, cinco anos depois, acha que devem acabar.

“Antes do dia 11 de março acreditava que o Japão nunca passaria por algo como o que aconteceu em Chernobil e vendia as vantagens das centrais nucleares japonesas a outros países. Depois de tudo aquilo, tomei consciência que perto de 50 milhões de pessoas poderiam ter sido evacuadas das suas casas. É algo que apenas acontece em situações de emergência como grandes guerras. Agora penso que todas as centrais nucleares deveriam fechar e farei tudo o que for preciso para que isso aconteça”, declarou, em entrevista ao El País, Naoto Kan.

O Japão não precisa de energia nuclear. Sobrevivemos estes cinco anos sem nenhum apagão”, reiterou o ex-primeiro-ministro.

Além de ter mudado de posição em relação às centrais nucleares, Kan não hesita em atirar culpas à companhia elétrica que geria a central, a Tepco. “Baixaram o nível da terra para aproveitar o mar. Em parte, isso permitiu que o tsunami arrasasse a central”, atira, uma semana depois de três antigos diretores da operadora da central nuclear japonesa de Fukushima terem sido formalmente acusados de não terem tomado as medidas necessárias para evitar o desastre, sendo acusados de negligência profissional. E dias depois de o presidente da empresa ter pedido desculpa.

Na altura, Naoto Kan foi muito criticado pela forma como geriu a situação e agora admite ser culpado, “mas sobretudo responsável”. E lembra que os reatores foram construídos antes de assumir o poder, pelo que considera que não deve ser o único a sentir-se responsável.

E conta o que se passou naquela noite. “Às dez da noite, a informação que recebi era que não havia água no reator e portanto não se tinha fundido. Agora sabemos que às 18h00 já tinham começado as fugas de radiação. Faltou muita comunicação.”Se houvesse mais dados, a sua reação poderia ter sido mais eficaz. “Teria usado o sistema de refrigeração, por exemplo, que estava no reator e que não precisava de eletricidade.”

O terramoto de 9 graus na escala de Richter a 140 quilómetros da costa do país, provocou um tsunami com ondas de mais de 15 metros que esteve na origem do desastre nuclear de Fukushima (em que derreteram três reatores), o maior desde 1986 (Chernobil). Perto de 19 mil pessoas morreram.

Cinco anos volvidos, o Governo japonês mantém fechada uma área com um raio de 20 quilómetros, nas redondezas da central, e não há data para que volte a ser habitada pelos respetivos povos. Responsáveis da própria Tepco dizem que a remoção total do combustível nuclear da central de Fukushima pode ainda levar 40 anos.

Perto de 100 mil japoneses que tiveram de abandonar as suas casas continuam ainda a viver em casas e abrigos temporários e a empresa que gere a central (Tepco) continua a pagar indemnizações a todos os desalojados e continuará a fazê-lo até que regressem a casa. Mas isso só quando terminar o processo de descontaminação, o que não estará para breve.