Cerca de 500.000 documentos, notas e cartas encontrados em 1897, pelos arqueólogos, Bernard Pyne Grenfell e Arthur Surridge Hunt na antiga cidade de Oxyrhynchus, 160 km a sul do Cairo, estão agora a ser traduzidos, revelando novas pistas sobre como se vivia no antigo Egito e, também, trazendo à luz do dia obras desconhecidas ou que se julgavam perdidas.

Os documentos estavam amontoados naquilo que se acredita ter sido uma lixeira e haviam sido conservados por a areia do deserto os ter coberto. Quase 120 anos depois de terem sido desenterrados e levados para o Reino Unido, um projeto original mobilizou milhares de voluntários que começaram a ajudara na tradução dos 500.000 documentos. É que até 2012 apenas 5.000 tinham sido estudados.

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Os arqueólogos Bernard Pyne Grenfell y Arthur Surridge Hunt, que descobriram os papiros há quase 120 anos

Muitos dos papiros encontrados têm mais de 2.000 anos e alguns revelam factos essenciais para compreender a vida na época. Entre todos aqueles escritos podem-se ler peças de teatro inspiradas na vida de Moisés, cartas pessoais, remédios para a ressaca e relatórios médicos, conta o The Independent.

Um dos documentos agora traduzidos revela fragmentos de uma peça de teatro baseada no “Êxodo”, o segundo livro da Bíblia onde são narradas as histórias da escravidão dos hebreus no antigo Egito, se conta a história de Moisés e como o profeta libertou o seu povo, levando-o à terra prometida. Esta versão dramatizada foi escrita em Alexandria por um autor desconhecido, de seu nome Ezequiel, e data do século II a.C. Seguindo o estilo de uma tragédia grega, a peça coloca o próprio Moisés a contar a sua vida e a explicar, por exemplo, como o seu nome Moisés deriva de ter sido encontrado nas margens do Nilo.

Elementos de Euclides

Um dos papiros onde se transcreve um pedaço da obra de Euclides, “Elementos”

Outra grande descoberta literária foi a de um extrato de uma tragédia de Euripides que se julgava perdida para sempre, “Andromeda”. Acredita-se que essa peça tenha sido produzida pela primeira vez em 417 a.C. Em declarações ao The Independent, o Professor Dirk Obbink, da Universidade de Oxford, comparou esta descoberta a encontrar uma passagem perdida de uma peça de Shakespeare.

Mas as descobertas não se ficam por obras literárias marcantes. Entre os textos médicos encontrados leem-se receitas interessantes como a que promete curar as ressacas. Ficámos assim a saber que no ano 500 a.C., as dores de cabeça provocadas pelo excesso de álcool eram curadas com as folhas de um arbusto, “chamaedaphne” ou louro da Alexandria, que proporcionavam uma cura milagrosa e devia ser usado ao pescoço para que surtissem efeito, como explica o El Confidencial.

Estas descobertas foram possíveis devido a um enorme número de voluntários que ajudaram na tradução dos documentos. De facto este projeto abriu as portas a “cidadãos-cientistas” que tivessem conhecimento, ainda que rudimentar, de alfabeto grego antigo. Os documentos foram partihados online e foram usados algoritmos criados pela Universidade de Oxford para cruzar as traduções com textos conhecidos e para avaliar a precisão o trabalho dos voluntários.

Obbink considera que a ajuda dos voluntários foi essencial para agilizar o projeto. Afinal, entre 1897 e 2012, apenas 5.000 dos 500.000 documentos tinham sido analisados.

Em relação à descoberta da versão dramatizada do “Livro do Êxodo”, o professor realça como é importante haver uma cópia real de excertos de um livro que só era conhecido por ter sido citado numa obra do século IV A.C. “É incrível o que vai parar ao lixo”, desabafou Obbink. Mais incrível, o que aí se conserva durante tantos séculos.