Lula da Silva: Eu tou te ligando por duas coisas: primeiro p’ra dizer que a Ferroviária tá boa p’ra caralho, hein?
Edinho Silva: Você viu só? Te falei…
LS: Não. E ontem eu vi uma entrevista do técnico da Ferroviária. Ele é português, né?
ES: 33 anos, presidente.
LS: Ele é português. Porra, fiquei impressionado com a entrevista dele.
ES: O cara é bom, é bom. Eu, quando eu conheci ele, eu jantei com ele um dia lá em Araraquara. Ele conversa com você sobre economia, sobre o processo migratório da Europa, sobre a crise económica…
LS: Como que ele foi parar? Como que ele foi parar na Ferroviária?

De um lado Lula da Silva, o ex-presidente do Brasil e ex-futuro chefe da Casa Civil, pelo menos até ver, pois a nomeação foi suspensa; do outro estava Edinho Silva, o ministro-chefe da Secretaria da Comunicação Social. Lula queria alertar Edinho para os tumultos que se adivinhavam para breve na imprensa, nomeadamente sobre a nomeação de Eugênio Aragão para ministro da Justiça — “Vai sair muita crítica sobre a nomeação do novo ministro, com o objetivo de encurralá-lo”, avisa Lula. A escuta pode ouvir-se neste artigo da Folha de São Paulo.

Mas antes a conversa era sobre futebol, mais concretamente sobre um treinador português. Falavam num português diferenciado, com boa cabeça. Edinho Silva chegou a dizer-lhe que o homem um dia seria selecionador brasileiro. Lula ficou maravilhado com o português, e até pediu ao ministro-chefe para a Comunicação Social para lhe dar esse recado, de que gostou do que leu.

Quem é então este português que caiu no goto de Lula da Silva, o homem mais falado do momento? Chama-se Sérgio Vieira, é treinador de futebol e tem 33 anos. Atualmente defende as cores do Ferroviária, que há dias surpreendeu o poderoso Palmeiras. “Depois desse jogo tive mais solicitações da imprensa, porque tivemos muita posse de bola, um domínio total”, disse ao Observador. Sobre os rasgados elogios de Lula da Silva, Vieira prefere não misturar assuntos. “O meu foco não é esse, não é a política, não é a imprensa. Isto está complicado. Só me interessa o futebol, o treino…”

“O meu foco não é esse, não é a política, não é a imprensa. Isto está complicado. Só me interessa o futebol, o treino…”

O Observador pediu ajuda ao treinador português — com passagens pela Académica, Braga e Sporting como observador — para dar umas pistas sobre qual seria a tal entrevista que teria sido música para os ouvidos de Lula. “Talvez uma dada ao Trivela do uol esporte, foi mais ao pormenor“. Okay, Google: Trivela, uol esporte, Sérgio Vieira. Et voilà! A frase escolhida para título foi “No Brasil, o estudo do futebol não é tão profundo”.

O arranque do texto até sugere uma aproximação com José Mourinho e André Villas-Boas, pois os três não têm passado como jogadores de futebol. E porquê treinar no Brasil, quando todos os treinadores preferem é vir para a Europa? “Acima de tudo, pelo histórico, o facto de um estrangeiro, um gringo, dificilmente ter sucesso no Brasil. A maior parte [do sucesso] é de treinadores locais. É uma marca histórica que quero deixar. Um técnico português que tenha sucesso e conquiste tudo aqui. O Mourinho ganhou diferentes competições em diferentes países. É algo diferente, algo que fica marcado na história”, respondeu ao Trivela.

Sobre o tal estudo do futebol, o treinador sugeria na entrevista diferenças grandes entre Portugal e Brasil. “Eu sei que aqui o estudo do futebol não é tão profundo. Isso se vê no número de livros que se faz sobre conceitos de jogo. É muito, muito mais reduzido do que existe em Portugal. Naturalmente, isso é um grande indicativo.”

E qual é, afinal, a filosofia deste português que encanta Lula? “Acima de tudo eu gosto que minhas equipes tenham o domínio do jogo, o controle da bola”, dizia ao Trivela. “Se minhas equipes tiverem a capacidade de tê-la na maior parte do jogo, nós mandamos nele. Controlando o jogo, controlamos qualquer situação que aconteça. Gosto que minha equipe seja ofensiva e crie situações de golo, ao mesmo tempo em que mantenha um certo equilíbrio, que não perca a bola e sofra contra-ataques.” Claro que estas ideias tresandavam a Pep Guardiola, o treinador catalão do Bayern de Munique que está a caminho do Manchester City.

O jornalista brasileiro pensou o mesmo (“Eu ia perguntar qual a sua referência de treinador no futebol mundial, mas parece que é o Guardiola, né?”). E era mesmo. “Sem dúvida. Não apenas o Guardiola, o Mourinho também. Lembro-me do Porto dele, que dominava muito os encontros. A própria primeira passagem do Mourinho pelo Chelsea tinha uma equipe assim. Nos últimos anos, o Barcelona e o Bayern de Munique foram equipes que se destacaram.”

Sérgio Vieira está a dar nas vistas porque está na frente no Grupo C do Campeonato Paulista, a par do São Paulo e Audax-SP. A vitória contra o Palmeiras foi importante e meteu-o debaixo dos holofotes. A imprensa escreveu coisas como “A Ferroviária voltou a mostrar neste domingo porque é um dos melhores times do interior neste Campeonato Paulista” e “A Ferroviária, bem treinada pelo português Sérgio Vieira, dominou a posse de bola e envolveu a defesa alviverde”.

Voltemos às escutas. Antes de introduzir o tema mais complicado, Lula da Silva quis saber mais sobre Sérgio Vieira e perguntou a Edinho Silva donde havia chegado aquele português. E o diálogo desenrolou-se assim:

Edinho Silva: É o seguinte. A Ferroviária, só pra você lembrar, você vai lembrar, a antiga VILARIS foi comprada pela INEPAR, lembra?
Lula da Silva: Eu lembro.
ES: A INEPAR ela é do Paraná, o sócio da INEPAR é o ATILANO e o Mario Celso Petralha, que é… que é o presidente do Atlético Paranaense. Então desde 2004, a Ferroviária tem uma parceria com o Atlético Paranaense. Eles põem os moleque da base, os moleques que eles querem amadurecer eles põem lá p’ra jogar na Ferroviária. Esse técnico, ele era um treinador sub-23 do Atlético Paranaense.
LS: Ahn.
ED: E o ano passado o Atlético fez lá uma parceria com o Guará, de Guaratinguetá, que o time tava caindo. Aí ele com o time de moleque não só tirou do rebaixamento como quase classificou. Aí, né, como tem a parceria, o Atlético indicou ele p’ra pôr na Ferroviária. Eles puseram onze jogadores e esse treinador.
LS: Aham
ES: E o cara tá… e o cara ta indo bem p’ra caralho, né?
LS: Puta que o pariu, não… e depois a cabeça dele é boa.
ES: É boa, o dia que eu jantei com ele eu falei desse jeito p’ra ele, falei assim: ‘Sérgio, você ainda vai treinar a seleção brasileira, eu não sei quando, mas você vai treinar. Eu falei, então aproveita essa oportunidade. Eu falei pra ele: ‘No Brasil, você é um quadro em branco, aproveita essa oportunidade e constrói um bom perfil, faz diferente, faz diferentes dos treinadores que tão aqui’. É bom, ele tem curso na UEFA.
LS : Se você conversar com ele pode dizer que eu assisti a entrevista dele e gostei muito.
ES : Um dia eu levo ele p’ra falar com você, você vai gostar muito, ele é muito bom.
LS : Ele é um cara diferenciado.
ES : E é um moleque bom. Muito bom.
LS: E o time da Ferroviária tá jogando bonito.